Destaques Opinião

Pena desfeita

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

25 de janeiro de 2021

De invejável inteligência, qualidade rara na absorção de ideias, sucessivas colaborações em jornais e revistas de sua cidade, o jovem objetiva, enfim, atirar-se no mundo mágico da literatura. Suas atividades literárias se compunham de acontecimentos do dia a dia – o que chamam de crônicas – não deixando de lado os famigerados contos, se espraiando no universo dos textos de ficção. E, por extensão, variedades, já que escrevia o que lhe vinha à cabeça.

Mas não parava aí sua envergadura. Destrinçava relatos do cotidiano, costumes, política, em textos bem elaborados. Digamos, para ninguém botar defeito. Isto é, não há quem falte apontar senões em toda e qualquer atividade ou obra alheia, ainda mais na urdidura de composições, antes com fim jornalístico, agora para alçar voos mais arrojados, rumo à magia da publicação de um livro. Na verdade, um empreendimento pessoal com o fito de ser apreciado, quem sabe fazer-se conhecido mundo afora, a ponto de merecer saraivada de palmas no universo da arte escrita. Na imaginação, fértil por sinal, no esplendor da coragem: mais um rebento na praça.

Histórias de vida e da vida, não tão extraordinárias assim, para firmar-se no âmbito do que poderia chamar-se de obra-prima para a posteridade. Na tão instigante possibilidade do quem sabe. E que um dia podia acontecer. No exercício da manutenção de um ideal, agora chama para si a audácia de lançar seu primeiro livro. Quando avaliou: se o difícil é escrever, então que se opere o milagre de juntar e traduzir os calhamaços de tudo que fizera em um livro. No eito e aragem das possibilidades, café pequeno.

De fato, sabia fazê-lo e bem. Pena afiada. Agora era botar fé e seguir adiante. Traduzir os ideais dos seus textos nas páginas de um livro. Transformar o pensamento em realidade. A busca do algo mais. Oportunidade posta, o sol nasce para todos. Doravante, fazer-se notório é possível. Pujança no ato de querer. Mais um acadêmico na literatura.
Posto isso, nutrido de vontade férrea, dirigiu-se a uma editora para inteirar-se dos custos operacionais da obra. Dinheiro não dá em árvore, não cai do céu, e costuma ter seu lado moral pouco apreciado no campo dos valores, eis o desafio.

Mas foi exatamente aí que pegou. O dinheiro é a mola mestra do mundo. Como dizem, é o que nos impulsiona na direção, nem sempre correta, entretanto, para alcançarmos algo novo, rentável, para a serventia de um mundão de coisas. No caso em questão, para o nascimento do tão sonhado livro. Na precisão, a pergunta crucial: como bancar a primeira obra literária de um idealista em início de carreira? Sem reservas monetárias, ou como aprecia dizer o incompreendido amigo de boteco Coroné Roberto Gonçalves – quiçá no segmento da cultura inútil –, “l’argent que é bom, negativo futebol clube”.

Mais do que nunca, necessário o vil metal. Uma questão a ser apreciada, deglutida, ponderada, sob a luz da realidade dura e cruel. A dura sorte, então, bateu-lhe à porta. Para tanto, no exercício do périplo, buscou inicialmente os agentes da Secretaria da Educação do município. “Sem verbas para o segmento”, explicaram. E mais disseram: “Se ajudar um, no varejo, tem que fazê-lo no atacado, por igual”. Sem esmorecimento, recorreu, a diversos outros órgãos e empresas com suporte na Lei de Incentivo à Cultura. Em vão. Dirigiu-se a parentes e amigos abastados. Que nada. “Deixar de lado essa bobagem, o que convém”, o que mais ouviu.

E tomem rajadas de decepções: “Quem vai ler? Ninguém liga para a cultura nesse país. Livros? Para quê? Pura perda de tempo”. Latas de água fria. No encanto e encontro das probabilidades, a hipótese de haver um mecenas em órbita para suprir gesto tão valioso. No improvável, tão ou mais, na multidão de letrados poucos, saberem o significado da expressão. Mecenas? Segundo a história antiga, nos países neolatinos, indica uma pessoa dotada de poder ou dinheiro, que fomenta a produção de literatos e artistas, muitos dos quais desprovidos de recursos próprios, o que, convenhamos, a grande maioria. No esteio do narrado, o próprio. O fôlego vital do noviço que quer ver suas ideias, textos e contextos publicados: “Je suis présent!

Qual o quê! Imbuiu-se do que viu e ouviu. Eterna burocracia. E para atrapalhar: o povo de fato não lê. Desconhece a importância do ato da leitura. E quem pode ajudar, de fato não ajuda. O estado faz opção eterna por um bando de ignorantes. Quanto mais inculto e menos formoso, menos questionador o povo. Os governantes estimam. Assim agem. A tristeza por inteiro lhe tomou conta. No público e notório, nos requintes da burocracia, teria que deixar formulado o pedido nos órgãos públicos e aguardar o processo seletivo. Quanto tempo? Não se sabe. Um ano, dois, três anos… Nunca? De dez, entre dez estrelas, a máxima do infortúnio: nunca!

Avaliaram no mercado de valor. Para editar seu projeto literário, livro de 200 páginas, o autor teria que dispor de, no mínimo, 15 mil reais. E não para aí! Lançamento do livro, bom trânsito nos meios culturais e de comunicação, coquetéis, talvez ver arrecadado o investimento primário num curto prazo. Precisava de mais. Chorar as pitangas é o que lhe cabia. De longe, não sabia fazê-lo. Ver no rosto de falsos compadrios o retrato nada edificante do obséquio, bem desagradável. A comprovação de esmaecidos e esquálidos rostos, sorrisos amarelos em ocasiões quanto a comprar por comprar. Mais um para o enfeite da prateleira, se chegar a isso. Não. Absolutamente, não. Melhor é deixar para mais logo. Quem sabe para o ano?

Posto isso, o tão buscado sonho, o conhecido tripé: filho já moço e fincado na terra; na botânica da vida, o plantio de árvore há muito em produção. Agora, pensamento de muitos, o fechamento do ciclo, através do tão procurado sonho, que era a realização do terceiro item na terra: escrever um livro. Na dramaticidade do real, contos pitorescos, outros nem tanto, descrição de fatos do cotidiano, análises psicológicas do ser humano, para a apreciação do leitor ávido de aventura e emoção, tudo agora se diluindo em amargos desencantos. É o que se afigura na mente do noviço nem um pouco rebelde, mas em caráter de desalento.

Mais um rebento na praça… Então, não? Este o desenho da sorte! O desiderato! Ah, mas faltou dinheiro. Não houve incentivo à cultura. Os ideais evaporaram-se nos descaminhos do tempo. Que pena. Uma pena mais sentida e sofrida do que a própria pena no simbolismo do instrumento para a prática da escrita. Pedras no meio do caminho. Drummond teve mais sorte, mais talento. Ajuda direta de amigos do governo. Contou com a proximidade e ajuda do ministro da Educação e Cultura do Governo Getúlio Vargas, Gustavo Capanema, o Educador Modernista.

Capanema fora chefe de Drummond. Quem lhe tirou efetivamente as pedras do caminho. Nem houve tanta pedra assim. Nem mesmo há de saber se houve. No belo poema, sim. De imediato, na representação abstrata, ordenou os ‘quinze precisados contos’ para a confecção de um nobilíssimo escritor, pronto e acabado. Talento, sim, com fartura. O maior de todos os poetas. Mas um moço tem o direito de sonhar. De fazer. De acontecer.

Faltou-lhe um Gustavo Capanema. Em toda a história do Brasil, aquele que mais tempo ficou e ajudou na pasta da educação enquanto Ministro da Educação e Cultura. Onze contínuos longos anos. Mineiro de Pitangui, lá nasceu quando era um esquecido arraial Onça do São João Acima, hoje Onça do Rio Pitangui, em 10 de agosto de 1900 e faleceu no Rio de Janeiro, para onde levou Carlos Drummond em 10 de março de 1985.

Com efeito, não se fazem homens como Gustavo Capanema. Nem como antigamente, nem com a têmpera de boas repartições na visibilidade da boa liderança. Líderes já não existem. Tudo perdido em surrados e desgastados setores. No vazio de pontos obscuros e corridos, perderam-se no passado. Esclareça-se. Havia tempos de chumbo. No entanto, tantos os jogos de cintura. O fazer-se de conta que se jogava o jogo jogado. Então, das pedras no caminho se construíram muros de arrimo para a consecução de nobres ideais.

Armados de metralhadoras e pistolas, os homens de preto assustavam. Metiam medo. Viviam em sombras tétricas, na expectativa de saber o que se escrevia e do que se falava. Do que se contava e cantava. Prendiam, é verdade. A sorte, por sorte, é que muito pouco ou nada entendiam. E continuam assim. Talvez, pior. No teórico do folclórico, em surreais áreas de logística, mal conseguem ouvir e escutar perguntas sem que lhes permitam tirar as máscaras. É preciso avisar que a máscara não impede alguém de ouvir. O insumo é para a boca e não para os ouvidos. Malfeitos Instalados, episódios assim espalham-se nas redes sociais em facultativas fôrmas, na forma de memes e gozações infames.

E quanto aos culpados, serão sempre os que escrevem. Desde o moço idealista até o mais famoso deles. Daí não se acreditar na publicação de mais um livro, puro e simples. Mais um rebento na praça, com ajuda oficial, não apreciam ler. Nem permitem a leitura. Nem arte alguma. A menos que… Quando algum é distribuído ao social, em ocasiões específicas, e não fazem honrar o bom padrão de comportamento, nos ditames dos roteiros da boa fé, algo está errado. Com efeito, ao que parece, usam de cambalacho, através de interesses espúrios e mesquinhos, mediante frívolas e indecentes divisões, na plenitude da inversão de valores. Em casos tais, há que se apurar. Doa a quem doer. Com a palavra, o judiciário. Assim sendo, a pena do jovem idealista não será de todo desfeita.