Destaques Opinião

O Anjo da Praça

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

10 de agosto de 2020

E eu buscando como ponto de apoio o juízo. Juízo de que tanto falava minha mãe nos momentos da boa educação no lar. Bastava pôr o pé na rua, depois da benção concedida, lá vinha o tradicional “juízo, filho!”

O ato da promessa maternal se fazia no cumprimento das primeiras lições. E a vida seguia sua marcha nas esteiras de um tempo a ser ocupado e preenchido nos espaços infinitesimais. E entrava fundo na alma, na extensão do juízo preestabelecido, obviamente precedido da natural preocupação do ato praticado. No caso, tinha o sentido de tomar os devidos cuidados. Aplicar o tino, a perspicácia, a agudeza de espirito. Bonito de ser ver e ouvir em uma ou outra ocasião. Não se faz revelar muito por aí.

A verdade é que mais do que antes, continuo fugindo dos problemas, estribando-me no ensinamento pétreo de minha mãe Julica. Em especial, quanto à guarda do fazer cuidado no distanciamento do perigo iminente. E não só isso. Procuro andar na linha, na retidão, evitando ao máximo os conflitos externos e internos, sejam de qualquer natureza.

E mesmo agindo assim, fazendo das tripas coração para não ter amolação, não fico isento de aborrecimento. Os problemas acontecem ao arrepio da vontade. Desde quando acordo, depois de orações feitas, até quando à cama volto lá pelas tantas, é a mesma coisa. Seja por um simples incidente ou até mesmo em decorrência de um acidente.

O primeiro costuma acontecer de forma inesperada e menos gravosa, menos contundente. Os mais chiques com o idioma costumam dizer: casos fortuitos. Há quem sustente ser caso fortuito o que muitos classificam como força maior. São expressões parecidas no sentido. No inesperado, o fortuito se pronuncia na observância do ditongo decrescente ‘ui’. Cuidado, pois, no exemplo.

Uma viagem inesperada para acudir um parente ou amigo é um incidente. Uma avaria no dente. Um pneu furado no carro de forma inesperada é um incidente. De incidentes estou pelas tampas.
Já o segundo [acidente] pode sobrevir de maneira drástica, violenta. Você abre a porta do carro, de repente, uma moto aparece e a colisão acontece. Estraga-se também o dia. Discussões inócuas. Mesmo atraindo a culpa e se propondo à prestação de socorro, caso seja útil, pagar o dano causado, que esperança! Condutor e garupeira querem discutir, chamar a polícia etc.

Mesmo com a explicação de que para os acidentes sem vítima é desnecessária a presença da Polícia Militar e da Civil, não largam o celular. Tentam comunicar o comando policial e ouvir o que hoje se pratica: sem vítima, sem polícia! O que é perigoso. Não importa. Tanto um quanto o outro incomodam. Não é à toa que carregam consigo a pecha de incidente e acidente. Ambos são desagradáveis.

Afora o poder de escolha de cada um, simples decisões de caráter pessoal, como a fazer ou deixar de fazer determinada coisa, uma simples caminhada, por exemplo, outras de somenos importância no mundo de não tanto excesso de zelo. Outros casos requerem profundas reflexões, quando não sorte.

Thomas Jefferson tinha sua opinião sobre a sorte. Segundo um dos autores da Declaração de Independência dos Estados Unidos, o terceiro na linha de presidentes dos EUA, dizia acreditar na sorte, sim. Mas, em seguida, acrescentava: “quanto mais duro eu trabalho mais eu tenho sorte”.
Infelizmente, para o ‘Anjo da Praça’ a sorte não lhe sorriu. Dado a distribuir sorrisos e galanteios sacramentados na pureza a tantos quantos que por ele passam. Simples morador de rua. Depara-se, então, com a bestialidade humana.

Bem diferente de sua alma voltada às estrelas pacíficas do firmamento, suas vizinhas e companheiras de noites, não raro secas e frias, elas mais ornam e enfeitam do que incomodam, ousam tirar-lhe o brilho da pureza. Ao tentar distribuir costumeiros elogios à moçoila passante, o desavisado besta-fera acompanhante não logra entender o espírito da suavidade da benesse e parte para a violência. Triste episódio para ser relatado no Dia dos Pais. O zelo se fizera no excesso, na truculência, na deformidade do famigerado ‘prendo e arrebento’, de péssima lembrança de João.

O silencio de um inocente, na decorrência, fala mais alto em nome de um povo feito e afeito à coragem do que é preciso para se viver bem. O homem puro de afeto e de coração se propõe e consegue superar o sofrimento através do indestrutível otimismo e fé. Cães periféricos de ruas, praças e avenidas com certeza o ajudam na empreitada. A horrenda criatura da selva, quando não das trevas, pobre coitado! Há de carregar na consciência – se o tiver em pouca monta que seja – o peso do martírio da insolência desferida.

Nos tempos em que a pavorosa Covid-19 causada pelo coronavírus continua se espalhando mundo afora – cem mil óbitos superados no Brasil – a pergunta: no comparativo do terror, o que de mais catastrófico em ambos os casos, o vírus da pandemia ou a virulência do ódio do insensato na praça da liberdade e da poesia? No douramento da pílula e à resposta, uma instada e não insistida moedinha para quem o souber. A expressão ‘Flor do Dia’ estabelece-se no encanto do encontro.

Entre incidentes e acidentes, é preciso, antes, avaliar os impactos da vida e romper o silêncio quando preciso for. A prática da promessa do juízo nem sempre se faz valer. No caso do Anjo da Praça, os companheiros cães hão de ladrar (não morder) pelo prazenteiro amigo. Essa a diferença de luzes que povoam e incendeiam o espírito dos homens de boa vontade e os desprovidos da graça de viver. O que fica é um ressaibo amargo. Um ranço. Por que tentar mudar a razão das estrelas? Não vão jamais conseguir!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna