Destaques Música

Para reviver George Harrison

Carlos de Oliveira/ Especial

28 de agosto de 2020

'All Things Must Pass', que será relançado pela família de George Harrison, está no Rock and Roll Hall of Fame. / Foto: Divulgação

O dia 27 de novembro de 1970 foi uma espécie de redenção para milhares de adolescentes que haviam passado esse período mágico da vida ao som dos Beatles. Até essa data, desde o fatídico 10 de abril desse mesmo ano, quando Paul McCartney anunciou o fim da banda, a impressão era de que a juventude havia acabado. Mas foi justamente o Beatle mais acanhado, quieto e de talento desprezado pela dupla Lennon e McCartney que reviveu o sonho que toda uma geração pensava estar morto. George Harrison apresentava seu álbum solo All Things Must Pass.

Agora, 50 anos depois do lançamento dessa peça histórica, Olivia e Dhani Harrison, viúva e filho de George, preparam uma nova surpresa: uma reedição especial do álbum que colocou o ex-Beatle no pedestal dos grandes compositores. Até então, nada semelhante havia aparecido no mercado do rock/pop: um álbum com três LPs, acondicionados em uma caixa de muito bom gosto, letras das canções, fotos, arranjos demolidores de Harrison e de um certo Phil Spector, sem contar a ajuda de um grupo invejável de músicos de apoio que ia de Eric Clapton a Billy Preston, de Ringo Starr a Bob Dylan, para citar apenas alguns poucos exemplos.

Para resgatar essas preciosidades, uma equipe formada por engenheiros de som, músicos e amigos, comandada por Dhani Harrison, está mergulhada há meses em velhas caixas contendo as fitas originais das sessões de gravação de All Things Must Pass. “Temos pessoas vasculhando montanhas de fitas e elas continuam chegando até nós”, diz Dhani com entusiasmo. “São caixas e mais caixas de material, com muita coisa inédita e que não se limita apenas às gravações de All Things Must Pass, mas também à fase do selo Dark Horse, criado por George depois da dissolução da Apple.”

Para aumentar a expectativa que já se forma em torno da celebração dos 50 anos do álbum, Olivia deixa escapar que, no material pesquisado, há vários covers de Bob Dylan nunca editados e uma canção composta por Harrison e Dylan chamada Window Window, até hoje nunca lançada formalmente.

Em novembro de 1970, o lançamento de All Things Must Pass foi um choque, no melhor dos sentidos, para o mercado fonográfico da época. O álbum trouxe à luz um George Harrison paciente que, ao longo do tempo em que integrou os Beatles, armazenou com cuidado as muitas canções rejeitadas por Lennon e McCartney, sob o argumento discutível de que eram inadequadas para a banda.

O fim dos Beatles, portanto, foi libertador para Harrison. Valeu-se de sua afinidade poética e amizade fraterna com Bob Dylan e com ele compôs I’d Have You Anytime, faixa que abre o álbum triplo. Deu seu toque pessoal a If Not For You, também de Dylan, e reafirmou ao mundo sua profunda religiosidade com Beware of Darkness e My Sweet Lord.
Agora é aguardar o lançamento da edição comemorativa de 50 anos de uma obra-prima, que hoje figura entre os 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame.