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Os sonhos de Martinho para 2022

Por Rafael Moraes Moura Especial

20 de fevereiro de 2021

A Vila Isabel teve que adiar a homenagem a Martinho da Vila. / Foto: Divulgação

Se não fosse a pandemia, o carnaval do novo coronavírus seria o carnaval de Martinho da Vila. Em 2021, o cantor, compositor e escritor finalmente figuraria como personagem central de um enredo da sua escola, a Vila Isabel. A Azul e Branco da zona norte do Rio já o exaltou em outros momentos, mas jamais dedicou um carnaval inteiro para contar a vida e a obra do sambista, autor de clássicos que embalaram seus foliões na avenida, como O Sonho de Um Sonho, Pra Tudo se Acabar na Quarta-Feira e A Vila Canta o Brasil Celeiro do Mundo – Água no Feijão Que Chegou Mais Um (hino carnavalesco do último campeonato, em 2013, sobre a vida do homem no campo).

A covid-19, no entanto, se espalhou pelo mundo, ceifou 235 mil vidas no Brasil e levou ao cancelamento dos desfiles na Marquês da Sapucaí, adiando para 2022 a aguardada homenagem ao baluarte Outra homenagem, mais reservada, veio na última sexta-feira, quando o sambista – nascido em um sábado de carnaval – completou 83 anos e tirou a foto que ilustra esta reportagem.

O aniversário foi comemorado com um bacalhau no almoço, marcado por mensagens afetuosas que chegaram dos quatro cantos do mundo. Enquanto aguarda finalmente ser vacinado (a imunização foi agendada para a próxima terça-feira, se ainda houver doses disponíveis no Rio), Martinho praticamente não sai mais de sua residência, um condomínio na Barra da Tijuca onde vive com a mulher, Cléo, e dois filhos.

Costuma caminhar pela ciclovia, levando a vida “devagar e sempre”, e evitando contato com o público por conta do distanciamento social. “Eu gosto de falar com as pessoas e apertar a mão, mas não dá mais”, diz o artista, que pertence à faixa etária mais vulnerável aos efeitos da covid-19. A pandemia, avalia Martinho, deixou o mundo louco.

O Brasil tá complicado, as coisas pioraram muito. Os contrastes sociais, a pobreza e a criminalidade aumentaram. Parece que estamos revivendo a Revolta da Vacina, e o presidente (Jair Bolsonaro) também ajuda nisso (com comentários críticos à imunização). O chefe ajuda e tem seus seguidores. O retrocesso está ocorrendo de maneira clara. Eu acho que a gente vai ter de aturar ele (Bolsonaro) por mais tempo”, desabafa.

As madrugadas pandêmicas se transformaram em espaço criativo para elaborar um livro de contos, batizado com o título provisório de Contos Sensuais e Algo Mais. “São contos sobre histórias atuais, de negritude, famílias negras, suburbanas, coisas que não aparecem muito”, antecipa. Em um dos contos, uma babá acaba casando com o menino que criava – o livro aguarda uma editora para ser lançado.

Em compasso de espera também está o mundo do carnaval. Para Martinho, o adiamento dos festejos momescos, ainda que seja “chato”, foi uma decisão acertada.

Fazer um carnaval em julho, com este país ainda sofrendo com a pandemia, não ia ser legal. A gente tá vivendo tudo diferente, essa confusão total, que a gente não tá nem com a cabeça muito carnavalesca. No ano que vem, já vai dar pra fazer legal, vai ser bom”, diz.