Destaques Opinião

O amparo da literatura

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

1 de outubro de 2020

São tempos árduos. Desde meados de março, vivemos uma das maiores, se não a maior crise da nossa história. Nunca aderi à profecia do apocalipse que a tantos atrai, mas os efeitos do colapso, ao que tudo indica, devem se prolongar pelos próximos anos, até que encontremos algum vão de saída que nos possibilite um caminhar menos movediço, menos sujeito às irritantes polarizações de lados opostos e, portanto, mais sólido.

Lembro-me de que, ao longo de mais de duas décadas, tenho feito da literatura uma aliada indispensável. Agora, mais ainda. A literatura sempre me trouxe algo de perene e profundo num universo repleto de circunstâncias muitas vezes passageiras que, parafraseando Magalhães Pinto, alteram-se ao sabor das nuvens, principalmente no universo dos poderes, uma vez sujeitos à costumeira profusão de interesses.

Dos inúmeros livros que adquiri no decorrer desses tempos, digo que consegui dar cabo de quase todos. Sempre há de faltar este ou aquele, claro, mas sempre nos será possível resgatar a leitura dos que não conseguimos ler. No momento, tento cumprir a lacuna com um dos ícones da literatura latino-americana, o peruano Mário Vargas Lhosa, que já foi contemplado com vários prémios, inclusive o Nobel em 2010.

Experimento “Batismo de fogo”, um longo romance escrito na década de 60 que obtive em antigas coleções de capa dura que vinham aos domingos nas bancas de jornais. Vargas Lhosa, que possui vasta carreira literária, nos oferece, nesta obra, um grande panorama da educação e dos valores peruanos naquela época, ao valer-se de jovens estudantes numa rigorosa instituição de ensino militar. No seio da suposta ordem estabelecida, não faltavam os dribles da irreverência e indisciplina dos alunos.

Acrescente-se que o autor chega a ridicularizar a tal instituição, inclusive os militares que a comandavam. Sobram aparências de uma educação que, na verdade, sucumbia à conduta falha de seus instrutores e às maluquices dos jovens que lá cumpriam o internato. Sob diferentes vozes narrativas, algo bem frequente na literatura, restam intrigantes histórias de vida. Lhosa confirma, assim, a densidade da literatura dos nossos vizinhos. Há pouco abordei aqui um gigante como Gabriel Garcia Márquez. Ao fazer descrições de Lima, com suas longas avenidas, praças, casarões e um característico penhasco à beira mar, Vargas Lhosa me faz voltar a seus detalhes urbanos. Lima é uma cidade marcante. Tive o prazer de conhecê-la em 2013.

Em minha fila de espera, ainda devo, em meio a outros, dois romances consagrados, “O morro dos ventos uivantes”, da britânica Emily Bronte, e “Guerra e Paz”, de Tostói, que possui dois imensos volumes que beiram a mais de 1.200 páginas. Enquanto escrevo este texto, dirijo o olhar à estante e vejo os volumes diante de mim. Eu os vejo, eles me veem, eis a dúvida. Livros falam por si próprios. Adquiri “Guerra e Paz” nos idos 90 na antiga “Livraria Independência”, no centro de Ribeirão Preto. Eu costumava passar horas ali. A “Independência” hoje integra, infelizmente, as estatísticas das livrarias que não mais existem. Pobre país, que lê tão pouco.

Nunca é excessivo reiterar que procurei um norte para tentar evoluir para mais autores. Já o disse e repito que Machado de Assis foi a fonte. Machado me levou aos russos, aos franceses, aos portugueses, a outros brasileiros e assim por diante. Nunca foi fácil lê-lo durante aqueles anos colegiais. Parece mesmo que passamos a reconhecer seu extraordinário talento somente quando adultos. Eis um aspecto para a observação dos projetos pedagógicos de leitura. Importante enfocá-lo para que os alunos não desistam. Na verdade, nossas políticas de inserção na leitura, em geral, precisam ser repensadas e fortalecidas.

Nessa toada, professores precisam ser, antes de tudo, leitores, sobretudo os da área de humanas. Já os municípios devem assumir suas responsabilidades e adotar políticas de estímulo aos livros ao gerir as escolas que estão sob seu comando. Cá em Passos, oportuno dizer, não se admitirão entraves nem retrocessos nos anos futuros em termos de educação e cultura.

Manter, por exemplo, as feiras literárias e incrementá-las significa, no mínimo, cumprir a lei em vigor. Alô, postulantes do Executivo e do Legislativo, não vendam ilusões, ao menos deem força ao que já existe. Pois bem, para efetivar o desígnio deste artigo quinzenal, então voltei a ele, Machado de Assis. Aquele mesmo e velho livrinho de bolso com seus contos consagrados, a antiga fonte. A melhor maneira de se introduzir Machado é por meio de seus contos. Estejam certos disso, pois representam um belo início para toda sua obra. São rápidos, uma média de aproximadamente 10 páginas para cada um.

Em tais narrativas, torna-se evidente todo o estilo e a criatividade machadianas. Não só o conteúdo, que se reveste de mistérios capazes de atrair o leitor, mas sua forma de escrever, com suas construções e vocabulário típicos, tudo aos ditames de sua fina sabedoria, com os impagáveis momentos recheados de observações sobre a conduta humana.
Desta vez, reli ‘Uns braços”, apenas 12 páginas. Não há como se desprender da busca do fim desde a primeira frase. Ali estão temas até comuns, como as primeiras e fortes paixões que acometem os adolescentes, com seus sonhos intensos, além das frustrações que costumam ocorrer nos casamentos tradicionais, tudo, porém, narrado com peculiar riqueza.

Entre o jovem de 15 anos Inácio e Severina, a esposa de Borges, o empregador de Inácio, em cuja casa residia o adolescente, há todo um mundo de fantasias crescentes. O detalhe é que em meados do século XIX, quando foi publicado, parecia bastar a Machado a simples exposição dos braços de uma mulher para se despertar os desejos, numa época em que já havia criações bem mais explícitas das circunstâncias do amor e do sexo.
No refinamento da escrita de Machado de Assis, nos é dado sentir que há todo um universo a ser explorado. Sob suas palavras, sempre emerge a eternidade da verdadeira literatura.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, ás quintas, nesta coluna.