Destaques Opinião

O mundo se transforma

POR ALEXANDRE MARINO

13 de novembro de 2020

Como será o mundo dentro de 40 anos? Quarenta anos atrás, ainda não existiam os computadores pessoais, a internet ou os telefones celulares. Bancos e grandes empresas usavam computadores enormes, isolados em salas refrigeradas e operados por poucos especialistas. Em 1970, brasileiros privilegiados viram, nas primeiras TVs coloridas vendidas no país, a seleção de futebol ganhar a Copa do Mundo, em transmissão da televisão mexicana. Somente dois anos depois a TV brasileira gerou imagens a cores.

Qual era o lazer das pessoas, antes do cinema e da televisão? A leitura era um deles. Mas isso para uma parte muito pequena da população, porque os índices de analfabetismo eram altíssimos. Os censos de 1940 e 1950 apontaram que mais de 50% da população acima de 15 anos era analfabeta. Já as famílias mais abastadas promoviam saraus em que se ouvia música e poesia. Até que nos anos 1960 a televisão começou a se tornar uma espécie de totem nas residências, e todos passaram a reverenciá-la em silêncio.

O século 20 foi um período de grandes transformações, mas qual século não o foi? Em 1903, foi emplacado o primeiro carro no Brasil, pertencente ao conde Francisco Matarazzo. Atualmente, o índice de mortes no trânsito no país é de uma pessoa a cada 12 minutos, de acordo com o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). No início do século, viajava-se a cavalo, e frequentemente os viajantes tinham que usar ferramentas para abrir as próprias trilhas. Há relatos de viagens de 25 dias entre o Triângulo Mineiro e o interior de Goiás.

Goiânia, capital de Goiás, foi inaugurada em 1942, 18 anos antes de Brasília. Hoje são as duas maiores metrópoles do Centro-Oeste, somando cerca de 4,5 milhões de habitantes, numa região quase despovoada antes de sua existência. Ambas estão cercadas de modernas rodovias em inúmeras direções, e uma viagem aérea de uma delas até o Rio de Janeiro leva menos de duas horas.

O 14-Bis, de Santos Dumont, símbolo da invenção do avião, voou pela primeira vez em 1906, em Paris. Como todas as criações humanas, o automóvel e o avião trouxeram o bem e o mal. Em 1932, ao ver, da janela do hotel onde vivia, no Guarujá (SP), a passagem dos aviões em combate durante a Revolução Constitucionalista, Santos Dumont se matou, aos 59 anos.

Quando menino eu viajava muito com meu pai entre Passos e Belo Horizonte, e lembro-me dos grandes atoleiros em tempos de chuva, onde muitos carros ficavam parados até que surgissem tratores para resolver o transtorno. Isso foi nos anos 1960, nem faz tanto tempo assim. No início da adolescência, muito interessado em literatura, fiz um curso de datilografia, com direito a diploma no final. Minha agilidade com a máquina de escrever foi muito útil quando comecei a trabalhar como jornalista, primeiro em Belo Horizonte, depois em Brasília. Guardo muitos recortes de matérias que escrevia nos jornais. Desta coluna, guardo apenas um arquivo virtual.

Na década de 1970 fui estudar em Belo Horizonte. Todos os domingos, saía da república onde morava, na rua Timbiras, caminhava meia hora até a rua Goiás, onde havia um posto telefônico da Telemig. Ali entrava numa fila e aguardava ser chamado numa cabine, de onde falava com meus pais em Passos. Era uma época em que, vivendo sozinho numa cidade estranha, o mundo se abria para mim. Mas os mais velhos viviam repetindo: “Tome cuidado, o mundo está muito perigoso”, ou “No meu tempo o mundo era muito melhor”.

O filme “O dilema das redes” revelou o arrependimento de geninhos da informática que criaram e aperfeiçoaram as redes sociais. Para eles, sua criação representa mais o mal que o bem. Estes tempos em que as pessoas andam cabisbaixas, mergulhadas em seus smartphones, algumas replicando desinformação, mentiras ou mensagens de ódio, é pior que o de décadas atrás? O mundo está ao mesmo tempo infantilizado e violento. A tecnologia transforma a mente humana. Em quê? “Este não é o meu mundo”, penso às vezes. Mas qual é o meu mundo, a não ser o presente? Eu gostaria muito de ver o mundo daqui a 40 anos. É possível que o de hoje seja melhor, mas também é possível que não.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna