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O produto do homem

7 de janeiro de 2021

Imagine uma faca simples, apenas com lâmina e cabo de madeira. A lâmina quebra e você a troca por uma nova. Algum tempo depois, o cabo estraga e é substituído também, mas por um de plástico. No fim das contas, você ainda terá a faca, mas ela será outra. Neste exato momento, a Terra está passando por um processo semelhante: a matriz vem sendo substituída por outra sem que possamos parar para raciocinar e quantificar. Há hoje mais produtos fabricados e construídos do que vida orgânica no mundo — um preocupante ponto de inflexão cujas projeções só pioram.


O que você também vai ler neste artigo:

  • Massa mundial
  • Biomassa
  • A mudança

Massa mundial

Não é fácil pesar um planeta. Graças à tecnologia de imagem de satélites, é possível mensurar grandes extensões e fazer mapas com precisão de milímetros, mas os cálculos ficam mais complicados quando a ideia é saber a massa de tudo que existe. Entretanto, o professor Ron Milo e sua equipe de pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, conseguiram chegar ao preocupante número: a humanidade já está vivendo em um mundo mais artificial do que natural. O estudo, publicado no periódico científico Nature, retrocede 120 anos e ainda extrapola duas décadas à frente. Para efeito de análise acadêmica, os pesquisadores desconsideram a água salgada e doce no comparativo — a chamada biomassa líquida de rios e oceanos, anotada em um conjunto à parte.

Biomassa

Em 1900, a biomassa era predominante na superfície sólida da Terra: 97% de tudo que existia era composto de vida orgânica: vegetal e animal. Entram no cálculo do micróbio à baleia, do rato ao elefante, plantas, florestas e todos os povos nos seis continentes. Do outro lado, está o que os cientistas chamam de massa antropogênica, que é resultado da atividade humana: prédios, asfalto, automóveis, fios, plástico, ferro, aço, papel processado e muito mais. Seu celular e o computador entram na conta. Até o século XIX, essa massa compunha apenas 3% do sistema.

A mudança

Contudo, em pouco mais de um século (um piscar de olhos em termos astronômicos, uma vez que a Terra tem mais de 4 bilhões de anos), a situação mudou drasticamente. Segundo os cálculos de Milo e equipe, a massa antropogênica chegou neste ano a 1,1 trilhão de toneladas, superando a biomassa por uma diferença de 100 bilhões de toneladas. Pior: o Homo sapiens fez mais do que adicionar material artificial. Em seu progresso irrefreável, ele devastou 1 trilhão dos 2 trilhões de toneladas de árvores e plantas que existiam no início do século XX, levando à extinção milhares de espécies animais no processo. O crescimento da massa fabricada aumentou em proporção geométrica, ganhando ainda mais velocidade depois da II Guerra Mundial. Se prosseguir nesse ritmo, em vinte anos pode chegar a 3 trilhões de toneladas, um número três vezes maior do que a massa biológica atual. A face da Terra está mudando de forma tão radical que deixa espantados até os mais céticos.