Destaques Opinião

O Natal do Baixo Clero

POR THOMAS TIMOTHY TRAUMANN

8 de dezembro de 2020

O Natal chegou mais cedo para o baixo clero, os deputados e senadores de segunda linha que vivem das migalhas do poder. A decisão do Supremo Tribunal Federal de proibir as reeleições dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre (a decisão final ocorreu na noite de domingo e o julgamento foi iniciado na sexta-feira – os últimos a votar foram os ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso e Luiz Fux, presidente da Corte.

O placar final do julgamento ficou em 6 votos a 5, contra a recondução dos presidentes das Casas do Congresso), zerou o jogo da sucessão das duas Casas e aumentou o valor do passe dos deputados que não pertencem a nenhum grupo. Daqui até as eleições de fevereiro será a temporada de leilão. Ninguém tem tanto a oferecer quanto Jair Bolsonaro.

Em termos genéricos, o Congresso está dividido em três. Na Câmara, o Centrão – a geleia geral de partidos que apoia qualquer governo – tem cerca de 160 deputados. No entorno de Rodrigo Maia, estão outros 150. Os partidos de esquerda e centro-esquerda reúnem 130 e os 73 restantes vagam pelos corredores do anexo 2 da Câmara sem rei, nem lei. Agora, seus votos viraram ouro.

Se o STF mantivesse a possibilidade de reeleição, seria uma demonstração de força de Rodrigo Maia. Ele se candidataria ou indicaria um dos seus que, com apoio da esquerda no segundo turno, levaria fácil a direção da Câmara. No Senado, Alcolumbre seria possivelmente candidato único. Agora, sem candidatos naturais, o jogo nas duas Casas ficou aberto. Quem afirmar que o parlamentar X ou Y é favorito ou está mal informado ou tem más intenções.

A economia brasileira vai mal e o descalabro na condução do combate à Covid-19 irá, em breve, obrigar as cidades a fecharem de novo. Sem vacinação em massa não há como a economia se recuperar. Como o governo Bolsonaro se mostra incapaz em enfrentar a realidade na pandemia, a melhor alternativa para o presidente se reeleger em 2022 é recriar o clima de embate ideológico. Para isso, é essencial ter o comando da Câmara e do Senado.

Com o Congresso em suas mãos, Bolsonaro poderá manter a popularidade votando temas caros aos seus três grandes grupos de eleitores: o agro, os evangélicos e os policiais. Entre os projetos que o governo Bolsonaro já mandou ou pretende enviar para votação estão a adoção do voto impresso, a liberação do uso de armas, a redução de punições para policiais e soldados que matarem em serviço, a legalização de terras griladas na Amazônia, a possibilidade de garimpo em terras indígenas, o aumento de restrições para o aborto, redução da maioridade penal e o projeto da Escola Sem Partido.

Para ter o embate ideológico de volta, Bolsonaro vai abrir as portas da esperança dos deputados. Ministérios serão recriados, estatais que seriam privatizadas vão ter novos cargos e o toma-lá-dá-cá será institucionalizado, como foi em todos os governos anteriores. É a Velha Política na veia.

THOMAS TIMOTHY TRAUMANN é jornalista, consultor político-econômico independente, palestrante corporativo e acadêmico e ainda pesquisador da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Escreve para a Veja.