Destaques Lingua Portuguesa

Os dizeres implícitos em nossa comunicação

Por Anderson Jacob Rocha

24 de outubro de 2020

Alguns meses atrás, passei em frente a uma casa que expunha uma faixa de pano grande, com a seguinte descrição: “Envenenar gatos é crime.” Na hora, pensei nos inúmeros jeitos que usamos a língua para dizer alguma coisa, sem nos compromete diretamente. São os famosos conteúdos implícitos sobre os quais deixamos pistas e/ou sinais para que a nossa comunicação chegue a outra pessoa de forma que não haja constrangimento em uma fala ou escrita mais direta.

Arrisco em dizer que seria uma ingenuidade pensarmos que o (a) dono (a) daquela casa quisesse apenas informar aos transeuntes da rua, que o envenenamento de gatos consta como crime nas leis brasileiras. De todo modo, o (a) responsável pela faixa não pode ser julgado (a) porque poderá usar o argumento de que não fez nenhum tipo acusação, apenas publicou uma informação.

Usamos este tipo de estratégia comunicativa para livrar nossa cara de possíveis enfrentamentos diretos pelos quais não estamos querendo passar. Se por um lado, essa forma de expressão implícita seja importante em vários momentos de nossa vida, por outro, corremos o risco de arruinar nossos relacionamentos diários, por acharmos que o outro está captando todos os conteúdos implícitos que estamos verbalizando. Isso é complicado, pois na complexidade de cada pessoa, muitas vezes, não há como sabermos como estão as vivências e/ou pensamentos daquele ser humano naquele dia. A vida nos demonstra que enunciados diretos podem evitar maus entendidos e enfrentamentos desnecessários.

Mas, como dizer algo sem que a pessoa fique zangada comigo? Tudo depende de qual tipo de relação você possui com o outro. Em um ambiente de trabalho, um chefe pode enaltecer pontos positivos em primeiro lugar, para depois orientar o outro para um redirecionamento de algo ruim ou errado que ele fez. No caso de um relacionamento amoroso, antes de dizer algo que está incomodando, tente se imaginar no lugar da pessoa, transmita isso a ela e exponha o seu ponto de vista, sem a necessidade de julgamento. Tente fazer alguns questionamentos para que não possa parecer uma afirmação incontestável.

Quando participo de reuniões, fico observando as pessoas rebaterem alguma ideia ou informação começando a fala dessa maneira:  “Na verdade, isso funciona assim etc etc.” . Esse “na verdade” passa um sentido de que somente quem se manifesta dessa forma, é o todo poderoso e por isso, a verdade está com ela, eliminando tudo aquilo que veio da outra pessoa. Mesmo que esse dizer tenha sido dito de forma inconsciente, há uma probabilidade de causar um desconforto, ainda que seja inconsciente também. Enfim, precisamos refletir sobre nossas falas, organizar bem as ideias antes de expressá-las. Duas coisas que nos ajudam nisso: leitura e anotações diárias.

Anderson Jacob Rocha – Professor da Uemg, Mestre e doutorando em Língua Portuguesa (PUC/SP)