Destaques Geral

O que você precisa saber sobre o coronavírus

18 de Maio de 2020

Foto: Divulgação (Agência Brasil)

162 – Quais setores estão se beneficiando dessa crise?

– O setor de consumo de bens considerados essenciais – sobretudo as categorias de alimentos, limpeza e farmácias – se mostrou mais resiliente no início da crise, explica Luciana Batista, sócia da consultoria Bain Company. Algumas destas categorias tiveram um pico inicial em função da estocagem de mantimentos, mas já voltaram a patamares habituais. Outras continuam com patamares de vendas mais altos, como os supermercados.

Há setores que já estão se beneficiando e certamente continuarão a colher frutos após o término da pandemia. Isso porque a crise, além de gerar novos hábitos, ocasionou uma aceleração de tendências que já eram percebidas anteriormente. São os serviços remotos ou realizados por canais digitais. Neles se incluem a telemedicina, ensino a distância, aplicativos para exercícios dentro de casa, entretenimento e ferramentas de trabalho online.

163 – E os que vêm sofrendo mais?

– Setores como vestuário, beleza e luxo foram muito afetados pela crise. Mas podem se beneficiar de um chamado consumo de compensação, assim que a quarentena arrefecer.  Dentre as áreas que terão uma recuperação mais lenta estão todas aquelas que envolvem serviços fora de casa e ambientes coletivos, incluindo turismo, entretenimento e restaurantes.

164 – Há possibilidade de o governo estender a ajuda para as PMEs?

– Entre as medidas adotadas pelo governo, algumas já se aplicam às pequenas e médias empresas. Por meio do Programa Emergencial de Suporte a Empregos (PESE), instituído pela MP 944, é estabelecida uma linha de crédito emergencial de R$ 40 bilhões para que PMEs financiem os salários de seus funcionários por dois meses. São contempladas empresas com receita bruta anual de R$ 360 mil a R$ 10 milhões. O financiamento fica limitado a dois salários mínimos (total R$ 2.090) por trabalhador. Nos casos em que o salário for maior, a empresa deve completar o valor. O governo também prorrogou por seis meses o prazo para que pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEIs) façam o pagamento dos tributos federais do Simples, relativos a março, abril e maio.

O pagamento de março foi transferido para outubro, o de abril para novembro e o de maio para dezembro. Em escala estadual e municipal (ICMS e ISS), os tributos do Simples foram prorrogados por 90 dias. Em relação ao FGTS, também fica permitido adiamento e parcelamento. Também foi adiado o pagamento do PIS, Pasep, Cofins e da contribuição previdenciária patronal de empresas: o vencimento de abril e maio passou para agosto e outubro.

165 – Quais as medidas que estão sendo oferecidas para os micro e pequenos empresários?

Há um movimento de criação de linhas de crédito, feitas com o apoio do governo ou por instituições privadas, para auxiliar pequenos e médios empreendedores. Uma parceria entre a Caixa Econômica Federal e o Sebrae disponibiliza linha especial de R$ 12 bilhões para facilitar o acesso dos empreendedores a financiamento de capital de giro. Ela está disponível para MEI, microempresas e empresas de pequeno porte dos setores de indústria, comércio e serviços. Os empreendimentos devem ter pelo menos um ano de faturamento e não pode haver restrição de CPF e CNPJ. As taxas de juros variam entre 1,19% ao mês e 1,59% ao mês. O processo pode ser iniciado no site do Sebrae.

A Caixa também anunciou uma redução de juros em até 45% nas linhas de crédito, com taxas a partir de 0,57% ao mês. São oferecidas linhas de aquisição de máquinas e equipamentos, com taxas reduzidas e até cinco anos para pagamento. Já o BNDES anunciou ampliação de crédito para as MPMEs micro, pequenas e médias empresas de R$ 10 milhões para R$ 70 milhões, com cinco anos para pagamento. De autoria do Senado, o Projeto de Lei 1.282/20 cria o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que oferecerá crédito às microempresas com faturamento bruto anual de até R$ 360 mil e às empresas de pequeno porte com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões.

Os empréstimos devem corresponder ao valor de até 30% da receita bruta obtida pela empresa em 2019 e poderão ser pedidos em qualquer banco privado participante da ação e no Banco do Brasil. A União irá disponibilizar R$ 15,9 bilhões para a linha de crédito. O projeto já foi aprovado pela Câmara e pelo Senado e segue para a sanção presidencial.

166 – Que outras possibilidades existem neste momento para os PMEs?

No âmbito privado, as fintechs também têm se empenhado na ajuda financeira a pequenos e médios negócios, com ampliação do limite de crédito e extensão do prazo de pagamento e carência para o início do pagamento da dívida. A Stone, fintech focada em maquininhas de cartão, disponibilizou R$100 milhões em microcrédito, além de isenção de mensalidade para as máquinas, redução nas taxas, entrega de máquinas adicionais sem custo para operação de delivery e TED’s ilimitadas.

O Banco Inter vai destinar R$ 250 milhões a correntistas Pessoa Jurídica que desejam antecipar os recebíveis relacionados às vendas no cartão de crédito. A operação não terá custo e é válida para clientes com empresas abertas há, pelo menos, um ano, para vendas com prazo de até 90 dias. A solicitação do crédito pode ser feita pelo Internet Banking. A IOUU, plataforma de empréstimo coletivo, diminuiu as taxas de juros para uma variação entre 1% a 3,6% ao mês. A fintech BizCapital aumentou o limite de crédito de R$ 150 mil para R$ 200 mil.

167 – Como faço para ajudar o pequeno lojista, o dono do bar ou do restaurante perto da minha casa?

Muitas iniciativas de apoio ao pequeno negócio surgiram desde o início da pandemia. Há o incentivo para se trocar as grandes redes – que podem sobreviver mais facilmente à crise – pelos pequenos produtores e pelo comércio local. Também é incentivado fazer pedidos via delivery diretamente no estabelecimento, em vez de usar os aplicativos de entrega, para evitar as taxas cobradas do estabelecimento por eles. Um projeto criado pela Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp/Senar-SP), em parceria com o Sebrae, conecta consumidores a comerciantes de bairro e produtores rurais. Pela plataforma Pertinho de Casa é possível comprar na vizinhança e receber em casa.

A negociação é feita por Whatsapp. Outra saída momentânea encontrada por pequenos negócios, principalmente das áreas de alimentação e beleza, é permitir a compra de vouchers de serviços. Os clientes podem comprar cupons pré-pagos e usufruir ao fim da quarentena, muitas vezes com descontos e recompensas. Nesse sentido, foram criadas plataformas, a nível nacional, como: Apoie um Restaurante (Stella Artois, Nestlé e ChefsClub) com vouchers de restaurantes por R$ 50; Brinde do Bem (Heineken), com vouchers de bares a partir de R$25 e Ajude um Buteco (Bohemia), com vouchers a partir de R$20.

168 – Onde o lockdown foi decretado no mundo? Quanto tempo os países ficaram neste estado e quais estão reabrindo?

Um terço da população mundial está sob alguma forma de confinamento. À medida em que o novo coronavírus continua a se espalhar, alguns países estão colocando seus cidadãos em várias formas de bloqueio – embora esse não seja um termo técnico usado pelas autoridades de saúde pública. Índia, China, França, Itália, Nova Zelândia, Polônia e Reino Unido implementaram as maiores e mais restritivas quarentenas de massa do mundo. Vários países, como Espanha, Irã, Itália, Dinamarca, Israel e Alemanha, que anteriormente impuseram restrições, estão começando a suspender as medidas de bloqueio, embora tenham tido níveis variados de sucesso.

O primeiro a fazer isso foi a China: Wuhan, a cidade chinesa onde a pandemia surgiu, em dezembro, começou a reabrir em 8 de abril, depois de mais de 70 dias de quarentena. Mas, para usar o transporte público, por exemplo, os moradores precisam apresentar um QR Code de seu celular, que mostra o seu histórico de saúde e indica quem deve ou não permanecer em isolamento. Os que recebem sinal verde podem transitar pela cidade ou sair dela.

A maioria dos países da Ásia relaxou o confinamento, mas o retorno para casa de milhares de pessoas que estavam na Europa ou nos Estados Unidos, temendo o contágio, levou ao aumento no número de infecções, o que obrigou os países a controlar a entrada dos que chegavam e monitorar de perto sua condição.

Nos EUA, que hoje são o epicentro do novo coronavírus, existem planos para uma reabertura gradual, na metade de maio. Alguns governadores de Estados afetados duramente pela pandemia afirmaram recentemente que só vão relaxar no isolamento quando sentirem que seus sistemas de saúde terão dado conta da pandemia.

169 – Como está a contaminação na América Latina?

Segundo a Organização Panamericana de Saúde (Opas), “tem havido um aumento preocupante” da covid-19 na América Latina. O total de de contágios no continente americano passou da casa de 1 milhão. “Mais de 1 milhão de casos foram registrados nas Américas e, até 27 de abril, 60.211 pessoas morreram por covid-19. Tem havido um aumento preocupante na América Latina” disse a diretora da Opas, Carissa F. Etienne, em uma entrevista transmitida pela internet. Ela explicou que, no fim de abril, foram registrados mais de 250 mil novos casos de covid-19 no continente americano, a maioria contabilizada por EUA, Brasil, Canadá, Equador e México.

Todos os países e territórios da região já confirmaram contágio. Especialistas afirmam que a América Latina está no mesmo estágio que a Europa há seis semanas, porque está registrando um aumento no número de casos e se espera que a tendência de crescimento continue nas próximas semanas.

170 – Há chance de São Paulo repetir o que aconteceu em Nova York, com grande número de infectados ou mortos?

Um dos fatos mais citados para Nova York ser o epicentro da pandemia nos Estados Unidos, com grande número de infectados e mortos, é a alta densidade populacional: 38 mil pessoas por quilômetro quadrado. Em São Paulo, a taxa é de 7,3 mil pessoas no mesmo espaço. Nova York também é muito mais visitada que São Paulo – por americanos e estrangeiros.

A cidade americana recebe cerca de 60 milhões de turistas por ano – São Paulo, um quarto disso. Além disso, a maior cidade do Brasil agiu mais rápido do que Nova York nas medidas de restrição de circulação de pessoas e se antecipou à pandemia. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizava os efeitos do vírus que se alastrava pelo país, o governador João Doria (PSDB) determinou medidas de fechamento da economia de maneira mais rápida. “Eles demoraram para tomar providências em relação ao isolamento”, explica o infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas. “E nós temos o SUS, em que todos têm direito a assistência, enquanto nos Estados Unidos o acesso à saúde é muito caro.”

O especialista cita ainda o elevado número de imigrantes nos EUA que têm acesso dificultado a atendimento médico, mas ressalta que a desigualdade econômica é pior aqui e poderia exacerbar os problemas decorrentes da pandemia.