Destaques Opinião

Os Evangélicos na política

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

19 de setembro de 2020

Não resta a menor dúvida de que os evangélicos (por evangélico se entende membros de todas as denominações cristãs, exceto a católica) assumiram um papel relevante na política, tanto que possuem hoje uma das maiores bancadas, senão a maior de deputados federais. Isto sem contar um sem número de cargos de governadores, prefeitos e vereadores exercidos por evangélicos pelo país afora. Pois bem, este é um fenômeno recente na história nacional.

A presença relevante dos evangélicos na história do Brasil também é relativamente recente, os primeiros evangélicos a formarem congregações eram conhecidos somente como protestantes. Nos períodos colonial e imperial presença inexpressiva para não dizer invisível! E as primeiras congregações começaram a ser reconhecidas de fato no país nos primórdios da República. No Império a Igreja Católica era religião oficial e travava a presença de outros credos para evitar formações de congregações concorrentes. Na República a Constituição de 1891 possibilitou o laicismo e com isto abriram-se as portas aos missionários protestantes, principalmente da Europa, britânicos, suecos e outros. E outros oriundos dos Estados Unidos da América. Assim iniciou-se um processo mais transparente de evangelização pelas congregações protestantes no Brasil. O espaço aqui não dá para melhor detalhar as origens dos evangélicos em nossa história. Enfim, as congregações evangélicas por aqui têm pouco mais de um século, com reles minoria até a década de 1950.

As primeiras denominações protestantes a se firmarem no Brasil como igrejas são as tradicionais de orientação teológica presbiteriana, metodista, batista e luterana. A partir daí, foram chegando também os adventistas, pentecostais, mórmons e outros. Hoje, a somatória das denominações evangélicas assume nas estatísticas a relevância do evangelismo. Pelo último Censo de 2010 estava na faixa de 22,2 % com mais de 43 milhões de fiéis. Estes números, no entanto, saltaram para 27% em 2017. E continua crescendo de forma vertiginosa, principalmente no segmento neopentecostal. Os analistas especialistas em demografia garantem que aí por volta de 2050, protestantes e católicos estarão tecnicamente empatados.

Todo este processo evidencia porque os evangélicos cresceram em importância política no país. E a pergunta que não cala é se tal fenômeno social religioso é negativo ou positivo? Não existe resposta taxativa nestes casos, porque o processo histórico é dinâmico e imprevisível em longo prazo. As análises devem ser isentas e não sectárias. Toda mudança expressiva na história é passível em ter pontos negativos e positivos. O protestantismo no Brasil, até finais do século XX tivera uma participação tímida na política brasileira, não somente coletivamente, mas até mesmo individuais, ou seja, difícil apontar um evangélico de expressão na política, até então.

Seja no executivo ou legislativo, inclusive nunca foram indicados para ministros, seja no executivo ou no judiciário. As igrejas evangélicas não se envolviam de cabeça na política, daí não incentivavam seus fiéis a participarem. Hoje, os evangélicos estão presentes em todas as esferas da política e do poder. Positivo. O problema é que fazem questão de se apresentarem como evangélicos e criaram até bancada no legislativo federal. Grupo fechado. Negativo. Único grupo religioso a possuir bancada. Imagina se a moda pega! O Congresso Nacional se transformaria num Concílio Ecumênico ou algo mais surreal ainda.

O povo não vota nos deputados para estes criarem bancadas, seja em defesa de interesses particulares ou de segmentos sociais seletivos. A existência das bancadas do Boi, da Bíblia, da Bala, do Agronegócio e outras, trata-se de uma excrescência política brasileira. Outro fator negativo, muitas igrejas evangélicas se constituírem em ‘voto de rebanho’ para candidatos, seja de que ideologia partidária for, como forma de barganhar vantagens. Isto tem acontecido em pleitos recentes, no caso atual na eleição do Bolsonaro. Política, religião e poder quando se mesclam quem sai perdendo é o povo. É só refletir para descobrir.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História