Destaques Dia a Dia

O barbudo da estrada

POR ADELMO SOARES LEONEL

5 de dezembro de 2020

No resgate a personagens pitorescos da querida Capitólio, revivemos na crônica de hoje as histórias do Dominguinho do Pinheiro, lembradas com carinho pelos antigos, em especial seu filho afetuosamente chamado de Tio Pedro, responsável pela oficialização dos casórios da região. Pois bem, o velho Domingos foi um dos motivos mais frequentes dos meus pesadelos de infância, tal o seu aspecto que eu, afeito a crenças em assombração e lobisomem, associava à sua longa barba branca entremeada com listras acinzentadas, dançando ao vento numa coreografia fantasmagórica.

Nas férias passadas na fazenda Ponte Alta, do saudoso vovô Waldemar , certa vez, levei o maior susto da vida, quando, de tardinha, ao som iniciante dos bichos noturnos, procurando ovos nos ninhos distantes da sede, topei, num repente sinistro, com a figura do Dominguinho, alto, calças de brim amarrada na cintura, camisa quadriculada, chapéu descaido sombreando os olhos, a barba esvoaçante e um saco ameaçador jogado na cacunda, empoeirado, terrível. Engoli o fôlego, olhos arregalados e caí prá trás, despedindo-me do mundo, tão garotinho ainda, entregue, subjugado à sorte cruel.

-Ô menino. Levanta daí. Inté parece que ocê tá vendo assombração!

Desabalei num salto em recordosa carreira até a saia de minha mãe, incapaz de relatar o ocorrido, tremendo e sem voz, até me esconder sob a cama grande do quarto do fundo. Dali a pouco, chega o Dominguinho, receoso do que poderia ter-me acontecido e meu avô cai na risada:

-Nada não, sô Domingos. Esse meu neto é muito impressionado.

Apesar do aspecto, ele era um filósofo andarilho que nunca subia num cavalo ou na jardineira. Negava oferecimentos de carona. Preferia andar, sempre descalço, não importando o número de léguas, solitário, a deliciar-se com a exuberância da natureza pródiga, qual um caminheiro de Rousseau.

Brincalhão, constantemente alegre, podia-se contar nos dedos as ocasiões nas quais ele perdeu as estribeiras.
Numa dessas, voltava de uma longa jornada, cansado, aborrecido com uma chuva que o pegara desprevenido, encharcando-o todo, já chegando em Capitólio, encontra o tio Zé da Mata vindo em direção contrária, trotando num burro.

-Aí, Dominguinho! Arrumou um cavalo bonito, hein!

O trôco veio na bistunta. Deu fungada nervosa, uma sungada na calça e disparou:

-Uai, Zé! Num tá vendo que hoje eu tô muntado é numa égua e… falando cum uma besta?

E seguiu, arrastando as grossas solas dos pés pela estrada enlameada.

Nunca fiquei sabendo de outra brabeza dessa.

Manteve o bom humor quando, numa cópia fiel do apóstolo, ele representou, em trajes adequados, o São Pedro, segurando, orgulhoso e sorridente, uma enorme chave da portaria do céu e, mesmo no leito do qual não se levantaria mais, a jovialidade animava os parentes e visitantes.

Numa das crises finais da doença, mandam chamar o dr. José Reis que, em cinco minutos, como de costume neste grande médico, vem com sua maletinha milagrosa, atendê-lo.

-Bom dia, seu Domingos! Vamos dar um jeito de sarar e levantar dessa cama? O senhor tá novo e ainda longe de morrer!

-Tô nada, dotô. Aliás esse trem de morte num me assusta. O que me contraria é sê carregado. Eu prifiria i a pé pro cimitério.

E o doutor o examina, apalpa daqui, apalpa dali, tira a pressão, enfia o termômetro no sovaco.

-Tá urinando direitinho, sô Domingos?

– Umas mijadinha pôca, doutô.

-E vontade de vomitar? Tem tido?

O Dominguinho, soltando sua verve jocosa, provoca risos nos presentes:

-Tem me dado umas ânsia. Mas vontade de vumitá mémo eu nunca tive. Todas as veiz qui eu vumitei foi contra minha vontade!!!