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Pela primeira vez, Verônicas vão cantar sem plateia

11 de abril de 2020

PASSOS – Pela primeira vez desde que as celebrações da Sexta-feira Santa são realizadas na região, o tradicional Canto da Verônica não será realizado com plateia. A maioria das igrejas deve fazer a transmissão on line. Em algumas, o ato nem acontecerá. Em Passos, a Matriz de Senhor Bom Jesus dos Passos e a igreja de São Benedito vão transmitir o canto.

A diretora pedagógica do Centro de Aprendizagem Pró-Menor de Passos (Capp) e professora Délvia Cristina Morais dá voz à Verônica na paróquia de São Benedito há 22 anos. Ela conta que começou aos 18 anos. “Eu canto a música traduzida do Latim para o Português, e penso que desta maneira chega com mais piedade no coração do povo. E, mesmo não sendo ao vivo, que será feito por meio de transmissão, entendo que será mais piedoso ainda. Pois, o momento do canto já é sofrido e lembrar de tudo que nós estamos passando com a pandemia fica mais lamentável. É um momento tão piedoso. Toda comunidade silencia para escutar o canto da Verônica”, explicou Délvia.

Questionada sobre o mistério que envolve a figura de Verônica e seu canto de lamento, Délvia afirmou que este mistério já existiu. “Alguns têm até medo. Atualmente, não neste ano, eu termino de cantar e tiro o véu. Tem crianças que ficam assustadas com o lamento, o que é natural, mas a comunidade de São Benedito sabe que a pessoa que faz o personagem sou eu. Algumas pessoas até me chamam de Verônica em vez de Délvia”, comentou.

Cada paróquia tem a sua Verônica. Em Alpinópolis, a tradição do canto da Verônica tem sido executada, pelo menos, desde 1885, quando Antônio Luiz Maria de Freitas foi pároco no arraial, sendo organizador de uma sociedade musical, germe da Banda Santa Cecília, regida pelos maestros Aureliano Ferreira Lopes, Lúcio Quirino Ribeiro, Geraldo Aprígio de Paula e Omar Cabral Kraüss, depositária das partituras das missas cantadas e das cerimônias católicas, incluídas as da Semana Santa alpinopolense.

Por várias décadas Gasparina dos Reis, 75 anos, foi a Verônica em Alpinópolis, tanto no teatro que faz a Paixão de Cristo quanto na igreja. Ela faleceu no dia 16 de junho 2019 e, no ano anterior, já não fez o papel da mulher que, na história cristã mostra um gesto nobre que a consagrou, como exemplo de compaixão a ser seguido. A tradição conta que Verônica teria corrido até Jesus enquanto ele carregava a cruz e limpado o rosto dele cheio de sangue e suor. Quando retirou o véu, o rosto de Cristo ficou estampado no pano, que passou a ser chamado de Santo Sudário.

De acordo com a sobrinha de Gasparina, a também alpinopolense e que faz parte do teatro da Paixão de Cristo há 10 anos, Talita Aparecida David da Silva, este ano a apresentação vai usar as gravações com o canto de Gasparina. “Ela cantava em Latim, um canto maravilhoso. Eu sempre a acompanhei aos ensaios, tive vontade de aprender, mas não aprendi. Ainda não sei quem vai substituir nos próximos anos. Gasparina cantou por muitos anos e sempre se dedicou com amor ao que fazia.

Transparecia dela o amor, o carinho na preparação. Se preocupava com as roupas certas para vestir. O santo sudário que ela teve pintado, nós o guardamos até hoje, como uma relíquia”, afirmou.

Ainda conforme explicou Talita, sua tia cantou durante 20 anos com Neusa Carmem Moreira que faleceu em 2007, e as irmãs Edna e Vania Correia. “Era em torno de oito mulheres, contando com a Gasparina, sendo que ela era a Verônica e as outras eram as Beús, um trio de vozes, uma referência às três Marias presentes na crucificação”, contou a artista.

O que é o canto

 

O Canto de Verônica ou Canto de Santa Verônica, é um ritual tradicionalmente realizado durante a Quaresma e a Semana Santa. Consiste em uma jovem, que transporta um véu no qual está impressa uma representação da face de Jesus Cristo, entoar um responsório e ao mesmo tempo em que entoa o canto, desenrola e exibe a estampa da face de Jesus.

O canto, ou o grito de lamentação, tinha o intuito de anunciar que o homem que seria crucificado era o verdadeiro Cristo.

Mais do que comprovar a existência de Verônica (nome que vem do latim e grego: ‘vero icone’, que significa ‘verdadeira imagem’), é se atentar a importância que ela representa. “Verônica ensina que devemos enxugar o rosto dos mais sofredores. É um ato de misericórdia”, salienta o padre Kelvin Konz, da paróquia Santa Cruz em Barreiro.

O canto de Verônica é um trecho do Livro das Lamentações de Jeremias, referente ao versículo 12 do primeiro capítulo. O cântico de Verônica é entoado nas Igrejas em latim ou em português.

Em Latim o canto diz “O vos omnes / Qui transitis per viam, / Attendite, et videte / Si est dolor similis sicut dolor meus. Versus: Attendite, universi populi / Et videte dolorem meum.” Uma tradução do texto original para português seria “Oh vós todos/ Que passais pela via, / Vinde e vede: / Se há dor semelhante à minha! / Atentai, povos do mundo, / E vede a minha dor.