Destaques Geral

O que você precisa saber sobre o coronavírus

Especialistas respondem questões que ajudam enfrentar a pandemia

13 de Maio de 2020

Foto: Divulgação (Agência Brasil)

104 – Feiras livres devem continuar abertas?

– Muitas cidades do Brasil chegaram a suspender as feiras livres, mas a maioria voltou a funcionar com regras mais rígidas. Dentre as novas recomendações estão a proibição de consumo de alimentos no local, uso de máscara, distribuição de álcool em gel e distanciamento entre as barracas.

105 – Já tive coronavírus. O isolamento social vale para mim ou posso andar livremente?

– De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não há estudos que respondam todas as dúvidas sobre imunidade após a contaminação pelo coronavírus. Portanto, não há um “passaporte de imunidade” para os pacientes curados. “Esperamos que a maior parte das pessoas infectadas com a covid-19 desenvolva uma resposta de anticorpos que ofereça algum nível de proteção. O que não sabemos é o nível de proteção e o quanto ela dura”, afirmou a OMS no Twitter no dia 25 de abril. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o isolamento de uma pessoa com a doença deve ser rígido até o 14º dia após o início dos sintomas.

106 – Como posso saber se já tenho anticorpos contra coronavírus?

– Existem vários testes sorológicos em uso para detecção de anticorpos contra o novo coronavírus, mais para inquéritos sorológicos do que para diagnosticar a doença em seu início. “No entanto, estudos ainda são necessários para validação destes testes. A interpretação de qualquer exame laboratorial deve sempre ser feita à luz da história clínica e epidemiológica do paciente”, afirma Unaí Tupinambás, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

107 – Depois que os governantes flexibilizarem a quarentena, como saber se de fato é seguro sair do isolamento?

– Ainda não há uma resposta. A indicação dos infectologistas é de não flexibilizar a quarentena neste momento. “O Estado correrá o risco de ter de fechar tudo novamente, com possível aumento de casos, como aconteceu com outros países do mundo. É preciso agora criar estratégias para motivar as pessoas a continuarem isoladas. É preciso aguardar e seguir as recomendações”, explica Carlos Magno Fortaleza, infectologista do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e membro do Comitê do Estado de São Paulo de combate ao novo coronavírus. Dados mostram que isolamento social funciona e reduz o número de internações e de mortes pela doença. “A pressão econômica é grande, mas do ponto de vista da saúde, o isolamento é essencial. Não há indicação para flexibilizar. Em Blumenau, em Santa Catarina, os números da covid-19 praticamente dobraram, em apenas uma semana, desde a reabertura dos shoppings da cidade”, afirmou o infectologista.

108 – Qual a diferença entre os diferentes tipos de testes para covid-19 que estão sendo aplicados?

– O teste chamado de PCR detecta material genético do coronavírus e é o mais indicado para ver se uma pessoa num dado momento está contaminada. O outro exame, sorológico, rastreia a presença de anticorpos que o corpo está produzindo em resposta à infecção. Em geral, captam dois tipos de anticorpos: o igm, que aparece alguns dias após a contaminação, quando já houve replicação viral considerável e o organismo começa a se defender; e o igg, que é o anticorpo que em geral aparece mais ao final e permanece para sempre, por causa da imunização adquirida.

109 – O que é contraprova? É feita em todos os testes para o coronavírus?

– O material que ficou guardado é enviado para instituições de referência (Fundação Oswaldo Cruz, no Rio; Adolfo Lutz, em São Paulo; Evandro Chagas, no Pará), onde é feita a contraprova. “O paciente que tem grandes chances de estar infectado pelo quadro clínico, mesmo o teste dando negativo na primeira vez, precisa repetir o teste, ou seja, fazer a  contraprova”, explica Airton Stein, pesquisador da área de epidemiologia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

110 – É importante fazer o teste mesmo depois dos sintomas desaparecerem?

– Na atual fase da propagação do novo coronavírus no Brasil, médicos dizem que os testes devem ser direcionados para pacientes sintomáticos que precisem de internação. Isso porque não há quantidade de testes disponíveis para toda a população.

111 – Existe teste doméstico no Brasil? É seguro?

– A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a realização de testes para detectar a covid-19 em farmácias. Até então, os exames eram obrigatoriamente feitos em hospitais e clínicas. Como muitos testes rápidos demonstram baixa eficácia, ainda é cedo para avaliar a segurança. “No entanto, especialistas avaliam com preocupação a realização de testes em farmácias e domicílios, pois pode ocorrer a perda de notificações de casos”, avalia Carlos Magno Fortaleza, infectologista do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. Ainda há propostas de testes por aplicativos que fariam a leitura e a notificação. “Mesmo assim, há risco no controle e pode dificultar as ações de combate à doença”, ressalta Fortaleza.

112 – Planos de saúde são obrigados a cobrir os custos com testes. Eles estão cumprindo essa determinação do Ministério da Saúde?

– A partir da resolução normativa 453 de 13 de março de 2020 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), os planos de saúde estão obrigados a realizar a testagem para a covid-19. “Não somente os testes, mas todo o tratamento referente à covid-19. Mas não é só por curiosidade que o paciente pode exigir a realização do teste, deve haver uma indicação médica, apontando todo o protocolo da doença”, afirma José Luiz Souza de Moraes, procurador do Estado e professor de Direito Internacional e Constitucional da Universidade Paulista.

113 – O que é preciso para que o plano pague pelo teste? É necessário estar internado?

– O paciente deve apresentar pedido médico indicando a necessidade de se realizar o exame. “No protocolo médico, é preciso constar a solicitação do teste. Desta forma, o paciente deve procurar o plano de saúde, que indicará em qual laboratório o exame pode ser realizado”, explica José Luiz Souza de Moraes, procurador do Estado e professor de Direito Internacional e Constitucional da Universidade Paulista. No caso de internação ou de atendimento ambulatorial, o plano de saúde deve também custear o exame da covid-19. “Se não fizer, é possível que a família leve sua solicitação ao Judiciário para que a operadora realize o custeio do exame”, acrescenta Moraes.

114 – Temos médicos e enfermeiros em número suficiente?

– Boletim do Ministério da Saúde sobre o cenário da pandemia do novo coronavírus traçou um cenário crítico da situação da saúde no País para lidar com o pico das contaminações, com a falta de médicos e equipamentos para conter a doença. Profissionais da saúde que estão na linha de frente também sofrem com a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs). De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil tem 490.859 médicos em atividade. “Não acredito que seja suficiente o número de enfermeiros e médicos treinados para poder dar conta da pandemia. Até porque muitos acabam se infectando também e, infelizmente, até morrendo. Temos ainda outro problema porque precisa haver um treinamento diferenciado para atender especificamente casos do novo coronavírus”, avalia Paulo Olzon, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Com o aumento de casos, é necessário deslocar médicos e enfermeiros de outras áreas e treiná-los para o atendimento aos pacientes com a covid-19”, diz o especialista. Segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) divulgados no dia 27 de abril, ao menos 59 profissionais de enfermagem já haviam morrido vítimas da covid-19. Além disso, outros 7.833 mil foram afastados pela doença.

115 – Quais Estados têm menor número de leitos de UTI por habitante?

– De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), até 2018 – número mais recente – o Brasil contava com 44.253 leitos de UTI. Os Estados com menor número por habitante são Acre e Roraima.

116 – Como entro na Justiça para conseguir uma UTI para um parente? A Justiça tem ajudado a resolver esses casos?

– A Justiça tem ajudado a resolver esses casos porque o direito à saúde é constitucional e dever do Estado. “O Estado deve providenciar o leito na UTI. Sabemos que hospitais públicos estão na iminência de esgotar todas as possibilidades de atendimento, mas por ser dever do Estado, se não há vagas, deve providenciar a internação do paciente em uma unidade particular por meio de ordem judicial, arcando com todas as despesas financeiras”, explica Mérces da Silva Nunes, especialista em Direito Médico. A família deve procurar um advogado para entrar com ação judicial, o juiz deverá conceder a liminar diante do parecer do médico demonstrando a necessidade e urgência. Caso a pessoa não tenha recursos financeiros para pagar um advogado, deve procurar a Defensoria Pública para solicitar a vaga na UTI.