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Pandemônio, ‘Gabinete do ódio’ e outras forças

10 de junho de 2020

Pandemônio: Palavra composta (pan) – prefixo de origem grega, que significa todos, a totalidade + demônio (daimon) – substantivo de origem grega, que significa divindade, gênio (do mal).
A palavra pandemônio foi elaborada pelo grande poeta inglês John Milton, em seu clássico poema épico “Paraíso Perdido”, de 1667, para designar o centro administrativo do Inferno, resultando na versão em latim da palavra – pandemonium – que dava nome ao palácio onde se reuniam todos os demônios sob a liderança de Satã. Em sentido popular, significa

Confusão; mistura desordenada de coisas ou pessoas. Ex.: minha casa está um pandemônio! Grupo de pessoas que se reúne para fazer o mal ou causar tumulto agitação, bagunça, baderna.” (Houaiss).

Confesso-me angustiado diante do desafio que está sendo escrever este artigo neste momento. Angustiado, porque aturdido em como escrever algo de positivo, em meio ao mar de hostilidades e violências verbais, que já se derramam para o campo das agressões físicas, que tomou conta dos relacionamentos humanos em todos os âmbitos (familiares, políticos, sociais, religiosos, das nações…), abarcando a tudo e a todos, quer presenciais, quer virtuais, onde ninguém mais se respeita ou procura o entendimento, em insana polarização e radicalização de posições e de opiniões, em que se busca a prevalência de um, ou de um grupo e de suas ideias, pela destruição, eliminação, do outro que adota posição divergente – “O homem é o lobo do homem”?

Corrupção, conluio, quadrilha, criminoso, “mensalão”, “petrolão”, desvios, roubo, estupro, pedofilia, homicídios, escalada do crime, racista, homofóbico, fascista, nazista, “bolsominion”, “bolsonazis”, comunista, capitalista, sociopata, aloprados, esquerdopata, esquerdalha, palhaço, idiota, besta, imbecil, anta, “cala a boca”, pq., fd., vt…, lista sem fim de substantivos, adjetivos e de imprecações que cada vez mais se incorporam ao nosso cotidiano e que, também, às vezes, ou constantemente, fomentamos. Quem, até mesmo em momento de indignação, de ira “santa” contra este estado de coisas, nunca incorreu em uma destas? E quantos de nós, que não fazem outra coisa a não ser alimentar e reproduzir tais ódios (e se escondem sob o manto de estar “combatendo o bom combate” ou de estar do lado certo)?

Diz o dito popular que “o fogo se combate com fogo”. É verdade. Por exemplo, quando um campo de petróleo se incendeia, a melhor forma de se combater o incêndio é fazê-lo com outro ainda maior, ou seja: gerar uma grande explosão próxima, que irá consumir todo oxigênio do entorno, que está alimentando aquele incêndio e, então, debelá-lo pela ausência do elemento comburente. Mas é só isso. Fogo com fogo. Dois elementos negativos se anulando um ao outro, restando a terra arrasada a ser reconstruída. Contrariando a matemática, menos com menos dá menos, neste caso, e por extensão aos mecanismos sociais, políticos, econômicos, religiosos….

No caminho da construção de algo novo, melhor, superior ao ‘status quo’, que se incorpore como um degrau a mais na escala do crescimento humano e de suas interações, não basta combater o fogo com o fogo. Isso tem o seu tempo e lugar, mas a ‘matemática’ há de ser diferente, é a do mais com mais, que resulta em mais. É o caminho árduo de ser propositivo, pelo qual devemos trilhar, e que poucos querem enxergar e com ele se comprometer. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve às quartas, quinzenalmente, nesta coluna.