Destaques Dia a Dia

Os pintinhos da galinha carijó

22 de Maio de 2020

Na roça, as aves domésticas vivem soltas pelos terreiros e pastos à mercê dos predadores.
Numa manhã, ela soube pela avó:

— Minha fia, a raposa levô a galinha carijó essa noite…
— Tadinha! Quê qui vai sê dos fiotim dela? Heim, vovó?
— Nóis vai tê de criá os pintim injeitado. Cê ajuda a vó?
—Vô ajudá sim senhora. É só falá o qu’eu tenho qui fazê…

A menina tomou para si os cuidados com a ninhada da carijó e daí por diante passava os dias quebrando milho para fazer canjiquinha e cavando cupins para alimentar os filhos adotivos. A medida que iam crescendo, cada um já cuidava de sua vida, menos um casalzinho que não largava a menina. Durante o dia, viviam soltos com as outras aves e durante a noite dormiam dentro de casa, numa caminha improvisada.

Cresceram… O galo era pintado de várias cores e foi batizado de Nein, a galinha era ruiva de pescoço pelado e se chamava Fia. Muito divertido era quando aparecia uma visita. Maria fazia questão de demonstrar: chegava à janela e gritava para o terreiro:

— Ô Fiaaaa, ô Neinnn… Vem cá vê, nóis tem visita!!!

Algumas vezes demoravam e a visita até achava que ela estava caçoando. Mas de repente, o galo e a galinha chegavam afobados e iam parar bem ao pé da dona. Engraçado que o Nein sempre se atrasava, é que ele chiava o peito e não conseguia acompanhar a Fia. Quando ia brincar de casinha com as primas, era uma confusão.

— Ieu num quero brincá de buneca, ieu quero brincá com os fio da Mariinha.
— Ieu num vô imprestá o Nein mais a Fia procêis, não. Meus fiote num gosta de ficá no colo de gente istranha.

A avó tentava contornar a situação pegando outras frangas para que as meninas brincassem. Mas estas não paravam quietas e nem dormiam enroladas em paninhos, feito o Nein e a Fia.

Preocupado, o avô avisava:

— Ô minha neta, ocê tá criano munto amor nesses bicho, quero ti avisá uma coisa: esses dois se acustumaro assim, inté acha qui é gente, ês vevi dendicasa, mas é bicho e num vai vivê pá sempre, num quero vê ocê triste… Tem as raposa, os gavião…

Amedrontada, Mariinha não queria mais deixar os “filhos” com as outras galinhas. Quando os soltava, ia junto vigiando. Por muitas vezes aconteceu de estar com prato na mão e, ao ouvir o gavião, saía correndo a chamar pelo Nein e pela Fia. Se demoravam, chorava muito e só parava quando o avô ia junto procurar os fujões. Iam sempre gritando:

— Fiaaa… Nein… Cadê ocêis?

“E era uma alegria na família quando encontravam, afinal, era impossível não gostar de duas criaturas tão dóceis.”

Uma tarde, não atenderam ao chamado… Ansiosa, Mariinha custou esperar o avô chegar da roça. Seguiram pelos caminhos de sempre. Passaram perto do corguinho, procuraram no pasto dos bezerros, atrás do bambuzal. O sol já se escondia atrás da Serra, a menina chamava-os pelo nome e nenhum sinal deles. O avô que havia se distanciado, já ia voltando cabisbaixo.

— Bamu simbora minha fia… Amanhã nóis acha os dois fujão qui deve de tá impulerado numa arvinha quarqué.
—Não, vovô! A Fia mais o Nein num pode drumi no mato não! Os dois tão acustumado a drumi dendicasa, ês vai ficá doente e gripado com o sereno…
Ao ouvir um barulho conhecido, Maria ignorou o chamado de seu avô, correu em direção à mangueira e com o coração apertado, viu no chão algumas penas pintadas e outras ruivas. Olhou para o céu que escurecia e viu desaparecer lá longe um bando de gaviões…

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.