Destaques Dia a Dia

O Boi é Manso!

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

25 de novembro de 2020

Domingo pela manhã tentei concatenar as ideias de alguns detalhes dos muitos circos que assisti lá nos tempos de minha infância em nossa cidade de Passos. O dia de estreia de um circo era sempre uma festa pelas ruas de nossa cidade! Todo o elenco em passeata desfilava em carros abertos, a banda tocando, palhaços se equilibrando em pernas de pau, anões plantando bananeiras, malabaristas com argolas e garrafas, cavalos enfeitados com acrobatas se equilibrando de pé sobre suas selas.

Traziam muitos bichos para chamar a atenção, dentro de jaulas: urso, leão, tigre, elefante, camelo, zebra, girafa, macacos, e a meninada sempre numa alegria alucinada acompanhando de perto. E ficávamos na pressa do toque da campainha do 1º, 2º e 3º sinal e de olho na cortina ser aberta para o espetáculo começar. Havia cadeiras e camarotes, mas o povão preferia mesmo era sentar nas arquibancadas de madeira, o que era um tormento para as mulheres que não sabiam se olhavam o picadeiro ou se protegiam a calcinha dos olhares dos homens sentados mais abaixo! (Ainda era pouco o uso de calça comprida para mulheres).

Para a alegria da criançada e dos adultos, os palhaços que se apresentavam com casaco de retalhos colorida, pintura no rosto, sapatos de bico grande, além das brincadeiras no picadeiro abusavam dos palavrões. Em minha memória de menino encontro o palhaço no picadeiro sentado com uma moça, vira para a plateia e, de costas para a namorada, faz uma declaração de amor: “Eu te amo, eu te adoro eu te venero”.

Ela sai, e em seu lugar senta uma caveira, e o palhaço continua “agora vou dar um beijo na moça mais bonita do mundo.” Vira e beija a caveira! E em outra cena, outro palhaço, bem barrigudo, ao tomar uma tapa na barriga, soltava um pum bem alto, saindo uma enorme nuvem de talco pelos ares, fazendo o circo vir a baixo de tantas risadas! Outro palhaço deixava a calça arriar, mostrando a ceroula listrada, e com a cara de espanto, fingia não perceber, e a mulherada até chorava de tanto rir! Havia também os famosos circos de touradas, onde os toureiros com suas capas vermelhas criavam um momento de tensão no público. Eles se ajoelhavam, esperavam o touro, e, no exato momento, davam um salto mortal caindo entre os chifres do animal.

Certa vez, aportou-se na Barrinha um circo de tourada que tinha famosos toureiros como: Luis Belo, Andorinha, Bem-te-vi, Asa Branca e uma toureira de nome Florisbela. E lá num certo dia surgiu a notícia que estes toureiros iam tourear um famoso boi, temido pelos toureiros. Era um boi grande, preto, com uma cruz branca na testa, chamado de Formado, ali da região da cidade de Itaú da fazenda do Senhor Gasparino Andrade. Cercado de muita expectativa, finalmente chegou o dia em que aqueles toureiros teriam a chance de, frente a frente tentar tourear e dominar aquele famoso boi. Aquela noite foi uma loucura tamanha multidão, o circo ficou repleto.

O boi foi anunciado, entrou na arena escavando o chão cheio de palha de arroz, bufando, com os olhos injetados de fúria e ódio, avançou com toda força, como um furacão rumo à plateia, chocando com a cerca da arena. A luz apagou com a batida. Os toureiros foram os primeiros a sumirem do picadeiro. O povo se desesperou num corre-corre, num tumulto geral! Conta-se que nesta noite um fazendeiro conhecido na cidade, foi ao circo.

Usava calças muito largas e ao sentar na arquibancada, a tábua estava rachada e com o peso das pessoas foi se abrindo ao meio e o badalo desse senhor desceu no vão da tábua, devido sua calça larga e ele nem percebeu. Na hora do estouro do boi o povo levantou e o buraco da madeira fechou, e o badalo do homem ficou preso no meio da tábua. “Vamos sentar gente, o boi é manso!” Ficou gritando este senhor, na esperança de que as pessoas se assentassem, a madeira pudesse se abrir para que ele fosse liberado da “mordida” da tábua! E assim, muitos foram os circos que passaram por Passos, e muitos casos e histórias assim certamente ainda temos para contar. É o tempo passando e a gente “Memoriando”!