Destaques Entrevista de Domingo

“O que não podemos é politizar a covid-19”

Por Adriana Dias / Redação

18 de Maio de 2020

Foto: Divulgação

Paulo César Vaz, 33 anos, nasceu em Gurupi, no estado de Tocantins, mas há seis anos escolheu Piumhi para morar e viver com a sua família. Médico Ortopedista, graduado pela Faculdade de Medicina Gama Filho, no Rio de Janeiro, com especialização em Ortopedia, em Teresópolis/RJ e R4 em Joelho, em Uberaba/MG, ele é sócio diretor da Clínica WS Médicos e atua também na Santa Casa de Piumhi.

Casado com a também Médica, Dermatologista, Fernanda Helena Craide, com quem tem os filhos Júlia Craide Vaz, de 4 anos, e Rafael Craide Vaz, de 2 anos, ele já assumiu por alguns anos a Secretaria Municipal de Saúde de Piumhi e, agora, neste período de pandemia vê ainda mais a importância da classe médica, justamente por fazer parte de uma engrenagem extremamente complexa e composta por muitas outras classes de profissionais fundamentais para que todos fiquem bem e saudáveis.

Em seu tempo livre, Dr. Paulo, como é chamado em Piumhi, conta que gosta de ler livros diversos e, claro, aqueles relacionados à área ortopédica, além de ir muito para a zona rural visitar amigos e ver de perto a luta do produtor, afinal de contas, ele é filho de produtores rurais. Para contar um pouco da sua trajetória na região, das suas opiniões sobre esta pandemia e de sua atuação no Democratas, seu partido político, a Folha traz neste domingo esta entrevista com este piumhiense que ostenta orgulhoso o título de cidadão honorário.

Folha da Manhã – Qual sua opinião sobre o isolamento horizontal imposto por governadores e prefeitos em razão da covid-19. Como médico, como o senhor sustenta esta posição?

Dr. Paulo – Sou mais favorável ao isolamento vertical. Vivemos em um país continental e devido a isto, torna-se necessário um estudo do perfil epidemiológico e populacional de cada região. Percebo que alguns gestores esperam orientações do governo federal ou de entidades de classe para tomada de decisão em seu município.

As realidades são diferentes. Há uma decisão do Supremo Tribunal Federal que diz que o gestor municipal é responsável e deve tomar a linha de frente na condução da covid-19 no seu município, com decisões regionalizadas. Infelizmente, em muitos casos não observamos esta iniciativa por parte do gestor e vejo isto como ponto negativo. E de forma complementar devemos analisar o que está sendo realizado de efetivo e de estruturação do nosso sistema de saúde, caso venha a acontecer uma epidemia em nossa região. Foram aumentados os leitos de internação?

Temos mais respiradores em comparação ao início da crise? Graças a Deus e ao perfil demográfico e populacional estamos em uma situação confortável, na chamada onda verde, porém não vejo medidas efetivas para enfrentar o pior caso venha a acontecer.

FM – O senhor entende que está havendo exagero proposital por parte de lideranças políticas e parte da classe médica com o intuito de desestabilizar o Governo Bolsonaro?

Dr. Paulo – Temos dois ângulos opostos, o governo está de olho na saúde da população, mas também enxerga um colapso notório no cenário econômico, com desemprego e retração da economia. Cada entidade (equipe de saúde e área econômica, cumprem os seus papeis), portanto vejo exagero dos dois lados. E, são até justificáveis, dependendo do ponto de vista da análise. O que não podemos é politizar a covid-19.

Há uma decisão do Supremo Tribunal Federal que diz que o gestor municipal é responsável e deve tomar a linha de frente na condução da covid-19 no seu município, com decisões regionalizadas. Infelizmente, em muitos casos, não observamos esta iniciativa por parte do gestor e vejo isto como ponto negativo.

FM – Qual sua opinião sobre o uso da cloroquina?

Dr. Paulo – Toda tentativa de ajuda no combate à covid-19 é bem vinda. Acredito que a cloroquina é e será parte da ajuda na solução desta questão. Mas, as autoridades sanitárias estão corretas em ter precaução em relação ao uso visto que estudos estão em andamento para ponderar os riscos e benefícios da medicação.

FM – O senhor – se é que podemos chamar alguém tão jovem dessa maneira -, embora não tenha nascido em Piumhi, foi reconhecido como cidadão piumhiense, correto?

Dr. Paulo – Quando me foi concedido o título de cidadão honorário de Piumhi senti que passei a ser um de seus filhos. Por isso, quero dizer aos meus conterrâneos piumhienses que podem contar comigo. Independente de lado político, estou aqui para trabalhar pela cidade que aprendi a amar. Obrigado a todos pelo carinho que me recebem onde quer que eu esteja.

FM – Qual a leitura que o senhor faz da pandemia em Piumhi e qual orientação o senhor poderia deixar a todos os nossos leitores?

Dr. Paulo – O momento é delicado, vivemos algo ímpar na nossa sociedade, estamos sofrendo transformações a todo o tempo, uma geração que há mais ou menos uma década passa por mudanças, que em outras épocas, demoraria cinco décadas ou mais para acontecer. Por causa de um vírus nos vemos na necessidade de nos reinventar novamente e refletir, eleger novamente quais são nossas prioridades, fica claro que muitos de nós estávamos deixando de lado valores imprescindíveis à nossa gente.

Empatia, amor ao próximo, altruísmo, a pandemia nos distanciou fisicamente, porém, nos aproxima de outras formas, inclusive em redes sociais. Sobre o que acontece durante a pandemia em nossa cidade, não quero achar culpados ou indicar erros, porém percebo que líderes estão agindo de forma passiva em relação a tudo isso. O cargo do Poder Executivo serve e é feito para executar, em resumo, tomar atitudes, afinal, o prefeito foi eleito para isso. O que foi feito até o momento segue o comum a que a maioria dos municípios está fazendo (isolamento, abrandamento da curva epidemiológica e etc.).

Acho isso válido até certo momento, porém até quando? E, para refletirmos, questiono se estamos realmente preparados para caso a situação de doentes graves vire realidade. Temos suporte para tratá-los? Nossa equipe de saúde está devidamente orientada e preparada? Fui secretário de saúde. Eu treinaria nossos agentes de saúde, colocaria estas pessoas nos pontos principais de convívio como o centro, agência bancárias e etc. com intuito de orientar e não somente punir.

FM – E o que pensa sobre a flexibilização do comércio?

Dr. Paulo – Sobre a flexibilidade no comércio, entendo que deve acontecer, levando em conta os devidos cuidados, quer seja de higiene, uso de máscaras, distanciamento, monitoramento de temperatura, turno de funcionários reduzidos e em sistema de

rodízio. Convocaria uma reunião com os prefeitos da região que utilizam nosso sistema de saúde, como as cidades de Pimenta, Doresópolis, Capitólio, São Roque, Vargem Bonita, Guapé e montaria um hospital de campanha no poliesportivo. Se no final da pandemia esta estrutura não fosse utilizada, os materiais seriam transferidos à Santa Casa de Piumhi.

Quero, por fim, fazer um agradecimento a todos os profissionais de saúde, Santa Casa e Sistema Único de Saúde (SUS) de Piumhi. Tem muita gente competente que dá a vida por nós e quando estive secretário presenciei isso, o que eles querem é incentivo para agir. A palavra esperança não pode ser traduzida com espera (o que alguns líderes estão fazendo) e sim esperançar, no sentido de agir, correr atrás.

FM – O ministro da Saúde, Nelson Teich, deixou o cargo nesta sexta-feira, antes de completar um mês à frente da pasta. Apesar de uma nota oficial do ministério dizer que ele pediu demissão, assessores da Saúde afirmaram que o médico foi demitido. O que tem a dizer, sendo ele o segundo a sair durante a pandemia?

Dr. Paulo – Em relação ao ministro Luiz Henrique Mandetta, quadro do meu partido, penso que faltou diálogo na relação dele com o presidente Jair Bolsonaro. Faltou escutar mais, porém, escutar com a intenção de compreensão e não com objetivo de responder ou julgar, faltou aos dois envolvidos no cenário se despirem de preconceitos e expectativas e estar genuinamente vazio para se abrir às novas possibilidades. Quando você mostra respeito em relação à opinião do outro, ele estará mais inclinado a respeitar a sua. E, embora muito recente a demissão ou pedido de demissão, de Nelson Teich, o cenário não é muito diferente. O governo perde o controle, aí vai tentar impor tudo de sua forma. Governar requer diálogo e compreensão.

FM – Como o senhor avalia o cenário político após a crise da pandemia causada propositalmente pelos governadores e prefeitos?

Dr. Paulo – Não posso generalizar que seja de forma proposital, porém conforme mencionei, muitos governantes estão politizando o vírus e utilizando como subterfúgio de sua ineficácia em gestão pública. Tem governo municipal que não fez nada de benfeitoria à população por 3 anos de mandato e no final da gestão quer colocar toda a culpa no coronavírus. Estão querendo atribuir ao vírus um poder de destruição muito maior do que realmente tem. Os governantes devem tomar medidas mais sensatas e regionalizadas para amenizar o impacto pós-pandemia.

FM – Como o senhor avalia a posição do seu partido no município para as próximas eleições?

Dr. Paulo – O Democratas é um partido sólido, com grandes nomes e lideranças em seu quadro de filiados. Em Piumhi, ouviremos as orientações de todos na tomada de decisão. No pleito deste ano iremos buscar algo maior, mais concreto e efetivo para população piumhiense.

FM – O senhor é apontado como pré-candidato a prefeito. Neste momento que os médicos estão em alta em razão da pandemia, o senhor aceitaria o desafio?

Dr. Paulo – Posso fazer uma correção? Nós estamos em evidência e não em alta. Os médicos fazem parte de uma engrenagem extremamente complexa e composta por muitas outras classes importantes de profissionais. Porém, o nome de um possível candidato nasce da vontade do povo. É o povo que aponta esse nome ao longo dos anos, e, creio que um comandante da área médica nesse momento seria, no mínimo, interessante, mas Piumhi precisa e espera muito mais do próximo gestor. Espera um político mais dinâmico, pró-ativo e humano.

FM – Como está sua relação com o Presidente Nacional do Sebrae, Carlos Melles, que foi deputado majoritário do DEM por muitos anos e ainda é uma liderança importante do partido na região?

Dr. Paulo – Carlos Melles tem uma folha corrida invejável de serviços prestados à região. Quando estive Secretário Municipal de Saúde de Piumhi, ele estava no mandato como Deputado Federal e pôde interceder junto a órgãos e lideranças federais para que obras importantes fossem realizadas, tais como, a implementação do Samu, a reforma do Posto de Saúde Pindaíbas, Posto de Saúde Boussuet Costa, no bairro Nova Brasília, e Posto de Saúde Central.

Além da construção da nova unidade do Posto de Saúde Maria Rezende, no Sítio Pâmela, e Posto de Saúde Tó, no Bairro Elisa Leonel. Então, isso é gratificante, pois o esforço e o trabalho se tornaram realidade, afinal de contas, cargo público é para servir e transformar para o bem a vida do nosso povo.

FM – E com o senador passense Rodrigo Pacheco, Presidente Estadual do DEM?

Dr. Paulo – O Senador Rodrigo Pacheco é um trabalhador incansável. Sua trajetória política é feita de muito trabalho e esforço pela causa pública, um grande nome que nosso Estado tem para futuras eleições.