Destaques Dia a Dia

O defunto Nicolau

POR ADELMO SOARES LEONEL

20 de março de 2021

Que trem mais bão é descobrir talentos escondidinhos por aí, neste vãos de varandas e quintais ensombrados do Piumhi. Isturdia mesmo, numa humildade típica da mineirada, manda a cartinha me pedindo pra avaliar uns “rabiscos sem compromisso” de parecença com os meus, contando causos aconticidos nestas nossas grotas antigas.

Li, de primeiro com senso crítico, como pedido, e, depois, em puro deleite tive de relê-los. Não devo e não posso reguardá-los nos baús fechados da memória do meu notebook. Assim, resolvi jogá-los pro mundo. A autora é Maria do Carmo Oliveira Halfeld. Não a conheço pessoalmente, sei que é autoditada. Nem se vai gostar da publicação. Não me pediu resguardo,então, confiram se não tenho razão:

As velhas cochichavam:

-Credincruiz. Difunto se rindo é coisa do Demo!

Pois naquele velório ninguém atinava o motivo do risinho indecoroso, assim mei de ladinho sob o bigode do Nicolau. Houvesse ali um astuto, adivinhava seu semblante de puro contentamento e deleite.

Abatida estava Manuela ao lado do marido Ludgero. Passaram a noite em claro, velando o corpo do boiadeiro Nicolau Simão. Noutro canto da sala, chapéu no peito, todo contido em si, se via Joãozinho sem coragem de olhar nos olhos dela. Aquele conluio era segredo que levaria para o túmulo.

Na cozinha, as comadres diziam:

-Tadinha da Maneca, num é pra menos ficá abobada assim, o danado do home vei morrê aqui nessa sala. Dissero que tava isperano o Ludgero chegá do sirviço pra modi negociar umas cabeça de gado, quando istribuchô e caiu morto. Num fosse o Joãozin ta pru perto…

Ensimesmada Manuela lembrava como viera parar ali. Caso u novinha para cumprir gosto do pai, com Ludgero, fazendeiro viúvo sem filhos e já bem erado. Não gostou nem desgostou. Não fora criada para escolher marido. O começo foi tudo novidade. A fazenda tinha terra que não acabava mais, muito gado e plantação. Com o passar dos anos ela se viu como um enfeite da casa; uma propriedade do marido ciumento.

Quando entrava na cozinha onde reinava a velha Sinhana preta só ouvia:

-Sinhô Lugero falô qui num quê muié dele isquentano barriga no fugão e isfriano na bica, não.

Queria cuidar do jardim, mas aquele rapazinho acanhado lhe tirava das mãos as ferramentas:

– Patrão num qué a sinhora quemano nesse solão, sô Lugero falô pra modi eu num dexá, não. Iissu é sirviço meu.

Dezembros e janeiros e a chuva a malhar no telhado por dias a fio. O tempo se arrastava naquele fim de mundo. Debruçada na janela ela avistava o cafezal, onde as pessoas pareciam formigas trabalhando. Via Joãozinho a cuidar dos arredores da casa, era peão de confiança do seu marido, parecia que tava ali dia todo vigiando, contando seus passos, ou era só cisma sua?

Um dia, cedinho, depois que Ludgero saiu a campear um boi sumido, Manuela botou vestido novo que tinha dois botões teimosos em morar fora da casa revelando um tiquinho dos seus guardados e se abeirou do curral. Toda prosa trepou na cerca, caneco na mão; pediu que Joãzinho lhe desse leite da formosa, a melhor vaca do curral.

O peão encabulado, rosto amoitado no chapéu de palha, custou a lhe cumprir a ordem. Foi nesse dia que Joãozinho sentiu num leve roçar de dedos o calor da mão dela. Escabreado, afastou depressa a sua. Aquilo foi brasa a lhe queimar mão, braço e todo corpo. Daí por diante madrugava para que a patroa não o achasse mais no curral, deixava cedinho o balde cheio na cozinha com a Sinhana preta e sumia no mundo a caçar serviço longe das vistas dela.

O fim do sossego de Joãozinho foi quando o boiadeiro Nicolau Simão danou a rodear a casa depois que o patrão saía. Piorou quando o viu entrando para um café a convite de dona Manuela, que se animou por demais com aquelas visitas. João perdia noites de sono cismando: O que fazê? Falá das visita ao Sô Ludgero? Não, isso nunca! Ele dava cabo da vida dela. E se ela num devesse? Ele ia morrê de remorso.

De mãos atadas viu o outro se adonar aos poucos das horas ociosas da mulher do patrão, que se estendiam tarde adentro sempre que ele não estava em casa. Criando coragem foi indagar a Sinhana preta na esperança de ouvir alguma coisa que o tirasse daquele desatino. Em vão; ela deu de ombros, pois estava com pressa a cozinhar uma canjica para o Sô Nicolar a mando da patroa. Aconteceu numa tarde quando nem os passarinhos cantavam. Joãozinho ouviu um berreiro vindo da casa, largou a enxada no chão e correu para acudir. Entrou às pressas sem bater pra donde vinha o choro da patroa.

O que se passou naquele quarto o atormentou pela vida afora: Viu esparramado na cama, o corpo gordo e nu do boiadeiro, na mesinha um prato com vestígios de canjica. Olhou ao redor; lá estava ela como veio ao mundo. Por respeito, pelejou pra não olhar, mas suas vistas não obedeceram. No desespero Manuela não tivera pudor de cobrir-se. Seus olhos se cruzaram e falaram por si. Sentindo ciúme, vergonha e medo, João começou a ajuntar rapidamente as tralhas do morto. O tempo urgia. Tinham muita coisa a fazer…