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Palavras não enchem os lagos

POR GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA

17 de dezembro de 2020

Para mudar nossos hábitos, primeiro temos que assumir o compromisso profundo de pagar o preço que for necessário.” – William James. Longe de mim, este mero articulista teimoso e por vezes irreverente, querer desvalorizar a vinda do Governador Zema e do Ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque, acompanhado de vários parlamentares entre eles o senador da república Rodrigo Pacheco e o deputado estadual Cássio Soares, a São José da Barra para discutir o grave problema do nível do reservatório da usina de Furnas e de Mascarenhas de Morais, conhecida como Peixotos.

Ali também compareceram inúmeros prefeitos da região, em término de mandato e os futuros mandatários, vereadores e muitas lideranças políticas que mostraram preocupadas especialmente com o impacto econômico com a transformação do lago em “pântano” como bem declarou o governador Romeu Zema.

Mas a análise deste problema, que parece não ficar clara à população na fala de todos que ali compareceram, é a grave situação da matriz energética brasileira, carente de investimentos que vem sendo postergados há décadas e que apontam para um colapso energético há anos e até o momento ninguém parece ter procurado tratar o problema em sua origem.

A matriz energética do Brasil, no que tange à geração de energia elétrica, tem como característica a forte contribuição da geração hidrelétrica que corresponde a de mais de 60% da capacidade instalada no país, o que gera uma dependência umbilical dos segmentos consumidores, deste tipo de geração. Outro ponto a ser destacado e de fundamental importância e que também não foi falado, é a carência de investimentos mais pesados na geração de energia elétrica.

Embora já existam programas interessantes que já mostram um crescimento, tanto da energia eólica quando da fotovoltaica, percentualmente os números ainda pouco significam no Balanço Energético Nacional. A inserção da iniciativa privada na geração de energia, especialmente em investimentos da geração eólica e fotovoltaica, sem dúvida nenhuma representou um avanço, entretanto o controle do gradiente de crescimento não é controlável, diferentemente de quando existem investimentos públicos dosados e voluntários.

O alto custo, embora com tendencia decrescente, pode ser um dos fatores inibidores de uma evolução maior. Por outro lado, a energia fotovoltaica residencial pode ser outro vetor desenvolvimentista, eis que, o consumo de eletricidade residencial responde pelo valor de 21% do total da demanda energética. Seria interessante que o governo subsidiasse em massa a geração domiciliar, o que teria uma resposta importante da população pela economia familiar e desoneraria em parte o sistema nacional.

É sabido que o colapso energético somente não se concretizou em razão da retração da economia e recessão econômica dos últimos tempos, e o crescimento do consumo, ainda que tímido, tem sido suportado com o despacho maior das hidrelétricas. As soluções aqui comentadas acontecerão a médio e a longo prazo e além de recicláveis e limpas, devem reduzir as perdas energéticas que hoje atingem cerca de 15% do consumo brasileiro, superando até o consumo do setor terciário e isto ocorre especialmente pelas grandes distâncias de transmissão.

Mas na reunião de São José da Barra, esse assunto não foi abordado em nenhum momento. Ficou parecendo que atingir a cota reclamada pelas autoridades é fruto apenas de vontade política. Não. Sem novos investimentos de geração de energia elétrica, sem se dispor a pagar os altos custos para cumprir a promessa de desonerar as usinas hidrelétricas, sempre que São Paulo, o principal centro consumidor do país demandar, nossos lagos serão drenados cruelmente.

De concreto na fala do ministro restou apenas a intenção de colocar as termelétricas, que representam apenas 20% da capacidade instalada, a pleno vapor, como se isso pudesse resolver alguma coisa. No mais destaca-se o fato de assumir compromisso de atingir em breve o nível 762 para Furnas, sem, entretanto, precisar nem quando e nem como.

Claro que existe um valor político no ato que se realizou, mas quero ousar a dizer que deslocar tantas autoridades, a maioria às custas dos cofres públicos, para uma reunião muito mais caracterizada por proselitismo que por acenos concretos, é muito pouco para aqueles que estão atolados nos brejos mineiros.

O comportamento das autoridades mineiras, por outro lado, se resumiu a agradecer a presença do ministro e do governador, demonstrando confiança no cumprimento do compromisso assumido, à exceção da fala do deputado estadual Cássio Soares, que se diferenciou dos demais, mesmo que de forma cortês, agradecendo os compromissos assumidos, mas que deseja de fato agradecer no momento que conhecer ações concretas que permitam de fato elevar o nível dos reservatórios às cotas reivindicadas.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA é engenheiro e político aposentado.