Destaques Opinião

O sangue que escorre do pelourinho

POR ALEXANDRE MARINO

27 de novembro de 2020

Seria muito bom falar sobre as flores do Deserto do Atacama ou os pássaros da Mata Atlântica, mas vivemos num país em constante turbulência, capaz de nos tirar o sono e provocar pesadelos. Talvez seja por isso que Tom Jobim disse uma de suas famosas frases, “o Brasil não é para amadores”. E, no entanto, são os amadores que fazem e acontecem por aqui, numa sucessão de trapalhadas que quase sempre levam a eventos trágicos, como o ocorrido há uma semana em Porto Alegre.

Até que outro acontecimento nos atraia a atenção, não há como não falar da ação daqueles dois seguranças, que sem a menor noção sobre o significado de seu trabalho e a tarefa que deveriam cumprir, espancaram até a morte João Alberto Freitas, até então um anônimo cliente do supermercado Carrefour. Percebe-se, nos vídeos que circularam na internet, que o linchamento foi assistido por uma plateia atenta e estática, semelhante às que assistiam os açoites dos escravos há pouco mais de um século.

Não, não é preciso dizer que o homem era negro – um branco jamais seria castigado daquela forma, qualquer que fosse o motivo. É em eventos como esse que se percebe o ódio introjetado na cultura branca brasileira, um ódio secular, ancestral, pronto para jorrar do mais sereno dos corações, desde que se acenda um pavio. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) relativos a 2018, os negros (soma de pretos e pardos) representam 75,7% das vítimas de homicídio no Brasil. A renda média dos negros é de R$ 1.570, enquanto a dos brancos é de R$ 2.814, informa o IBGE – graças à diferença de oportunidades que a sociedade oferece a uns e outros.

Em 1888, o Brasil tornou-se o último país das Américas a abolir a escravidão. Os negros obtiveram a liberdade, mas foram mantidos à margem da sociedade, sem acesso à educação, à saúde, a bons empregos, a terras, a moradia digna. A partir do fim da escravidão, o Brasil desenvolveu projetos de “branqueamento” da população, incluindo programas de imigração europeia, que destinavam terras e benefícios aos imigrantes, e esterilização de mulheres negras. Apesar de todo esse, digamos, esforço, os negros representam hoje 56% da população brasileira, segundo dados do IBGE.

Mas o racismo persiste, o que pode ser comprovado até quando é negado, como aconteceu logo após o crime de Porto Alegre, quando as duas maiores autoridades da República, o presidente e seu vice, igualmente amadores, declararam que “não existe racismo no Brasil” – sem qualquer palavra ou gesto de solidariedade ou indignação. Essa atitude não fará com que o racismo deixe de existir – pelo contrário, o intensifica. Infelizmente, o projeto racista do atual governo não se faz só com palavras e silêncios, mas com ações e inações.

Levantamento realizado pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados revelou que o governo desativou ou extinguiu programas de combate ao racismo e à violência contra a população negra. O Juventude Viva, de combate ao homicídio de jovens, foi descontinuado em 2019. O Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, lançado em 2005, está suspenso. O Plano Nacional de Enfrentamento ao Homicídio de Jovens (Lei 13.675/18) nunca foi implementado.

Os recursos executados em políticas públicas voltadas aos quilombolas caíram de R$ 26 milhões em 2014 para pouco mais de R$ 5 milhões em 2019. A Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial teve seus recursos reduzidos de R$ 5 milhões, em 2012, para pouco mais de R$ 800 mil, no ano passado. Na estrutura dessa secretaria, decreto do governo extinguiu o Comitê de Articulação do Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

Como se vê, o sangue dos negros continua a escorrer no pelourinho, mas as coisas estão mudando. O país começa a perceber que a luta contra o racismo é de toda a sociedade. Um forte movimento no mercado editorial dá visibilidade a escritores negros, e é importante ouvir suas vozes, que abordam uma realidade que os brancos não são capazes de compreender. Djamila Ribeiro, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Jeferson Tenório, Elisa Lucinda, entre muitos outros, estão desmascarando um país preconceituoso e fingido, que sempre tentou enganar a si mesmo, com a falácia da democracia racial.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna