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Patrocinadores do pânico

2 de julho de 2020

Só porque está na imprensa, não quer dizer que é o evangelho” – Michael Jackson
A primeira afirmação que faço na coluna de hoje trata da gravidade da pandemia pelo covid-19. Além de contaminar 10 milhões de pessoas no mundo e ceifar a vida de outro meio milhão, o medo que acomete a todos é sem dúvida um fator que, até mesmo mais que doenças, diminui e desintegra o ser humano.

Segundo o médico e professor Fábio Gomes de Matos, que coordena diversos projetos na área de saúde mental, agraciado na Edição 2019 do Prêmio Espírito Público, o qual reconhece profissionais públicos com trajetória de grandes contribuições para o Brasil, uma pessoa em situação de medo “pode travar o corpo, entrega aos pontos e congela as funções. É como se o cérebro dissesse: rapaz, tem mais jeito não”.

Se você não desliga o controle do estresse, passa a ter ansiedade pelos menores estímulos”, explica o médico. Todos nós sabemos que o medo subtrai a capacidade de criar, de reagir aos estímulos do dia a dia e até mesmo de cumprir tarefas e produzir. Diria que o medo é irmão gêmeo da infelicidade, da angústia e do fracasso.

Diante disso, não posso deixar de aqui denunciar o verdadeiro “investimento” que parece estar sendo feito no sentido de amedrontar, desesperar e apavorar as pessoas diante da grave pandemia. Fico indignado com as publicações que aparecem diariamente nos jornais, muitas vezes ancoradas por intelectuais, acadêmicos e cientistas que se atrevem a falar “ex cathedra” e que contém um forte componente de parcialidade no julgamento das informações sobre a doença.

Na minha coluna de 07 de maio, falei aqui do grosseiro erro que o estudo do Imperial College cometeu afirmando ao mundo que no Brasil cada doente contaminava 3 pessoas e isso triplicaria o número de contaminados a cada dia, o que jamais ocorreu – o maior índice de contaminação foi de 167%, no dia 5 de março, quando o número de infectados passou de 3 para 8 pessoas. Esta semana pude ler no UOL que “dados publicados neste domingo pela OMS revelam um número inédito de novos casos”, completando que esse ineditismo ocorreu “com o Brasil liderando as infecções e mortes” em um período de 24 horas.

Se debruçarmos sobre essa malfadada noticia, veremos que exatamente no referido dia o Ministério da Saúde recebeu grande volume de dados represados e por incrível que pareça o próprio UOL afirmara dias antes que “o motivo teria sido dificuldades técnicas envolvendo nove secretarias estaduais, que não teriam conseguido submeter os números totais.

Quando o total de dados foi contabilizado, o resultado registrado na sexta-feira atingiu o número inédito”. Será que até mesmo uma organização que pretende congregar ações de saúde no mundo, não prima pelo cuidado com informações e se apresse a apontar situações que não correspondam à realidade? Por outro lado, o prestigioso “home page” também não deveria manter uma linha de coerência com suas publicações e cuidar de divulgar as informações completas e verdadeiras evitando assim a difusão do pânico?

Confesso que estou farto de encontrar todos os dias notícias apelativas, escandalosas e parciais que contribuem decisivamente com o pânico que se instala nas pessoas e, por requinte de crueldade, especialmente nas pessoas idosas.

Tenho acompanhado os dados oficiais da pandemia desde o início de março e quero aqui apresentar alguns que podem contribuir para que as pessoas se libertem do pânico provocado, chego a acreditar, pela maldita cizânia política que acontece no Brasil. Estas informações estão disponíveis para todos, mas aparentemente a grande mídia não se interessa em divulgá-las.

Primeiro, afirmar que a comparação entre números que representam grandezas diferentes, precisa ocorrer com a homogeneidade das bases, como, por exemplo, em porcentagens. No caso da pandemia, os números em percentual são ínfimos, o que obriga a comparar a contaminação entre países com o número de contaminados por milhão de habitantes. Nesta situação, o Brasil não é mais o segundo maior como não cansa de difundir a grande mídia, encontrando-se numa situação muito menos grave.

Não é razoável comparar os números do Brasil com os da menor república do planeta, Nauru, com seus 9,5 mil habitantes, mas por incrível que pareça pude ler matéria de catedráticos com toneladas de diplomas afirmando que os números por milhão nada significam, apenas porque o Presidente usou esta proporção em um de seus discursos.

Outras informações devem também chegar ao conhecimento da população, como a de que o número de recuperados no Brasil ultrapassou o número de pessoas que ainda estão doentes, estando em trono de 54%. A letalidade, ou seja, o percentual de mortes em relação aos infectados, que já apontou mais de 7% está hoje em torno de 4%, o que significa que o tratamento médico está conseguindo maior eficácia.

Outro dado importante se refere à taxa de contaminação, que nada mais é que o comparativo do número de novos contaminados pelo total de doentes do dia anterior, que diminuiu bastante e está oscilando em torno de 5%, o que significa dizer que precisamos de 20 pessoas doentes para contaminar uma pessoa. Por fim, dois dados que podem aliviar as tensões: o número de pessoas contaminadas no Brasil (cerca de 1,4 milhões de pessoas) representa o pequeno percentual de 0,6% dos 211 milhões de brasileiros e se formos dar a proporção do número de doentes nas áreas urbanas veremos que no caso de Passos, que tem 28 quilômetros quadrados na zona urbana, existe um doente para 466 mil metros quadrados dentro da cidade, ou seja, 1 doente para uma área de 43 campos de futebol.

Finalizando, quero reafirmar para a necessidade de todos continuarem tendo o máximo de cuidado. Manter com rigor os cuidados como o uso de máscaras e medidas de higiene. O distanciamento e isolamento social daqueles considerados pertencentes ao “grupo de risco” são importantes assim como a ampliação das atividades econômicas, mas tudo isso mantendo a serenidade e afastando o pânico e o desespero, o que parece incomodar a muitas redações, universidades, nichos intelectuais e até mesmo partidos políticos.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA é engenheiro eletricista e ex-político