Destaques Dia a Dia

Palavra de honra!

20 de junho de 2020

O candidato “avereador”(com permissão da Luciene Garcia) entregavaseus santinhos com acara jovial, o sorriso aberto,a palavra preparada acada cidadão que passavaem frente ao banco.- Eu sou o fulano de tal,filho da dona… conhece?- Não, senhor! respondeo velhinho assim meio desconfiado com a onda de golpes dos malandros no dinheirinho dos aposentados.

– Eu gostaria de poderrepresentá-lo na Câmarade Vereadores.- Isso é muito bão, sô!- Prá isso, é preciso queo senhor vote em mim.

– Tá certinho. Podecontá cumigo.

– Meu número é esseaqui, ó, debaixo do meuretrato. O senhor aperta edepois confirma.

– Confirmo.

– Se o senhor puder pedirprá patroa votar emmim também, os filhos…

– Gostei docê. Umameia de voto nóis arruma.Só tem um pobrema: ocêdá um jeito de buscá nóis?O candidato olha dum lado pro outro, encolhe o pescoço, comprime os olhos e cochicha entre os dentes bem pertinho da orelha do velho:

– Que bairro o senhormora?

– Na Capoeira.

– Capoeira? Qual capoeira?

– Perto da Praça Tuiuti.

– Uai, meu senhor. Conheço Passos como a palma da mão, mas Capoeira?Tuiuti?

– Não, moço. Isso ficalá no Piumhi.

– O senhor não vota lá?

– Lá eu tenho compromissode voto com o prefeito.Vereador não. Nóis junta a famía, dá o voto prêle e dispois nóis vem inté Passos votá nocê. Ta bão ansim?

– Racha quente, véio. Tá me achando com cara de besta.

– A cara não. Só o jeitão.Quem sabe o próximo.

– Ei, você aí! A moça com o decote dando prá ver até a cicatriz do silicone, se volta,
coquete:

– Oi!

– Você já tem candidatoa vereador?

– Ainda não, por que?

– É que eu sou candidato e gostaria de poder contar com seu voto.

– E o que eu ganho com isso?

– A oportunidade de votar numa pessoa séria, honesta.

– Hein? Você falou muitobaixinho. Não escutei.

O candidato corou, mas não perdeu a pôse. Arranhou a garganta e, sem muita convicção, empostou a voz, depois de reparar se não tinha nenhum conhecido próximo:

– Pessoa HONESTA. SÉRIA.

– Ah! Bão!

– Leva aqui uns santinhoscom meu nome e número e ajuda a cidade a ter um vereador igual eu.

– Vamos fazer o seguinte: uma troca. Você me arranja uns papelzinhos seus e eu te dou uns cartões meus e de minhas colegas, com telefone e enderêço. Quem sabe uns amigos seus estão interessados numa cervejinha, num cuba, num programazinho lá em casa, música, strep-tease no salão, uma farrinha animada! Concorda?

– Mas é claro. Muito justo. Pode contar comigo.

– Eles por elas!

– Falou. Estava melhorando.

– Bom dia! O interlocutor respondeu mais jovial ainda.

– Ôpa. Bom dia! Que bom te encontrar. (Uê! Será que eu conheço?)

– Que é isso. O prazer é meu. Faz um tempinho que eu não te vejo.

– A gente descuida, mas te prometo que agora vamos nos encontrar mais.

– Faço questão de conviver com pessoas inteligentes.

– Inteligente é você. Não chego nem nos pés!

– Eu é que não chego.

– Os meninos vão bem?

– Quem? Ah! Meus sobrinhos, né? Estão fortes como bezerros. E os seus?

– Filhos ou sobrinhos?

– Filhos, é claro!

– Beleza pura.

– Escuta aqui, amigo. Tenho um negócio sério prá te falar.

– Antes de mais nada, amigão, queria te comunicar que eu sou candidato a vereador esse ano. Agora pode falar.

– Eu ia justamente pedir seu voto. Mas já que somos tão amigos, vamos combinar uma coisa: você vota nimim e pode ficar seguro que eu voto nocê. Mostrar prá esse povo como se faz política sadia, com educação e ética.

– Conta com meu voto. Tomara que você ganhe!

– Pode confiar no meu. Boa sorte prá você também. Sussurrou pelas costas:

– Tiau…fiedapita. Na dobra da esquina, amassou, cuspiu e pisou no santinho do “amigão”.

O “amigão” lhe rogou todas pragas do mundo, lá longe…