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O que significam as palavras tragédia e luto?

30 de Maio de 2020

Nesse momento em que escrevo, há o número contabilizado de 26788 mortes, no Brasil, pelo coronavírus. Esses últimos dias têm nos trazido um sentimento de incertezas, por um lado e de esperança na humanidade, por outro. O da incerteza está no fato de não encararmos os milhares de mortos como uma tragédia. A face da esperança é que tenho percebido mais cuidados humanos recíprocos. Proponho aqui o entendimento sobre a origem de luto e tragédia.

A palavra “luto” é oriunda do latim “luctus,us” que significa dor, mágoa, lástima, pesar, aflição”. “Tragédia” vem do grego “tragoidia” cujo conceito é “peça ou poema com final infeliz”. Segundo o site “Origem das Palavras”, “aparentemente deriva de tragos, “bode”, mais oidea, “canção”. E isso viria do drama satírico, onde os atores se vestiam de sátiros, com suas pernas peludas e chifres de bode”. Em termos etimológicos, a origem da palavra “luto” nada tem a ver com a palavra “perda”, no entanto, em termos de analogias e significações contextuais, em português, nós utilizamos uma pela outra.

Isso confirma que ao longo do tempo, vamos colocando novos significados às palavras.
A palavra “tragédia” não retrata fielmente o conceito inicial dela porque a consideramos como algo que acontece na vida real também. Por exemplo, o drama vivido por todas as pessoas envolvidas nas ocorrências das barragens de Mariana e Brumadinho, em MG, faz com que percebamos que a vida é uma cena onde ora atuamos como atores, ora como plateia.

Quando atores, muitas vezes, somos passivos, esperançosos pelos aplausos da plateia (hoje me dia, das redes sociais). Ao estarmos na plateia, apenas lamentamos o sofrimento dos atores. E fica a pergunta: por que consideramos os tristes episódios de Mariana e Brumadinho como tragédia (com razão) e não fazemos o mesmo diante das mortes causadas pela pandemia? É um drama.

A palavra “drama” que vem de “peça, ação, feito” (especialmente relativo a algum grande feito, positivo ou negativo), de dran, “fazer, realizar, representar”. Sabemos muito bem, fora do contexto da origem das palavras, que os dramas vividos não são representações. Pelo contrário, a realidade é dolorosa demais.

Percebeu que utilizamos os termos “cena” e “plateia”? Isso pode nos leva a pensar que parece que vivemos em um grande teatro onde as peças ou encenações vão e vem, ou seja, as tragédias ocorrem com os seus finais tristes e choramos na plateia que “deriva do Grego platea, “largo e plano”. Inicialmente, plateia designava o lugar onde ficavam os músicos e depois era entendida como a parte onde tomam assento os espectadores. Dessa forma, hoje, sentados na plateia, esquecemo-nos dos atos como se estivéssemos prontos para novas temporadas, seja para a tragédia, seja para a comédia.

E por falar em comédia, o seu significado não há ligação nenhuma com o que usamos atualmente. Ela era usada para “designar ‘poema narrativo’. Essa é a razão pela qual o livro “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, possuir esse nome. Se você já o leu, sabe muito bem que não há nada de humor nele. Enfim, essa é a vida. Ela se mistura à arte onde há os donos dos circos e dos teatros, os atores e a plateia. Para haver sempre esperança, precisamos saber o significado de cada coisa e agir conforme o contexto.

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob