Destaques Opinião

O clássico “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

21 de janeiro de 2021

No terreno das artes interpretativas, não há dúvidas de que o teatro sempre ocupou lugar de absoluto relevo. Estar ali no palco para desempenhar papéis em contato direto com o público, sem as possibilidades de edição, exige mesmo talento, treinamento e entrega plenos.

Tive a oportunidade de assistir a algumas peças famosas anos atrás em São Paulo, dentre elas o clássico “Tio Vânia”, de Tcheckov, “Quando Nietzeche chorou”, adaptação da obra do psiquiatra Irving Yalom, e até “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, a adaptação do extraordinário romance de José Saramago. No final dos anos 90, eu havia acabado de ler o livro e estava muito empolgado com o texto e a interpretação de Saramago sobre a vida de Cristo. Naquela noite, ver Paulo Goulart e Maria Fernanda Cândido, ambos no auge da carreira, foi um privilégio.

A propósito, cá em Passos, tivemos, nos últimos tempos, o festival de teatro, que também nos trouxe ótimas opções. Infelizmente, a pandemia impediu o evento ao vivo em 2020. Em meio a tantas, relembro um extraordinário monólogo de apenas uma hora sobre “Dom Quixote”, em seus principais momentos, na tão histórica obra de Miguel de Cervantes.

De fato, Passos possui artistas e grupos que sempre marcaram presença no teatro, algo que, por certo, continuará mais forte assim que superarmos os atuais obstáculos de natureza sanitária. Dá saudade dos eventos públicos. Imenso o vazio da ausência. O teatro, então, mais do que nunca, por sua notória inteiração entre os atores e a plateia.

Tenho o livro há tempos e arrisquei avançar em sua leitura. Não é simples ler um texto totalmente em forma de diálogos, característica básica do gênero dramático. Há de se ir desvendando aos poucos o enredo, muitas vezes por meio de frases curtas ou meras palavras, que, a princípio, deixam o leitor no vácuo, para só fazerem sentido mais adiante.

Refiro-me à obra do título, “Cyrano de Bergerac”, e asseguro a quem não a conhece que a ideia que a norteia é absolutamente genial, daí a sua condição de clássico, admirada que será em qualquer época e lugar. Em sua essência, temos a exposição de certas características, que, vez ou outra, não existem, de forma conjunta, na mesma pessoa, a beleza física e a capacidade de expressão tanto verbal, quanto por escrito. São aqueles conhecidos casos em que o belo visual não se faz acompanhar da condição de se expressar com clareza, inteligência e elegância.

Tal é o que se dá no texto. Roxana é uma linda moça que se apaixona por Cristiano, outro belo moço. No entanto, ela nutria o desejo de que Cristiano pudesse encantá-la não só com sua beleza física, mas com palavras, capacidade que ele não possuía. Cristiano era muito pobre ao se exprimir. Surge então a célebre figura de Cyrano de Bergerac, um bravo e corajoso soldado de várias batalhas. Segundo comentários da edição, ele verdadeiramente existiu na França do século XVII. Um soldado e, ao mesmo tempo, um talentoso poeta daqueles tempos.

Na peça, que estreou em 1897, seu autor, o francês Edmond Rostand (1868-1918) – nascido em Marselha, formado em Direito, mas cuja carreira foi a literária -, utiliza então a vida de Cyrano de Bergerac para construir o enredo, tudo porque um jovem lhe pedira um conselho em busca da conquista de um amor. Para Rostand, em lição ao jovem, era preciso, além de conquistar o corpo da amada, seduzir-lhe a alma com palavras.

Por isso, no texto, Cyrano é primo e amigo de Roxana, de quem ouve as confissões de seu amor por Cristiano. Amigo também de Cristiano, ouve dele as confissões do mesmo sentimento por Roxana, no entanto, expõe-lhe aquelas dificuldades de expressá-lo a ela. Cyrano, o mestre em versos e no uso das palavras, mas um sujeito desprovido de atributos físicos por uma deformidade no nariz, se encarrega, pois, de fazer este papel oculto a Cristiano: escreveria as cartas amorosas para Roxana como se ele, Cristiano, o tivesse feito.

A surpresa é que Cyrano nutria, do mesmo modo e às ocultas, antigo amor por Roxana, entretanto jamais descumpriria seu compromisso de ajudar o amigo a conquistá-la em definitivo. São excepcionais os diálogos entre os dois para realizarem o pacto. Ao ritmo de versos enfáticos ambos se diziam um ao outro:

Cyrano: “É pena! Se eu tivesse por intérprete meu todo esse belo corpo…
Cristiano: “Se eu tivesse eloquência e frases…

Em suma, a falta de boa aparência de Cyrano era compensada por seu talento na escrita, além de seus fortes traços de retidão e bravura nas batalhas da época. Sua verdade era expressar-se em verbos e atos, o que fazia sempre em auxílio aos oprimidos nas atitudes contra a hipocrisia, o engodo e a exploração. Sob outras análises, ele é equiparado a Dom Quixote, exceto, claro, nas estocadas de delírio do clássico personagem de Cervantes. Diga-se que Cyrano se assemelha a Quixote na busca da justiça, dos princípios, mas não nos traços de loucura.

Nem quando Roxana soube, mais tarde, que ele era o autor das belas cartas e, assim, viesse a se encantar pela descoberta e desejá-lo, o fez desistir da lealdade para com o amigo Cristiano. Sua sina era resignar-se por seu destino de ser exclusivamente uma voz em nome da verdade, mesmo que tal conduta o levasse ao sofrimento. No caso das cartas, não apenas a verdade do amor de Cristiano, mas o que ele mesmo sentia por Roxana, revelado pelo que escrevia em nome do outro. Espécie de amor platônico.

A minha vida era aquilo: ficar tristonho e só na sombra merencória (melancólica) e ver o outro colher o beijo da vitória.” (pág. 325) Os desencontros entre beleza física e capacidade verbal representam o sustento dessa peça extraordinária, em que o fervor das palavras e dos ideais de Cyrano sustentam todo o texto e ultrapassam a conquista de amores. Estamos diante de mais um personagem eterno, com um vasto campo de mensagens ricas e profundas. A conferir.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna.