Destaques Dia a Dia

O bolo de ervas

POR RAFAELA DE OLIVEIRA FARIA

6 de novembro de 2020

Há muito tempo, havia na região da Canastra uma família em condições financeiras nada boas. A mãe trabalhava no serviço doméstico e cuidava dos filhos; o pai quase não ficava em casa, pois trabalhava em uma fazenda, voltava para casa quando havia um dia especial, ou para levar alguma coisa nova para a família. Com isso, deixava sua mulher sozinha com os nove filhos. Um dia, os pais, conversando, viram uma necessidade muito grande de a mãe ir trabalhar fora.

Dialogando com seus filhos, decidiram escolher um deles para ficar responsável pela casa e pelos irmãos, quando os pais não estivessem presentes. Então, foi escolhida a menina Ana. Ela era a única que sabia cuidar de tudo, desde cozinhar a lavar roupas, além de ser a filha mais velha. Foi eleita pelos pais como a “responsável da casa”. Alguns dos irmãos não gostaram muito da ideia, pois ela era muito mandona, rígida e brava com eles, mas concordaram quietos e calados, para não levarem bronca depois.

O primeiro dia cuidando da casa foi muito bom. Os irmãos gostaram muito de passar o dia com ela cuidando deles, e vice-versa. Adoraram, principalmente, os pratos que ela cozinhava na hora do almoço. Mas isso durou pouco, porque a cada dia que passava, mais brava com eles, ela ficava. E nem sempre tudo dá certo: depois de muito tempo cuidando sozinha da casa e dos irmãos, Ana já estava muito cansada. Não achava justa a vida que tinha. Não queria mais ficar sofrendo pela vida e pela situação em que vivia.

Então, um dia, resolveu fazer um lanche da tarde para todos os irmãos. Para esse lanche, ela foi ao campo e colheu várias ervas. Depois colocou no pilão: torresmo caseiro, farinha de milho torrada, temperos e finalizou com as folhas das ervas torradas. Misturou todos os ingredientes e socou bastante no pilão, até virar uma farofa de cheiro bem agradável. Colocou nos pratos e reuniu todos os irmãos em torno da grande mesa da cozinha. Todos teriam que experimentar a nova receita, inclusive ela.

Ana e todos os seus irmãos comeram, e na verdade até pediram mais daquela farofa. O que ninguém sabia era que Ana havia colocado ervas venenosas na receita, acreditando que assim, daria fim ao seu sofrimento e ao de todos na casa. Pela vontade dela, todos iriam morrer, pois ela já estava farta daquela vida de dificuldades.

Pouco tempo depois, sua mãe chegou do trabalho e percebeu que todos os filhos, inclusive Ana, estavam empolados, com febre e com as bocas muito inchadas. Desesperada, perguntou o que havia acontecido. Ninguém falava nada, nem contava que a irmã mais velha havia feito um “lanche da tarde” para eles comerem. Ela ameaçou: quem contasse a verdade, ia apanhar depois da confissão, e eles tinham muito medo dela e a respeitavam muito.

A mãe, cansada de perguntar, ameaçou castigar cada um deles. Com isso, o filho mais novo resolveu confessar o que tinha acontecido. Foram todos levados para o hospital da cidade vizinha e tratados. Felizmente, as ervas não tinham poder letal e todos se salvaram. Não contarei os nomes reais da história, pois “Ana” pode vir acertar contas comigo!

Esta e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br