Destaques Opinião

Os maiores perdedores

POR GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA

19 de novembro de 2020

“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.” – Pablo Neruda. Eu estaria decepcionando aqueles que me acompanham quinzenalmente neste minifúndio de papel se não comentasse hoje a respeito das eleições municipais. Dessa forma, mesmo confessando minhas dificuldades que inegavelmente tenho em virtude do insucesso que pessoalmente obtive, uma vez que me dediquei à Campanha de Alexandre Maia e Dr Gilberto, é preciso “sacodir a poeira” e seguir a vida de ex-político que se atreveu a exalar os seus estertores na política participando de uma campanha.

Passos tinha sete candidatos, recorde na história da cidade e o mais interessante, pelo menos quatro candidatos com chances reais. A campanha eleitoral, não foi prejudicada majoritariamente pela pandemia. Esta certamente reduziu as ferramentas normalmente utilizadas em um pleito, deixando todos os candidatos mais distantes da população e com maiores dificuldades de apresentarem suas propostas e seu plano de governo. De novidade, apenas a realização de 3 debates que presumidamente atingiram uma fatia significativa da população, seja em tempo real seja em visualizações posteriores ou mesmo através de resumos apresentados pelos próprios candidatos.

Mas o que mais impressionou foi o mais solene desprezo das pessoas pela política, não somente pelo baixo comparecimento e pequeno número de votos úteis, como principalmente pela intolerância, pela revolta, pela ameaça de optar pelo indesejado como forma de protestar contra a política e os políticos de uma forma geral. Monitoramento de campanha mostrou que até os primeiros dias de novembro, os candidatos Alexandre Maia e Rodrigo se apresentavam em um grande equilíbrio, em empate técnico em todas as coletas. Aos que apontam manipulação das pesquisas, peço que analisem com mais acuidade, tanto no que se refere a data de coleta de dados, como a última antes do debate final, e principalmente as margens de erro e poderão encontrar explicações bem convincentes.

No final de outubro, o candidato Aquiles, apresentou uma ascensão impressionante projetando até mesmo sua vitória. Mas Aquiles foi derrotado por ele próprio, pelas suas apresentações nos últimos dias antes das eleições, despertando, pela eloquência que muitos classificaram como demência, um movimento igual e contrário no eleitorado que, sedento por dar um não ao tradicionalismo político, passou a reagir preocupado com o destino da cidade e afetado com alguns desatinos praticados.

A população mostrou com clareza que quer nomes novos, mas sobretudo deseja um segurança de que sua escolha pode ser um mote para inaugurar uma nova forma de obter governabilidade, sem radicalismos e extremismos que em geral apontam para o caos. Foi nesse clima e em uma velocidade impressionante que o eleitor escolheu Diego Oliveira, até então frequentando uma faixa intermediária das intenções de votos, mas que se apresentava como um nome de renovação e desvinculado das siglas que até então alternaram no poder.

Contou também, o novo Prefeito, com a sorte de não conseguir concretizar as coligações que pelo que consta, procurou viabilizar e como não teve êxito, conseguiu consolidar seu discurso de desprezo por juntar-se com a “velha política”. O discurso final do último debate, foi a senha para a virada, ou seja, o candidato vitorioso convenceu as pessoas de que era a opção para realizar o desejo de mudança, sem riscos maiores e sem se apresentar com destempero.

Em geral, muitos candidatos obtêm sucesso nas urnas, quando encantam a população com uma solução para um problema que existe. Mas dessa vez isto não prevaleceu: quis a cidade apontar para uma solução nova, pouco se importando com o discurso político ou programa de governo. Desafio ao leitor a tentar se lembrar de apenas uma proposta de campanha do novo Prefeito, porque até mesmo as que fez foram totalmente ignoradas. O povo se cansou e quis um caminho diferente.

Enquanto as coligações prosseguiam no embate propositivo, a população permaneceu inerte e considerou tudo isso como propostas eleitoreiras e resolveu se manifestar por um jovem que até então não tinha sequer um grupo político consolidado e nem mesmo uma grande estrutura de campanha. Restam duas observações: que Diego de Oliveira consiga compreender sua missão de conquistar a população de Passos, uma vez que obteve pouco mais de 13 mil votos em uma população de 114 mil habitantes, e isto lhe apresenta um teorema que precisa ser demonstrado: governar para todos os passenses interpretando o recado das urnas. Governar, como grande vencedor do pleito, sem perder a humildade e a certeza de que é apenas o gestor cujo mandato tem prazo de validade e observar que a vaidade excessiva pode até mesmo ocultar os pontos positivos e relegar o gestor a ser rejeitado.

Mas em um pleito onde de sete majoritários, seis foram derrotados e de 81 vereadores, 70 perderam a eleição, não ser eleito é até natural e a vida segue. Mas existem aqueles que verdadeiramente foram derrotados: uma espécie de milícia montada a favor de um candidato, que usou e abusou do direito de usar de procedimentos odiosos e condenáveis nas redes sociais. Estes sim, não perderam apenas a credibilidade e a respeitabilidade para alguns, como eu. Poderão arcar com sérias responsabilidades porque, da lama que chafurdaram, certamente restarão demandas judiciais graves que poderão apontar para fatídicas condenações.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.