Destaques Dia a Dia

Para Alguns Males, A Cura Nem Sempre Vem

3 de julho de 2020

Se houvesse um meio de lembrar só as coisas boas eu certamente o faria. Mas a vida tem duas faces. Não sei separar a felicidade da tristeza. Assim sendo, registro o que me vem à mente sem fazer distinção. Guardo imagens doces e ternas, outras amargas e sofridas que ainda me entristecem.
Na roça, as crianças participavam de tudo que acontecia. Era comum levá-las a velórios e enterros. A tenra idade nunca foi razão para que fossem poupadas dos dramas e angústias dos adultos.
A vida era simples, sem preocupações com problemas psicológicos. Fui menina alegre, curiosa e falante. As amigas de mamãe sempre me pediam ajuda para cuidar de crianças menores, regar plantas, tratar de galinhas, ajuntar lenha…

Chiquinha foi a pessoa que mais marcou essa época. Tinha menos de trinta anos e uma escadinha de filhos. Sua primogênita era de minha idade. Moravam numa casa simples. O marido era lavrador, ela fiava lã e tecia colchas por encomenda.

Lembro-me bem de sua paixão por orquídeas — as quais chamava de parasita — seus olhos brilhavam quando o marido trazia da mata, um ramo florido. Era como se ganhasse joias raras.
Certa ocasião, a Chiquinha começou emagrecer, perdeu o rosado que alegrava seu rosto e penalizada, a vizinhança se entristeceu juntos com o marido e os filhos.  Os chás não aliviavam as fortes dores que sentia. Agoniado, o marido buscou recurso levando-a no doutor lá da cidade de Bambuí. Tudo em vão. Minha amiga só piorava.

Mal saía do quarto… Eu a visitava todos os dias. Levava uma comida diferente, uma fruta e água fresquinha da mina. Sentava-me no banquinho ao lado de sua cama. Queria ficar perto dela, esperar que sarasse para vê-la outra vez ao tear, contando histórias enquanto enrolava os novelos de lã.

Ela não sarou… A cada dia mais pálida, seu rosto miúdo sumia no travesseiro entre os cabelos cacheados. Suas crianças amuadas pela casa, pareciam se despedir.

Na minha triste rotina de visitá-la todas as tardes, eu a observava triste, pois ela havia recusado a laranja que trouxe…

Em um momento, Chiquinha pousou-me os olhos e ajuntando forças balbuciou:

— Maria, a parasita roxa deu flor… Apanha pra mim?

— Vou agora buscar — Disse-lhe, prestativa, mas senti o toque de sua mão fria no  braço e um som quase inaudível:

— Hoje não…

No outro dia, quando acordei soube que a Chiquinha partira ao romper da aurora. Não me sai da memória o seu caixão todo coberto de um tecido roxo. O véu de renda lilás cobria-lhe o rosto. Seu semblante sereno… Ela parecia em paz…

Sufoquei as lágrimas. Fui até a árvore e apanhei o ramo com uma  orquídea mais bonita e perfumada que já vi. Entrei na sala onde Chiquinha era velada e sob os olhos surpresos de todos os presentes… Retirei o véu, segurei suas mãozinhas frias e coloquei junto com o terço, a flor que ela tanto gostava. A dor não me deixou ficar ali. Fui embora. Não quis ouvir o murchar da flor, nem sentir o apagar da vela.

Essa perda ficou associada à cor do caixão, que dentro de um carro de bois, levou embora minha amiga Chiquinha.

Não sei explicar o motivo, mas  por estranho que pareça,  nunca consegui usar nenhuma peça de roupa roxa. Nem  joias,  bijuterias, ou utensílios domésticos. Nada mesmo!
Nesta cor eu só gosto de orquídeas.

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.