Destaques Opinião

O drama do verde e vermelho

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

1 de fevereiro de 2021

Nem imaginem a confusão que gera para um sem número de pessoas. Distúrbio que afeta indivíduos de todas as classes, níveis sociais, homens e mulheres. É o daltonismo. Nomes complicados dão o tom e a coloração do drama que não deixa de ser uma doença desagradável, sendo os tipos mais comuns, com a licença dos nomes complicados no enunciado, a protanopia, a tritanopia e a deuteranopia.

Que eu saiba meu pai era daltônico. E bem de perto, e há mais de meio século, o sobrinho Josmar Negrinho Moura continua firme e forte com o ligeiro desconforto. A perturbação, o próprio nome invoca, acaba incomodando. Talvez não tire dos sujeitos a incapacidade de absorver bons momentos e atos existenciais.

Isso chateia tanto quanto traves e ciscos nos olhos, mesmo porque envolve um dos cinco sentidos do ser humano, inclusos os animais vertebrados, que é a visão. Sim, é por meio da visão que temos a capacidade de enxergar o que se passa à nossa volta. Assinalada a anomalia e destrinçada a perturbação visual, o daltônico não dispõe da capacidade de diferenciar todas ou algumas cores, em especial o verde do amarelo. Como nervos políticos de sociopatas estão à flor da pele, e tomem palavrões sem sentido e nem concedidos pelo comando da tropa, por trincheiras nunca antes visualizadas, deixo claro que não há conotação com governo de nenhuma república. Esconjuro quem pensar diferente.

Mais detidamente, nesses momentos cruciais pelos quais passamos, ponho-me a pensar como há de se comportar o portador desse distúrbio, descoberto pelo químico britânico John Dalton (o da Lei das Proporções Múltiplas), segundo relata a história, o primeiro cientista a estudar a anomalia do daltonismo, por certo e mais precisamente, porque o próprio era portador desse mal. E era.

De meu pai guardo tênues lembranças sobre o drama com o qual se debatia. Pouco falava sobre a questão. Não me lembro de vê-lo em embaraços mais acentuados. Pensando bem, passados décadas de separação, chego à proximidade de algo relevante: ele não dirigia carros. Chegou a possuir vários, mas não era chofer. Não tinha habilitação para dirigir autos. Para dizer a verdade, nunca o vi dirigindo nenhum veículo.

De todos os seus “fordinhos” – assim ele os chamava – entre outros filhos, por igual, cabia a mim o dever de conduzi-lo nos seus périplos, normalmente feitos à tardinha. Saíamos de Passos e íamos até a estátua de São Sebastião do Paraíso. Saudação satisfeita ao padroeiro, em seguida, dávamos meia volta e voltávamos. Raramente seguíamos por Furnas. Todo o sentido direcional era voltado para os ares geográficos de Itaú, Paraíso e – quem sabe, na volúpia de saudosa imaginação até a cidade de Monte Santo de Minas, sua terra natal, via Rodovia do Café.

Por que estou tratando disso? Há uma explicação prosaica e trivial. Na noite passada, detive-me em minha biblioteca, sem me ater à leitura específica. A esmo, lancei mão da obra de contos de Affonso Romano de Sant’Anna, título A Mulher Madura, Ed. Rocco, 2ª Edição, 1986. “Deliciosos contos de um invejável escritor mineiro.
Embora “o rosto da mulher madura se estabeleça como moldura em olhos acesos e apaixonados”, firmei-me no interesse da leitura de Daltônicos de todo mundo, uni-vos! Não me perguntem por quê.

Inicia-se o Conto falando do quão é desnorteante ser daltônico; no meio fala que Dalton, em 1794, fez essa espantosa descoberta: pessoas confundem o verde com o vermelho; outras, o amarelo com o laranja. E há os que confundem todas as cores. E o mais complicado: o Detran denota ódio mortal aos daltônicos, já que os exames de vista condenam penosamente quem se habilita a se habilitar a ser motorista. Quando vira tudo uma gozação. No dizer do coestaduano Sant’Anna, “um misto de comédia e patetismo“.

Em face de tudo, e do apelo feito a que os daltônicos se unam à nobre causa de transformar as cores em formatos diferentes, como, por exemplo, quadrado fica no lugar de “pare”; triângulo, no lugar de “espere”; e redondo no lugar de “continue”, penso que meu pai tinha razão. No inverso da benevolência respeitosa, o de fazer rogos ao filho – deferência a mim – para conduzi-lo em aposentados passeios de Exatoria Estadual, nas tardes de estações que “ondeiam no oceano dos olhos de um daltônico”. Entre as cores verde, vermelho, amarelo, laranja, ou outras mais. Sejam fortes ou suaves. Que se possa sonhar com as cores do arco-íris. Como gostava de dizer o saudoso mineiro de Uberaba, Fernando Vanucci: “Sem medo de ser feliz”.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.