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Perdão foi feito para a gente pedir

Por DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA

17 de setembro de 2020

O Evangelho de São Mateus (Mt 18,1-35) oferece um magnífico roteiro para a vida em comunidade, no qual o lugar a ser reconhecido aos pequeninos, a superação do escândalo, a oração em comum, o exercício do ministério do perdão e a presença do próprio Jesus no meio daqueles que se reúnem em Seu nome oferecem as coordenadas para a vida de Igreja em todos os tempos. Um detalhe mereceu do evangelista atenção especial, para revelar as entranhas de compaixão do coração de Deus, a serem manifestadas no dia a dia dos cristãos, e é o perdão a ser oferecido reciprocamente.

Uma música popular brasileira canta assim: “Eu voltei pra me humilhar, mas não faz mal, você pode até sorrir! Perdão foi feito pra gente pedir!”. O perdão começa com a falta, o pecado, a miséria do outro, começa no negativo! É até interessante pensar que no Sacramento da Reconciliação só pode existir absolvição se houver pecado! Ele é matéria de um sacramento! Na convivência diária, perdão é feito para ser pedido e ser doado com coração generoso! Entretanto, se penetrarmos no mais profundo desse gesto tantas vezes exigente e mesmo difícil, será necessário olhar para o alto e descobrir que só lá dentro do coração de Deus pode nascer o perdão!

A experiência de Moisés diante de Deus é magnífica: “O Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés, e ele invocou o nome do Senhor. E o Senhor passava diante dele. E ele exclamou: ‘O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel, que conserva a misericórdia por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias e pecados, mas não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração’. Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão e prostrou-se em adoração. Depois disse: ‘Senhor, se é verdade que gozo do teu favor, então caminhe meu Senhor no meio de nós, pois esse é um povo de cabeça dura.

Perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua’” (Ex 34, 5-9). E toda a história da salvação nos mostra as idas e vindas de um povo de cabeça dura, amado por Deus! Misericórdia pedida, misericórdia concedida, e isso, setenta vezes sete vezes (Cf. Mt 18, 22), como o Filho de Deus propõe a todos nós! Para retratar o que o Evangelho propõe, é bom pensar que o devedor da parábola contada por Jesus devia uma enorme fortuna, suficiente para o salário de um empregado por centenas de anos.

O patrão da parábola é a revelação daquele que é mais pai do que patrão, sentiu compaixão, expressão usada na Bíblia para mostrar a misericórdia de Deus. A dívida do companheiro de trabalho era pífia em relação com a fortuna a ser paga por aquele que recebeu e não soube oferecer misericórdia. Entretanto, se Deus não se cansa de perdoar, como ensina o Papa Francisco, nós é que nos cansamos de pedir a Sua misericórdia, e não nos abrimos para transmitir o perdão tantas vezes recebido às pessoas que nos ofendem. Na oração do Pai-Nosso, nós mesmos nos comprometemos, pedindo que Ele nos perdoe “assim como nós perdoamos”! Estaríamos perdidos se Deus se limitasse a perdoar-nos nessa medida!

Se o perdão vem de Deus, sabemos com que arte Ele nos criou e com que poesia nos oferece as raias da misericórdia, compassivo com aqueles que caem! Dele aprenderemos tal arte! Podemos começar com uma balança, colocando num de seus pratos a pessoa que nos ofendeu e no outro as falhas cometidas. Para Deus e para quem quer perdoar, como faz o Senhor, a pessoa tem mais valor do que o erro cometido! A lógica do perdão é a arte do carinho com o qual Deus olha para nós. Nenhuma falha ou pecado poderão apagar o selo de amor com o qual fomos criados!

Para perdoarmos uns aos outros, é preciso olhar primeiro para o alto, contemplar o coração de Deus! Depois, olhar para dentro, pois fomos feitos por Ele, e em Sua obra-prima estão as entranhas de misericórdia, postas dentro de nós. Lá dentro, não fomos feitos para odiar, e o ódio ou o desprezo dos outros são tão contraditórios com a obra de Deus, que nos fazem absolutamente infelizes! Há que fazer uma opção de princípio em nossa existência, de nunca querer demolir ou destruir quem quer que seja. Olhar as outras pessoas sempre e permanentemente como candidatas à vida e à amizade, mesmo quando nos parecem irrecuperáveis! Já seria um passo imenso apenas não querer destruir os outros!

No Sermão da Montanha (Cf. Mt 5, 23-26), o Senhor propõe que o primeiro passo seja dado sempre “por mim”. É necessário desenvolver em nós a sensibilidade apurada para identificar o sentimento existente no coração do outro, e ver se ele tem algo contra mim! Se o perdão é uma arte, é preciso ter esta sintonia fina, carregada de sensibilidade, para ver o que é possível fazer para aproximar-nos dos outros. continua…

DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. É Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.