Destaques Dia a Dia

O prazer e o dever

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

25 de agosto de 2020

É normal que, quando se fala em ‘prazer’, as pessoas associem essa palavra a algo fútil, irresponsável e, às vezes, pecaminoso. Essa reação se deve à educação que recebemos, ao meio em que vivemos e aos recalques que nos impuseram ao longo de nossa existência. Porém, podemos perfeitamente rever nossos conceitos. Ao tomarmos um copo de água fresca, quando estamos com sede, sentimos um ‘prazer’ muito grande; da mesma forma que o sentimos quando comemos um chocolate ou realizamos exercícios físicos, em virtude da liberação, no cérebro, de uma substância chamada ‘endorfina’, ligada à gênese do bem-estar e do prazer.

O ‘sentir prazer’ acompanha nossa existência, desde o nascimento. O prazer de sugar o leite no peito materno, o prazer no aconchego de um colo, são exemplos dos nossos primeiros prazeres; da mesma forma, sentimos essa sensação quando satisfazemos nossas necessidades biológicas corriqueiras, como a micção, fato já estudado pela psicologia, e demonstrado em nossas fases de desenvolvimento, ou seja, a ‘fase oral’, que vai do nascimento até os dezoito meses; A ‘fase anal’, dos dezoito meses até três anos e a ‘fase fálica’, que vai dos três aos seis anos. De acordo com a Psicoterapia Sistêmica, fazendo algumas alterações, esse ciclo ‘oral, anal e fálico’ se repete na pré-adolescência, até que a pessoa que tenha um desenvolvimento normal atinja a ‘fase adulta’.

Outra fonte de prazer inquestionável são os alimentos ricos em gordura, pois agem no ‘córtex cingulado’, a mesma região cerebral ativada por estímulos prazerosos como um carinho físico ou a inalação de um perfume. Efeito semelhante acontece quando consumimos doces, recebemos um prêmio ou sentimos cheiros agradáveis. A explicação mais razoável para justificar o fato de a gordura causar prazer é a de que o cérebro desenvolveu mecanismos para aumentar o consumo de comidas calóricas porque, na pré-história, caloria era sinônimo de sobrevivência, e, para o cérebro, continua sendo. Através da educação, tomamos conhecimento de que isso já não é necessário e que a ingestão de gordura em excesso poderá causar danos à saúde, como a obesidade e o aumento do colesterol no sangue.

Uma das principais maneiras de se obter satisfação em nossa vida é, sem dúvida, pelo relacionamento afetivo-sexual, mas a obtenção de prazer, como muitos pensam, não é alcançada apenas no ato sexual. Temos as possibilidades de obter satisfação, também, na maioria de nossas atividades diárias. Podemos vir a tirar prazer do trabalho, da leitura de um livro, da religião, do lazer ou de afazeres domésticos.

As pessoas não se tornam completas se obtêm satisfação apenas em uma de suas atividades. A satisfação é decorrente da soma do prazer obtido em várias situações da vida. Se uma pessoa se dedica exclusivamente ao trabalho, deve repensar por que estaria deixando de lado outros momentos bons de seu dia a dia.

Hoje, é grande a preocupação em se melhorar a qualidade de vida para poder enfrentar, com maior possibilidade de sucesso, as diversas situações que surgem, tanto no aspecto pessoal quanto no profissional. Muitas vezes, fazemos um trabalho que é reconhecido como bom e importante para o desenvolvimento da sociedade. Ele é avaliado como positivo e indispensável. É uma avaliação externa, e responde às expectativas do meio. É importante para os outros. Porém, a situação na qual estamos realmente realizando a nossa verdadeira missão é aquela em que o significado daquilo que realizamos ‘nos preenche’ totalmente. Sentimo-nos plenamente realizados e felizes de termos realizado aquela atividade, que muitas vezes nem é percebida pelos demais. É uma satisfação interna, intrínseca em nós mesmos, e que não pode ser avaliada pelos outros.

Vemos, por exemplo, os professores: na maioria dos casos sua satisfação é interna, ao verem seus alunos crescendo e aprendendo. Seu prazer é pessoal, na relação com cada aluno em especial, mas não é valorizado pela sociedade através de um salário justo e de condições dignas de trabalho. “O prazer faz parte da nossa vida e é fundamental para o nosso bem-estar.” Precisamos parar um pouco para pensar em nós mesmos, em todas as coisas que fazemos e gostamos de fazer, e, também, naquelas que gostaríamos de fazer e que, por algum motivo, não realizamos. Precisamos pensar sobre como, através de nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossa maneira de viver, estamos contribuindo para um mundo mais prazeroso, feliz, mais ‘em paz’.