Destaques Opinião

O Líbano é aqui

POR PAULO NATIR

18 de agosto de 2020

O simbolismo daquela terrível explosão que ocorreu em Beirute, no Líbano, no início desse mês atingiu em cheio toda humanidade. Os fogos representam o ninho de pólvora permanente em que vive há muito tempo a sofrida população do Oriente Médio. Ali o conflito parece ser contínuo há séculos. Principalmente as questões religiosas e comerciais são o pano de fundo de diversos conflitos. O país é uma das regiões de antigas civilizações como os fenícios, assírios, persas, gregos, bizantinos e turcos otomanos. Sua rica história formou uma identidade cultural fortíssima com muita diversidade étnica e religiosa.

O trágico incidente que aconteceu no dia 02 de agosto, no armazém do porto, da capital do país deixou pelo menos 200 mortos e mais de 5 mil feridos. Investigações preliminares indicam que o acidente foi fruto da negligência das autoridades. Desde 2 014 elas vinham sendo alertadas sobre o depósito recheado com mais de 2 700 toneladas de nitrato de amônio – substância altamente inflamável usada na fabricação de fertilizantes e explosivos – mas nada fizeram.

Apesar de sua bélica localização, o Líbano tem um charme muito especial. Beirute é considerada a Paris do Oriente Médio. Há duas semanas após a explosão, a população libanesa ainda vive em colapso. O governo declarou um estado de emergência e deu poderes extraordinários aos militares para impedir que a população possa protestar contra a morte de seus familiares e amigos. A avaliação é da escritora Lina Mounzer. Ela reflete a crise vivida em sua cidade, a indignação da população e a responsabilidade do Estado. “Assassinos nos governam”, acusou. Segundo ela, está enterrado sob os escombros de Beirute “o sonho de que poderíamos ter um futuro real nesse país e a esperança. Tudo isso agora está enterrado”, lamentou.

A escritora disse também que a população não confia nas investigações realizadas pelas próprias autoridades do país.

O governo está moralmente falido. Eles já estão bloqueando as investigações internacionais. O presidente Aoun chamou uma investigação internacional de uma perda de tempo. Este é um Estado que levou o país a falência e depois confiscou nosso próprio dinheiro”, denunciou.

Lina Mounzer publicou diversos textos e contos nos últimos dez anos em jornais como The New York Times, The Guardian, The Paris Review, entre outras publicações. Ela disse também que há hoje em Beirute um forte sentimento de raiva, tristeza e choque.

A solidariedade ainda está presente. Se não tivéssemos solidariedade, não teríamos nada. A elite política não fez nada. Nada para ajudar. Desde a limpeza dos escombros, a retirada de corpos debaixo dos escombros, a distribuição de ajuda, até a tentativa de encontrar lugares seguros para os sem-teto dormirem: tudo isso foi feito por cidadãos particulares com seus próprios recursos. Nunca é demais salientar o quanto o Estado tem sido negligente e insensível”, protestou a escritora.

Mounzer disse ainda que toda tragédia somente aconteceu devido a ineficiência das autoridades.

A explosão foi culpa deles. Agora há provas claras e escritas de que eles sabiam sobre o nitrato, assim como o perigo que representava pelo menos duas semanas antes da explosão. E ainda assim o que eles fizeram foi usar munições contra os manifestantes sem levantar um dedo para ajudar”, denunciou.

Fico só imaginando o tremendo susto dos moradores de Beirute no momento da explosão. Eles irão conviver com as sequelas desse acidente talvez pelo resto de suas vidas. Logo agora que os libaneses pareciam ter superado os traumas e tormentos terríveis da guerra civil libanesa que durou 15 anos, entre 1 975 a 1 990. Que Deus tenham misericórdia de todos habitantes dessa nação.

Pelas “bandas de cá” do planeta os brasileiros também vivem um luto extremamente doloroso. Em seis meses de pandemia no Brasil o novo coronavírus vitimou mais de 100 mil pessoas. A culpa é de quem? Minha total solidariedade as milharesde famílias enlutadas. Vamos fazer nossa parte. Esse gravíssimo problemanão acabou. O isolamento social ainda é o único remédio contra a covid-19. Fiquem em casa se puderem….

PS – Só para parabenizar o astro passense Martello pela maravilhosa live promovida no último sábado. A todos os artistas e à população regional, muito obrigado por momentos de grande alegria.

PAULO NATIR é Jornalista