Destaques Do Leitor

O fatídico dia do abraço

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

13 de outubro de 2020

Embora há quem não goste, abraço é bom de se dar e receber. O ato simboliza carinho, afeto, sensação de apego, confiança. Aos que acreditam, possibilita um naco de felicidade. O povo diz e a ciência comprova: o abraço libera os hormônios ligados à sensação de bem-estar. No caso, a ocitocina, conhecida como hormônio do amor. Por isso, quando do desalento, angústia e tristeza, um abraço ajuda muito. Pode curar até mesmo a raiva. Há, no entanto, quem sinta ojeriza por abraçar e ser abraçado.

Por intromissão e nenhuma concessão de chegada surge a pandemia do Coronavírus e atrapalha. E como atrapalha. Impõe medo. Limita barreiras. Instala pavor. E impacta o mundo com a propagação do vírus do Corona, ocasionando mortes. Confusão de todo jeito. Até ‘aquilo’ se deixou de fazer por receio de contaminação. Faz lembrar um amigo de longa data. Deixou escapar no Bar do Limão. Jamais teria tido relação heterodoxa (diferente) com a esposa. O temor: contrair Aids. Ops! Ninguém perguntou. Enunciado, em unidade, gratuitamente anunciado. Que estranho. Mas…

De volta ao aconchego do abraço, no reverso da moeda, um abraço pode transformar-se em bomba de mil megatons. Como não? Foi o que aconteceu. Simples manifestação cordial? Ninguém mandou ou pediu. Com mentirinha de ninguém acreditar. A visita na casa de Dias Toffoli era para assistir a um jogo. Que nada! Abraço ostensivo, espaçoso, buliçoso. Para muitos, fora do tempo e de esquadro. Como também de logística do muito que se pretendia na esfera política. Tornou-se público. Agora, aguentar as consequências. Segura peão!

O abraço em si não significa tanto como as consequências advindas. Consequências danosas. Como ficam agora os seguidores fanáticos de Bolsonaro? A vontade é explicar no uso de termos chulos. No cúmulo do absurdo, aquilo de rasgar o monossílabo tônico sem acento do assento. No pensamento, a imagem. É isso. Uma tragédia. Aqueles que brigavam pelo fechamento do Congresso Nacional, o presidente da casa estava lá – Davi Alcolumbre (DEM-AP). Aqueles que queriam um ministro absurdamente evangélico – eis que surge um fervoroso católico –, entre salamaleques e rapapés, tradução de festividade amiga e companheira. O futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, desembargador Daniel Marques, também estava lá.

No tenebroso se conclui: como ficam os que queriam o fechamento do Congresso Nacional e a extinção do TST? Milhões de assinaturas fluindo a babas de quiabo pelas redes sociais? Insolentes vôos aéreos sobre as casas dos Três Poderes? Nisso tudo a explicação. Kássio Daniel ocupará a vaga do decano Celso de Melo, que vai se aposentar. Quem escolheu o ministro garantista, ou seja, um fiel cumpridor das leis, pela lei e ordem, foi o próprio presidente Bolsonaro. Não há como negar. Um deus nos acuda se formou e está deixando o cenário político em polvorosa. Pregavam o fechamento do Congresso Nacional, apregoaram a extinção do TST, e queriam enxotada a turma dos “desocupados das lagostas e cartas de vinho de fina e cara qualidade…”. Era isso? Não será dessa vez. E agora, José? A festa acabou. Reza-se em outra cartilha. A história segue em rumos diversos. A turma parece não ser a mesma? Como fica?

Não fica. No sentir de gente que pensa com cabeça de necessidade e premência, já se esperava por esses acontecimentos. Como a derrocada de Trump, nos EUA. Mais cedo ou mais tarde acontece. Vale e se impõe o instinto de sobrevivência. O presidente Bolsonaro pensa é na reeleição. Preocupa-se com a possibilidade de julgamentos futuros. Pisou na bola. E feio. O risco é enorme. Precisa do fortalecimento das instituições, muito embora ao longo de sua carreira tenha agido diferente – por isso mesmo se viu aclamado pelos bolsominions – pejorativamente conhecidos os seguidores de Bolsonaro.

O desembargador Kassio Nunes Marques vai para a instância suprema criada por Eurico Gaspar Dutra. Ele que naturalmente deverá passar antes por uma sabatina no Senado. Será no dia 21 próximo. Deverá contar no mínimo com 41 dos 81 votos dos senadores. Vai passar. Para quem estava acostumado com o Dia Internacional do Abraço, comemorado no dia 22 de maio, até que foi interessante. O abraço de Bolsonaro e Toffoli foi um abraço bem festejado e não menos turbulento. Nas conjunções adversativas da vida, o cenário político fica bem mais interessante. Integrantes da base aliada de Bolsonaro, insatisfeitos com a indicação, a esquerda republicana fraca e inexistente, agora é esperar para ver como é que de fato fica.

Haverá muitas facetas a ser apreciadas e questionadas. O presidente Jair Messias Bolsonaro até parece não ser o mesmo de quando entrou para a presidência. E não é. De se repetir: instinto de sobrevivência! Tomou um choque de realidade ou verdadeiramente se tocou? Ambas as hipóteses podem servir. Que o bicho está pegando, com certeza está.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos
nesta coluna.