Destaques Entrevista de Domingo

‘O governante deve ser de todos e não de seu grupo’

26 de outubro de 2020

Nelson Jorge Maia foi prefeito e vice-prefeito de Passos e fala sobre os desafios para os postulantes aos cargos do Poder Executivo na região. / Foto: Divulgação

Dando sequência às entrevistas com ex-prefeitos das cidades da região, que foram escolhidos por meio de sorteio, a Folha traz neste domingo, 25, o ex-chefe do Executivo de Passos Nelson Jorge Maia, 72 anos, casado com Maria Zélia Bueno Gonçalves Maia, com quem tem três filhos – Natasha, Ivan e Nilo – e cinco netos. Em 1973, Nelson Maia graduou-se em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em Piracicaba (SP).

Nos primeiros anos, trabalhou nos estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul com desenvolvimento de produtos pela Philips Duphar e Du Pont. Retornou a Passos em 1979, e iniciou o trabalho de assistência técnica em propriedades rurais da cidade e da região. Sua entrada na política foi em 1988, quando foi eleito vereador, tendo sido relator da Lei Orgânica Municipal. De 1997 a 2000, assumiu a prefeitura de Passos. Nesse período, foi presidente da Associação dos Municípios da Microrregião do Médio Rio Grande (Ameg) e um dos fundadores do Consórcio Intermunicipal de Saúde (Cismip). Foi, também, vice-prefeito na gestão 2005-2008.


Folha da Manhã – O senhor foi prefeito de Passos, uma das maiores cidades do Sul de Minas, e fez, na época, grandes e permanentes obras, como a avenida da Moda, que colocou Passos em lugar de destaque, conseguiu a reforma do Aeroporto José Figueiredo e a implantação do Distrito Industrial II. Vinte anos se passaram e nenhuma outra grande obra foi feita com recursos municipais. A que o senhor atribui esta inércia?

Nelson – Eu entendo que na política todos têm um papel a cumprir. Obras dependem de vários fatores de momento, sendo imprescindível saber gerir bem os recursos. Tal como no orçamento doméstico, cortando gastos desnecessários, os recursos financeiros aparecem e devem ser canalizados para atendimento do bem comum. Logo ao assumir a prefeitura, verificamos uma necessidade premente de organização e dimensionamento de pessoal.

Enxugamos o quadro de cargos de confiança. Ao término do mandato, contabilizamos 273 funcionários contratados a menos que no início do governo, sem prejuízo na prestação do serviço. A obra da avenida Comendador Francisco Avelino Maia (avenida da Moda), de fato, foi um marco urbanístico de Passos. Mas é necessário lembrar que a parte subterrânea (galeria) foi, também, muito bem feita, resolvendo um problema recorrente de uma das principais avenidas da cidade. Os recursos federais e estaduais foram mínimos. Os governos posteriores fizeram o seu trabalho, cada qual com sua priorização. O governo atual, por exemplo, vai deixar um legado importante de ajuste fiscal e financeiro da prefeitura.


FM – Também durante a sua gestão, o senhor foi responsável pela terceirização do Sistema de Saúde do município, com o apoio do então secretário e médico Gilberto Mattar. O senhor consegue visualizar, após este período, avanços neste sentido, em Passos e na região?

Nelson – A terceirização, da forma que foi feita na nossa gestão, possibilitou um avanço extraordinário no atendimento à população, que, infelizmente, não teve prosseguimento. Contratamos horas de médicos e, assim, podíamos alterar as especialidades de acordo com as necessidades. Quando algum profissional tinha problemas, por exemplo, de não cumprir agenda, a gente podia corrigir com agilidade. Nunca mais tivemos filas, e a população teve acesso a serviços antes inexistentes. E ainda pude contar com o médico Gilberto Mattar como secretário da área, uma pessoa extraordinária, que tem um conhecimento inigualável de saúde pública, além de ser um idealista obstinado em oferecer serviços de qualidade. Saúde pública exige recursos além dos 15% obrigatórios, e isso foi prioridade. O Dr. Gilberto obteve meu apoio e realizou uma grande gestão.


FM – O senhor sempre foi um grande nome dentro do seu então partido, que era o antigo Partido da Frente Liberal (PFL), hoje o Democratas. Qual foi o motivo do ‘racha’ e por que o senhor preferiu sair dos quadros do DEM e migrar para o PSD?

Nelson – Na época, o PFL estava passando por divergências internas e não houve diálogo que possibilitasse encontrar um consenso. Diálogo e entendimento acontecem quando ambas as partes estão dispostas a renunciar a alguma coisa para buscar o ponto comum. Senti que não existia essa disposição, ou seja, do tipo “se quisesse, tinha que ser assim”. Aí eles dissolveram o partido de forma radical e houve uma insatisfação natural de muita gente. Depois que saí do PFL recebi o convite do deputado Cássio Soares e passei a integrar os quadros do PSD.


FM – Como o senhor analisa o atual quadro político regional para as eleições do próximo dia 15 de novembro?

Nelson – Diferentemente das eleições gerais, no pleito municipal, em regra, o eleitor não se preocupa com o viés de “direita” ou “esquerda” dos candidatos. Ele busca conhecer o passado e as propostas de cada postulante ao cargo.


FM – Na sua gestão, o senhor não tinha uma bancada majoritária na Câmara e nem por isso deixou de aprovar importantes projetos para a cidade. O senhor julga indispensável um prefeito lotear cargos para conseguir apoio no Legislativo?

Nelson – Em certo momento minha base tinha apenas dois ou três vereadores e nenhum projeto meu foi rejeitado. Dentre os motivos, elenco a disposição para o diálogo, a apresentação de propostas que eram de estrito interesse público e a postura do Legislativo daquele tempo, que era diferente. O grande mal da política é esse ‘toma lá, dá cá’, que tomou conta do Brasil e que, graças a Deus, nunca fez parte de minha agenda, e nem mesmo os políticos daquele tempo pediam algo em troca. O que valia era o interesse público, e isso foi um dos pontos mais destacados das relações políticas e governabilidade de meu governo


FM – Também foi durante a sua gestão que a representatividade política do município de Passos praticamente acabou, sem deputados estaduais e federais. O senhor julga importante o apoio dos parlamentares? Ela existe hoje?

Nelson – Parlamentares como o deputado Cássio Soares são imprescindíveis, mas os governos também precisam se preparar para obter recursos e, principalmente, não se perder em divisões políticas estéreis. Seja qual for o vencedor, tenho certeza de que o deputado Cássio Soares será um parceiro de primeira hora. Mas, mais importante do que a vinda de recursos federais e estaduais, é a formação de um secretariado competente e dedicado para que os projetos sejam concretizados.


FM – Quais eram os grandes desafios de ser prefeito há duas décadas e quais os grandes desafios dos postulantes aos cargos de prefeito e vereador atualmente?

Nelson – O desafio dos prefeitos é mudar a forma de fazer alianças, e o governante deve ser o prefeito de todos e não de seu grupo político. Temos muitas carências, especialmente nas áreas da saúde, geração de emprego e urbanismo, e somente a união de esforços possibilitará avanços. O potencial turístico, por exemplo, ficou praticamente estagnado desde o projeto Nascentes das Gerais que criamos. Quando os políticos se unem em torno de bons projetos e deixam as disputas para o período eleitoral, a cidade se desenvolve. Precisamos ter essa maturidade política: temos, cada um de nós, sua ideologia, seu partido, mas temos em comum o fato de sermos cidadãos passenses e isso deve ser o elo forte.


FM – Os vice-prefeitos de outrora eram tidos como figuras decorativas. O senhor acha importante que os eleitores saibam quem são os candidatos a vice-prefeito, uma vez que vários assumem? E, também, que eles devam ter atuação efetiva na administração?

Nelson – A figura institucional do vice-prefeito não estabelece funções administrativas, mas é o primeiro na linha de sucessão. Porém não vejo problema na delegação de certas funções ao vice-prefeito, podendo até mesmo atuar como secretário.


FM – O senhor, inclusive, teve a experiência de também ser eleito vice-prefeito na primeira gestão do sindicalista Ataíde Vilela. Como foi? Teve condição de atuar?

Nelson – Na gestão do prefeito Ataíde Vilela eu pude atuar como vice-prefeito institucional, sem atribuições administrativas, o que aceitei com naturalidade.


FM – Como foi a atuação de sua vice-prefeita, Dona Maria Eny Jabur, e seu relacionamento com ela?

Nelson – Ao contrário do que muitos apregoam, nunca tive nenhum problema com Dona Maria Eny Jabur. Em todos os momentos, ela se relacionou comigo da forma mais digna e cortês, pensando sempre no bem de Passos. Ela é uma pessoa admirável.


FM – No fim de seu mandato, houve uma mudança na legislação e até hoje os prefeitos falam que pagam empenhos feitos na sua gestão. Como o senhor vê e recebe essas críticas?

Nelson – Na verdade, no último ano de meu mandato, mais especificamente em outubro de 2000, a legislação mudou para impedir que o prefeito deixasse restos a pagar de empenhos contraídos nos dois últimos quadrimestres de seu último ano de mandato, sem ter a respectiva disponibilidade financeira para pagamento, no mesmo exercício. Por várias razões, a prefeitura teve repasses adiados no final daquele ano, mas que se referiam ao último ano de meu mandato.  Esses recursos eram suficientes para a quitação integral daqueles empenhos e entraram no caixa da prefeitura logo no início do exercício financeiro seguinte, ainda em janeiro de 2001. Todavia, o prefeito que me sucedeu optou por não quitar aqueles empenhos, gerando essa grande celeuma. É importante dizer que foi atestada a entrega dos bens e/ou serviços a eles referentes. Como meu sucessor optou por não quitá-los, obrigou-se aqueles fornecedores a judicializar a questão. É importante ressaltar que todas as minhas contas foram aprovadas unanimemente.