Destaques Dia a Dia

O ardor da paixão

4 de julho de 2020

Montou casa no detrás da matinha velha, a um beiço de lonjura da sede principal da fazenda e alo- jamento dos solteiros. Sim- ples, verdade, pau-a-pique e adobe, fazendo três cô- modos cobertos por telhas nuas em vigama de peroba. Ali o Eusápio que nem bem nascera, virou Zapinho, se instalou com a Norfinha, de oficial casados no vigá- rio e no papel passado, na intenção de vida toda, se afelizar e formar família, de preferência um monte de chibius relientos e sau- dáveis como o pai e mari- quinhas lindas puxando prá mãe.

Belezura mesmo de mulher, na cor roxinha de cabocla meiíndia, cabelos lisos compridos amoldu- rando um rosto adonde se destacavam dois baitas olhos verdes, verdinhos que nem pedras escalavra- das de esmeralda ofuscando no sol, tornozelos e pernas torneados, cinturinha de formiga…

E o Zapinho orgulhoso, prestimoso, se adonando daquilo tudo e caindo de pau na labuta de zelar pela vacaria do patrão, dar conta de sustentar a Norfinha e poder arranjar a penca de filho programada.

Pulava da cama antes do galo zoar o canto e sumia pro curral e pros campos, amuntado no cavalinho esperto e obe- diente, coisa dele, de estima funda até o sol principiar a perder o calor prá brisa fresca da tardinha. Regres- sava serelepe, com fome de comida e da bôca também esfomeada da roxinha. Não carecia de fazer o que era de precisão prá amojar ela, mas nada de parar as regras de mês e arredondar o bucho, envergonhando o Zapinho na frente da com- panheirada – “vai que é ele
que num dá no couro!

Daí a esticar o proseio de maledícias, uma titiqui- nha de mosquito:

“- Disperdício de muié. Uma princesa em casa…”

“- Cumé qui pode? Uma novilha daquela no cio e sem cobertura!”

“- Ah, se fôsse eu!”

“- Num demora e bamo tê de mochar o Zapinho!”

O falatório açulou a co- biça do capataz, sujeito me- tido a virador de cabeça das moçoilas, frequentador cer- to das casas malfamadas da cidade mas que não fincava estaca de assossêgo com mulher nenhuma, só nas aventuranças passageiras e sem compromisso. Simeão se chamava o pagodeiro que virou as fuças prás bandas da casa da Norfinha, dando acaso de passar ali muitas vezes na semana e sempre nos prazos de ausência do Zapinho.

De início, um “Ô de casa! “ e “B’as tarde” sem desamuntar, de segunda a requerência duma caneca dágua ainda sem apêio, de terceira já no chão na desculpa de apertar a barrigueira frouxa no animal, noutra o elogio ao viçoso dos canteiro de ver- dura, ao viço das roseiras carregadas de colorimento, ao vestido cuja singeleza só realçava a formosura da dona, ao viço da própria. Resistente às primeiras indiretas e pavoneios do ca- pataz, aos poucos foi se de- samuando, até que um dia, ela desamarrou o brilho esverdeado dos olhos, nem ligou prá alça do vestido escorregando braço abaixo, revelando o moreno de um seio insolente e atrevido…

O horário não permite êsses assuntos. Sábado que vem, mais tarde, o leitor poderá acompanhar os fi- nalmen