Destaques Opinião

O clássico “Ana Karenina”, de Tolstói

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

7 de janeiro de 2021

m um aqui publicado no já longínquo 20 de abril de 2001. Só tenho a página escrita. Guardo todas em que escrevi. Considero-as relíquias. Escrever significa impulso à memória e à história pessoal, um ato religioso que se transforma em necessidade. Creio que este estava em um velho computador de que me desfiz naqueles tempos e, por um lapso qualquer, não fiz a devida transposição para outro.

No início, eu expunha que tinha sido levado à primeira experiência com Tolstói justo porque já era fã de seu conterrâneo Dostoiévski. E fui muito feliz em optar então por um de seus clássicos, “Ana Karenina“. Republico-o, pois, nos parágrafos abaixo, com as adaptações que julgo pertinentes, de modo a tornar o texto mais ágil e sob a constante busca do máximo de clareza. De fato, releituras quase sempre impõem alterações.

De início, é possível notar, em tal obra, que suas personagens são também complexas e exploradas ao máximo no âmbito de suas trajetórias. Os russos, em geral, são mestres nisso. Percebe-se que o aprofundamento das descrições e dos fatos paralelos ao núcleo central da narrativa atuam até como intervalos necessários à respiração do leitor, uma vez que se trata de um romance repleto de impactos.

Uma palavra adquire contornos simbólicos para justificar as tormentas por que passa a protagonista: adultério. Também presente em outros clássicos, o tema é sempre sedutor. Por certo, o fato de a obra relatar circunstâncias de uma sociedade do século XIX vem turbinado por todos preconceitos e gravidades típicas daquela época.

Embora estejamos em outro momento e valores, as controvérsias sobre o adultério ou infidelidade, termo mais atual, talvez jamais mudem. Quais os principais motivos que nos levam a cometê-lo? Seriam motivos tão óbvios assim? E o que dizer dos constantes riscos de conflitos a que estamos sujeitos quando prosseguimos em relações adúlteras ou infiéis? Onde nos situamos entre os ardentes clamores do desejo por outra pessoa e as obrigações morais, sociais e religiosas próprias, por exemplo, do casamento?

São estas apenas algumas das indagações que subjazem ao tema e à leitura desse fenomenal romance. O leitor acaba imerso. Na realidade, a obra requer o mergulho nos labirintos das relações que apresenta. Em meio, portanto, a um belíssimo panorama daquela Rússia dos czares, pode-se dizer que este calhamaço de mais de 800 páginas transita pelo adultério cometido pela aristocrata Ana Karenina com o corajoso e renomado militar Vronski, logo ela, tão bem casada aos olhos da sociedade. Diga-se que Vronski também integrava a alta sociedade de São Petersburgo. O episódio é levado às últimas consequências.

Enquanto, porém, transcorre o problemático amor entre Karenina e Vronski, vale destacar a presença de Constantino Liêvin, que com ambos se relaciona de uma forma ou outra e toma conhecimento da paixão que lhes ocorria. Liêvin, o trabalhador incansável, que refletia sobre a real situação do pequeno lavrador russo e as grandes questões religiosas a respeito da Igreja, inclusive as dúvidas que ele nutria da crença em Deus.

Tal personagem talvez represente a própria face de Tolstói, que exerceu questionamentos da mesma natureza em seu transcurso de vida. O Tolstói guerreiro, o jovem inquieto em termos políticos, o juiz de paz a quem incumbia solucionar conflitos entre proprietários e populares, o pensador que sentia a urgente necessidade de fazer algo pela Rússia e por seu povo mais desprovido, o homem preocupado com a educação e que fundou, em suas terras, uma escola para crianças e adultos pobres.

Apoteóticas as páginas em que Liêvin procura o real sentido da existência ao adentrar o terreno da fé, da prática do bem e da crença em Deus, tudo em busca de solucionar as suas dúvidas e seguir um percurso espiritual definitivo. Nesse sentido, cabe dividir o enredo em dois grandes polos: o amor adúltero de Ana e Vronski e os dramas existenciais de Constantino Liêvin.

Claro que muitas considerações se tornam plausíveis sobre romance tão grandioso. Mas sua leitura nos faz envoltos no âmago de questões essencialmente humanas. As personagens que desfilam por suas páginas, embora pertencentes a outro século e seus respectivos valores e influências, parecem nutrir todas as complexidades que sempre pertenceram a nosso íntimo, sem as delimitações de tempo e espaço.

Não há, assim, lugar para maniqueísmos, ou seja, estamos perante seres que não são totalmente bons, nem maus em sua inteireza. Estão apenas circunscritos às diferentes possibilidades de agir e reagir em virtude do que a vida lhes proporciona. Com acertos, erros, alegria, sofrimento. Bom, o restante deve ficar a cargo de quem se dispuser ao caminho da persistência e da sensibilidade de se aventurar pelo que nos propicia Tolstói nesta criação plena de hipocrisia das aparências, inveja, fé, fidelidade, família, casamento, sociedade, progresso e paixões.

Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.” (primeira e célebre frase da obra). “Aliás, só as preocupações múltiplas durante o dia e as doses frequentes de morfina durante a noite eram capazes de amortecer o medonho pensamento que a torturava: um dia, talvez, Vronski viesse a deixar de amá-la, e então o que seria de si?” (pág. 214)

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna