Destaques Opinião

“O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

10 de dezembro de 2020

Em um dos artigos mais recentes, ‘O amparo da literatura’, que aqui publiquei em outubro último, eu manifestava que logo cumpriria o desígnio de me entregar às páginas desse célebre romance, que tenho há décadas, mas ainda estava na lista daqueles que eu não havia lido. Diga-se que vem ocupando a lista dos mais vendidos em pesquisas recentes, uma vez impulsionado pela personagem Bela Swan, que o menciona na saga “Crepúsculo”.

Na realidade, “O Morro dos Ventos Uivantes”, desperta análises da nossa crítica literária desde sua edição no Brasil, tamanhas as possibilidades que ocasionam seu enredo e personagens impactantes. Não é obra de uma leitura simples, em razão das complexas relações estabelecidas por tais personagens.

Emily Brontë, nascida em julho de 1818, era a quinta filha de um vigário e da funcionária de uma escola e levava existência discreta. Tinha poucos amigos, era reconhecidamente tímida e reclusa — beirava à misantropia, segundo biógrafos. Após algumas tentativas frustradas de se tornar professora, por causa da saúde frágil, ela retornou à casa da família, em Yorkshire (nordeste do Reino Unido), de onde pouco saiu até falecer precocemente aos 30 anos em 1948, após uma doença pulmonar.

É a grande escritora Raquel de Queiroz, uma das tradutoras do romance no Brasil, que diz não serem tão precisos os dados sobre Emily Brontë, mas que ela viveu de idas e vindas em internatos junto de duas de suas irmãs e experimentou tragédias familiares, como doenças, mortes e o alcoolismo de um irmão. No entanto, fez da paixão pelos livros a sua vida e, depois de publicar alguns poemas que não obtiveram o devido reconhecimento, criou seu único romance, “O Morro dos Ventos Uivantes”, que se transformou neste grande clássico da literatura.

Eis algumas das belas palavras de Raquel: “Talvez essa magreza de minúcias sobre mulher tão grande desconcerte os curiosos, mas de certo modo preserva Emily de intromissões profanas na sua orgulhosa solidão e no seu não menos orgulhoso silêncio sobre si própria. Tudo que ela quis dizer da sua vida, da sua alma, di-lo no romance principalmente. Pôs nele quase tudo que trazia guardado no peito e morreu do livro como se morresse de parto.

Nota-se, de fato, durante a leitura, a maturidade e o talento de Emily ao arquitetar enredo tão profundo e que escapa a classificações estanques. Vale dizer que a obra transita por elementos do romantismo, do realismo e até do estilo gótico, tamanhos os momentos sombrios e fantasmagóricos em seu decorrer.

Estamos, pois, diante de relações geradas por laços parentais entre duas famílias, com a forte presença da governanta Delly, que trabalhou para ambas e narra a história na maioria de sua fluência. É preciso atenção para se detectar nomes e perceber quais são mesmo tais laços de parentesco, sobretudo nos primeiros capítulos.

Um dos personagens, o protagonista, Heathcliff, entra na narrativa logo nas primeiras páginas, após ser adotado, em uma viagem, pelo senhor Earnshaw, um dos antigos membros de uma de uma das famílias. E Heathcliff, após sofrer todos os tipos de discriminações na infância por Hindley, filho de Earnshaw, se apaixona, quando jovem, por Catherine, a outra filha daquele senhor. Ela também passa amá-lo, mas não consegue se livrar dos antigos preconceitos por causa da origem humilde do irmão adotivo e acaba se casando com Edgar Linton, integrante da outra família.

Embora possa parecer um daqueles enredos comuns de preconceitos e conflitos familiares em casos amorosos, o que passamos a observar é que a paixão de Heathcliff por Catherine vai provocar toda uma gama de outras relações e consequências entre as duas famílias que compõem a trama.

Torna-se difícil, neste espaço, estabelecer tantos aspectos que resultam dessa paixão, pois demandariam um texto bem maior. Mas posso dizer que “O Morro dos Ventos Uivantes” é intenso e profundo por expor, sob a voz da governanta Delly, as reações íntimas dos personagens daquelas famílias, atingidos que o foram pelos efeitos da paixão entre Heathcliff e Catherine.

São sentimentos de idas e vindas, ou seja, de atitudes grandiosas e mesquinhas, de benevolências, mas também de crueldades as mais repulsivas, características que emanam de personagens cujo caráter se apresenta bastante mutável, uma vez ao sabor de emoções explosivas. Nelly tenta se tornar uma espécie de ilha do equilíbrio em meio aos fluxos de paixão, ódio, violência, ganâncias, mágoas, orgulhos, doenças, fragilidades, caprichos e vinganças, estas últimas até de cunho econômico, quando Heattchiff se apossa, anos depois, dos bens de seu padastro.

Trata-se de um texto denso praticamente do início ao fim, como que a retratar a saga de dores a que são submetidas as referidas famílias em virtude de uma doentia paixão que extrapola quaisquer limites da imaginação comum, de modo a descambar até para o além.

Não há como ler a obra sem aquela entrega absoluta, exatamente para que o leitor possa sentir na pele o relato dos sentimentos terríveis de personagens tão marcantes. Temos assim, no transcurso da narrativa, mais uma farta demonstração da capacidade que a literatura possui de avançar para terrenos os mais insondáveis da natureza humana. Registre-se que há momentos de certo alívio e redenção ao final, após tanta tormenta.

Brilhante Emily Brontë. Viveu tão pouco, mas legou sua presença eterna em romance de tal magnitude, que prosseguirá a despertar análises e até prolongamentos para outras formas de linguagem, como o cinema, que contempla algumas versões, por certo bem mais sucintas do que o texto literário em si, que é sempre mais abrangente.

Oportuno concluir com mais algumas palavras de caráter introdutório à obra, também escritas por Raquel de Queiroz há décadas e que constam de minha edição: “No mês de dezembro de 1947 vai se completar um século que foi publicado ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, talvez o maior livro de ficção literária escrito por mulher desde que no mundo se conhece a arte de escrever.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna