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Pandemia obriga profissionais de transporte escolar a mudar de ramo

Por Ézio Santos / Especial

4 de Maio de 2021

A direção da Associação de Transporte Escolar (ATE) de Passos enfrenta a maior crise de sua história. / Foto: Divulgação

PASSOS – A direção da Associação de Transporte Escolar (ATE) de Passos enfrenta a maior crise de sua história. Por causa da pandemia do novo coronavírus, que teve início em março do ano passado e causou a suspensão das aulas presenciais, principalmente nas redes municipal e estadual, profissionais que atuavam no transporte de estudantes tiveram que devolver veículos a bancos para pagar financiamentos ou mudar de atividade para sobreviver. Para o presidente da ATE, Suzemberg Gonçalves de Souza, de 42 anos, a esperança de voltar à normalidade é mínima.

A doença acabou com Passos, o Estado e o país. Só Deus na causa para nos tirar desta peste, e rogando a Ele, nada é impossível, mas acredito que ainda vai demorar muito, principalmente a regularização do nosso trabalho”, lamenta.

A pandemia atingiu em cheio os 52 transportadores de estudantes, e Suzemberg afirma que muitos motoristas devolveram os veículos aos bancos porque não conseguiam pagar o financiamento, alguns tinham outras dívidas, e manter o sustento das famílias.

Não tínhamos como mantê-los parados na garagem por causa das despesas veiculares e demais como cidadão comum. Sem exercer a profissão, até hoje a prefeitura está cobrando o alvará de cada vanzeiro. Outros impostos estão chegando, aumentando ainda mais o deficit. Carros escolares são proibidos, por lei, de realizarem excursões, viagens com turistas, religiosos, atletas esportivos etc. Ficamos totalmente de mãos atadas”, afirma.

O presidente da associação, fundada há três anos, afirma que está revolto com os órgãos públicos das três esferas no Brasil, principalmente o municipal.

Não recebemos ajuda de nenhum deles. Ano passado, após a suspensão das aulas, fui conversar com o então prefeito, Renatinho Ourives, e pedir apenas uma cesta básica para cada vanzeiro, mas ele disse na minha cara que a administração municipal não tinha condições. Com o atual, Diego Oliveira, é a mesma desculpa. Na Câmara Municipal, os vereadores nem queriam ouvir falar ou nos receber. O Procon Municipal também não conseguiu nada por nós. Não recebemos nada como auxílio emergencial relacionado à categoria”, disse.


Periferia

A Secretaria Municipal de Assistência, Trabalho e Renda anunciou a realização de um levantamento sobre a possibilidade de ajudar os vanzeiros com cestas básicas, mas nenhum foi beneficiado.

Para ter direito, os motoristas tinham que morar na periferia, casa pequena e ganhar muito pouco. Todos nós, com muito sacrifício, conseguimos construir, comprar ou alugar um lar decente, e em bairros mais próximos do centro da cidade. Do jeito que eles queriam, ninguém foi aprovado nas visitas domiciliares. E tem mais, no início da pandemia, poucos pais doaram certa quantia em dinheiro por mês. Aí veio o Procon e vetou porque não estávamos transportando seus filhos. Achei correta a decisão, mas a situação se agravou mais ainda”, relata Suzemberg.

Para manter as despesas como alimentação, vestuário e outras, o presidente da ATE conta que muitos motoristas passaram a procurar outras atividades.

Teve associado que passou a transportar trabalhadores braçais nas estradas de terra durante a safra de café e também exercia a função de apanhador. Outros viraram servente de pedreiro, borracheiro, motorista de firmas menores, ou seja, estão fazendo de tudo para sustentar seus entes queridos dentro de casa”, afirma.

Suzemberg lamenta tudo que ocorreu e ainda está ocorrendo com a categoria desde o início de 2020. Segundo ele, cada vanzeiro conseguia apurar em média, livre das despesas, no final de cada mês, entre 1,5 e dois salários-mínimos.

Infelizmente, acredito que depois de tudo de ruim ter acontecido conosco, ninguém vai querer voltar a transportar alunos. Só em último caso mesmo”, finaliza.