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O que você precisa saber sobre o coronavírus – Parte 7

Especialistas respondem questões que ajudam enfrentar a pandemia

12 de Maio de 2020

Foto: Divulgação (Site EBC)

88 – Que outros medicamentos já existentes, fora a cloroquina e a hidroxicloroquina, vêm sendo testados para combater a covid-19?

– O atazanavir, comumente usado no tratamento da aids, tem efeito promissor no combate à covid-19. Pesquisa da Fiocruz constatou que o medicamento é capaz de inibir a replicação do novo coronavírus, além de reduzir a produção de proteínas que estão ligadas ao processo inflamatório nos pulmões e, portanto, ao agravamento do quadro clínico da doença. Os especialistas também investigaram o uso combinado com o ritonavir, outro medicamento usado para combater o HIV. Nos Estados Unidos, vem sendo testado o antiviral remdesivir, remédio para tratar pacientes da Mers e do ebola. O estudo está em fase inicial. Por causa do risco de trombose em pacientes com a covid-19, anticoagulantes também estão sendo testados no Brasil.

89 – A terapia com plasma de pessoas infectadas pelo coronavírus funciona?

– A Food and Drug Administration (FDA), a agência que regulamenta medicamentos nos Estados Unidos, iniciou testes experimentais usando plasma de pacientes que se recuperaram e o resultado foi satisfatório. Outros países também utilizaram o método contra a covid-19. No Brasil, os Hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), estão testando o uso de plasma sanguíneo de pacientes já recuperados em doentes que ainda têm a infecção. “Essa pesquisa é baseada em experiências anteriores que, há mais de 100 anos, identificaram que o plasma de convalescentes podia ser útil no tratamento de pessoas ainda durante a infecção”, explica Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Einstein. “Este conceito é denominado transferência passiva de imunidade. Se a terapia funcionar, ela poderá fornecer os anticorpos necessários para aqueles que ainda não os têm em níveis capazes de protegê-los, levando a uma melhora dos sintomas e à diminuição do vírus no organismo.” A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou os testes no início do mês para pacientes em estado grave. Ainda não há uma definição sobre a eficácia do tratamento, embora seja apontado como “promissor”.

90 – Há previsão para vacina?

– Profissionais de diversos países trabalham para produzir uma vacina eficaz contra o novo coronavírus. Cientistas chineses relataram ter conseguido proteger um grupo de macacos, ratos e camundongos da infecção pelo novo coronavírus em um experimento de vacina, mas ponderam que o número de animais testados ainda é pequeno para resultados significativos. O ministro da Saúde do Reino Unido, Matt Hancok, afirmou que já tem duas pesquisas em estágio avançado de testes. Recentemente, a Universidade de Oxford anunciou que iniciou os testes clínicos em humanos para verificar se a imunização realmente funciona. O governo americano também está engajado no desenvolvimento de outros imunizantes contra o novo coronavírus.

91 – Quais centros estão mais avançados no estudo de vacina?

– Nos três meses que se passaram desde que o vírus começou a se espalhar, China, Europa e Estados Unidos saíram em disparada para serem os primeiros a produzir a vacina. No Brasil, pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), trabalham no desenvolvimento de vacina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há dezenas de vacinas em desenvolvimento, mas ainda é preciso ter clareza sobre quais têm maior potencial.

92 – Quando vai ser o pico do coronavírus no País? Há alguma previsão?

– O Ministério da Saúde estima que o pico no Brasil vai acontecer entre o meados de maio e junho.

93 – O coronavírus está se comportando de forma diferente no Brasil? E na América Latina?

– O Brasil ainda está conhecendo como o novo coronavírus se comporta, baseando-se na realidade do País. “Nossa população tem características, biotipos e questões sociais diferentes. Ainda estão sendo analisadas essas diferenças e, desta forma, está sendo conhecido o verdadeiro impacto da doença”, diz Jean Gorinchteyn, infectologista no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. O mesmo ocorre neste momento com a América Latina.

94 – Qual o perfil dos infectados do Brasil em termos de faixa etária?

– Ao avaliar os pacientes que morreram do novo coronavírus, é possível verificar que a maioria é homem com idade acima de 60 anos. “Entre os infectados, 57% são do sexo masculino e 74% estão na faixa etária acima de 60 anos. Mas a maior fatalidade acontece entre 70 e 79 anos, seguida por 60 a 69 anos”, diz Jean Gorinchteyn, infectologista no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. A mortalidade de indivíduos com menos de 60 anos é menor. “Mas levando em consideração todas as faixas etárias, observamos que 60% dos pacientes que morreram tinham problemas cardíacos, 43% tinham diabetes e 12%, doenças do pulmão”, reforçou Gorinchteyn. Outras mortes estão relacionadas com obesidade, doenças hematológicas e hepáticas. Além disso, outras pessoas sem comorbidades também morreram.

95 – Qual a letalidade do coronavírus no Brasil?

– Até o dia 28 de abril, a taxa de letalidade estava em 7% no Brasil. Usada para diagnosticar a fase em que o País está, a taxa de letalidade é relativa à proporção de mortes entre os pacientes diagnosticados com a doença. Ou seja, ela pode variar a cada atualização do boletim.

96 – Qual é a letalidade entre os grupos etários?

– No dia 26 de abril, o Ministério da Saúde informava que, “entre os óbitos confirmados por covid-19, 70% tinham mais de 60 anos e 67% apresentavam pelo menos um fator de risco”. A cardiopatia foi a principal comorbidade associada e esteve presente em 1.566 mortes, seguida de diabetes (em 1.223), doença renal (296), pneumopatia (279) e doença neurológica (265). Em todos os grupos de risco, a maioria dos indivíduos tinha 60 anos ou mais, exceto para obesidade.

97 – Há estimativa de quantos brasileiros já entraram em contato com o novo coronavírus, mesmo que não tenham desenvolvido a doença?

– Ainda não é possível mensurar o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus. “Estudos feitos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) consideram o número de 8 a 10 vezes maior que as estatísticas têm revelado. Isso ocorre principalmente por causa dos pacientes assintomáticos”, explica Jean Gorinchteyn, infectologista no Hospital Israelita Albert Einstein e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

98 – Quais são os Estados brasileiros mais afetados?

– São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas são os Estados com maior número de casos confirmados até a última semana de abril, segundo informações do Ministério da Saúde.

99 – Há diferença de letalidade do coronavírus entre os Estados?

– Sim, mas a taxa varia por causa da diferença no número de testes realizados em cada Estado. São Paulo, por exemplo, é o que mais fez exames (quase 48 mil até o dia 26 de abril), seguido por Paraná (23,5 mil) e Bahia (18 mil).

100 – As periferias das grandes cidades brasileiras já estão afetadas?

– Estão sendo muito afetadas, segundo o infectologista Jean Gorinchteyn. “As comunidades representam metade de casos novos e o número de mortes é grande, por exemplo, no município de São Paulo”, diz o médico, que atua no Einstein e no Emílio Ribas.

101 – Por que o risco é grande nas periferias?

– “O risco é bastante grande nas periferias. E mais de 70% da população pertence às classes C, D e E”, afirma o médico Jean Gorinchteyn. “O maior risco se deve à velocidade de alastramento da doença em razão do número de pessoas morando em um mesmo cômodo.”

102 – Por que o uso de dados pode ser uma arma contra a pandemia?

– Dados sobre a localização das pessoas são obtidos por meio do registro de qual antena está atendendo quais telefones, estando ativada ou não a localização por GPS no aparelho. “Todos esses dados podem e devem ser disponibilizados de modo anônimo, sem invadir a privacidade das pessoas. De posse deles, é viável aplicar técnicas de inteligência artificial para estimar a propagação do vírus e ajudar no controle do avanço da doença”, diz Fernando Osório, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

103 – O isolamento social realmente funciona?

– O vice-diretor da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, afirmou que o Brasil ainda não está pronto para deixar as medidas de isolamento social. Ele disse que para fazer isso é necessário controlar a transmissão do coronavírus. “Tem de ser planejado e cuidadoso”, explicou Barbosa. “Se a gente deixa a transmissão correr de maneira natural, nenhum sistema de saúde é capaz de atender a demanda gerada.” Para justificar a manutenção do isolamento, ele citou um estudo da Universidade Federal de Pelotas. Os resultados preliminares da pesquisa mostraram que apenas 0,05% da população brasileira teve contato com o coronavírus, ou seja, a minoria pode ter desenvolvido anticorpos.