Destaques Opinião

O mais velho Natal

POR ALEXANDRE MARINO

26 de dezembro de 2020

O primeiro Natal de que me lembro é o de 1958, que nada teve de especial, a não ser por um presente que ganhei – um presente singelo, porém muito valioso para mim, como teria sido qualquer presente para uma criança de dois anos de idade. Fiquei encantado com aquele palhacinho feito de palha e vestido com roupinha caipira, e a cabeça de plástico da qual tiraram os olhos, que eram de vidro, para que eu não corresse o risco de engoli-los ou de fazer alguma dessas maluquices que só as crianças conseguem fazer.

Eu e o Palhaço nos tornamos amigos inseparáveis por longos anos, até que cresci e cometi a ingratidão de abandoná-lo a um canto qualquer. Minha mãe, de quem herdei a incapacidade de descartar coisas inúteis e sem uso, o guardou, e ele foi esquecido. O tempo passou, fui morar em Belo Horizonte, formei-me na universidade, mudei-me para Brasília, Passos ficou muito distante. Mas levei comigo, por onde andei, algumas coisas marcantes em minha vida, como uma coleção de rótulos de cerveja e um velho álbum de fotografias, que minha mãe começou a fazer logo após meu nascimento. Sempre que folheava esse álbum, parava numa foto em que eu aparecia no quintal de casa, dentro de um chiqueirinho, junto com o Palhaço. Eu tinha nítida lembrança dele, mas imaginava que tinha virado pó.

No início dos anos 2.000, já na maturidade, tive a ideia de escrever um livro de poemas em que dialogasse com aquele menino que deixei em Passos antes de ir embora. Comecei a viajar muito para a cidade e a fotografar tudo que dissesse respeito à minha infância e a minhas origens – lugares, objetos, pessoas. Foi um período de emocionante reencontro. Passei a observar coisas que estavam ao alcance da mão e era como se não existissem – o calçamento de uma rua, um enfeite qualquer sobre a mesa da casa de minhas tias, um ângulo inusitado do velho Bazar Magom, que foi parte do sustento de minha família enquanto lá vivi. Visitei parentes que há anos não via, observei cenários que reviveram ao meu olhar. Esse exercício reacendeu minha memória, de tal forma que comecei a me lembrar de coisas muito antigas, enquanto uma lembrança puxava outra, e outra, e outra. Uma experiência fascinante.

A minha intenção era publicar essas fotos no livro, mas depois desisti, passando a usá-las apenas para estimular a memória e me inspirar. Já havia reunido muitos poemas e o livro tomava forma, inclusive com título – “Arqueolhar” –, quando viajei mais uma vez a Passos. Minha casa ficava no fundo do terreno da casa de minhas tias, mas o que eu e meus irmãos chamávamos de “nossa casa” eram as duas casas juntas, incluindo o quintal. Fiz algumas fotos por ali e entrei no porão, que dava passagem entre o quintal e o Bazar.

Havia um armário à esquerda, e eu me lembrava que nele meus pais guardavam algumas ferramentas e outros materiais usados numa pequena oficina, montada ali mesmo no porão, onde fabricavam de forma artesanal alguns objetos que vendiam no Bazar. Quando o Natal se aproximava eles intensificavam o trabalho, sempre à noite. Eu mesmo cheguei a criar alguns brinquedos, usando uma serrinha tico-tico, com que cortavam a madeira muito macia das caixas de maçã, que meu pai comprava nos mercadinhos. Eu me lembrava nitidamente da oficina, mas não havia encontrado nenhum objeto relacionado a ela, nem mesmo um martelo. Abri o armário pensando nisso, mas a única coisa que encontrei foi o Palhaço, no cantinho de uma prateleira.

Foi uma enorme surpresa. Meu velho palhacinho de palha, que eu chamava de “Aço” e parecia ter diminuído de tamanho, estava fechado há anos no armário, como se esperasse pacientemente por mim. Estava um pouquinho machucado, mas inteiro. O Palhaço inspirou um dos poemas e ilustrou a capa do livro. Quando em 2005 lancei o “Arqueolhar” em Passos, na Casa de Cultura, o Palhaço foi orgulhosamente exibido aos presentes. Agora, em Brasília, ele dorme dentro de uma caixa. Neste dezembro, volto ao primeiro Natal de que tenho lembrança e sonho em fazer um pedestal para ele. Talvez não seja um presente de Natal, mas ficaremos felizes.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna