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O amadurecimento de Alicia

3 de outubro de 2020

Alicia Keys lança disco mais pessoal e menos dançante. / Foto: Divulgação

Em janeiro passado, às vésperas de apresentar a 62ª edição do Grammy Awards, Alicia Keys anunciou o lançamento de seu sétimo álbum de estúdio. Previsto inicialmente para o dia 20 de março, Alicia (RCA Records) foi adiado primeiramente em razão da pandemia do novo coronavírus e, posteriormente, em virtude das manifestações do Black Lives Matter, movimento do qual a cantora é uma apoiadora obstinada. Com seis meses de “atraso”, o disco chegou às plataformas no último dia 18.
Nesse meio tempo, Alicia aproveitou para divulgá-lo. Das 15 faixas que compõem o disco, sete viraram single: Show me love (com Miguel), Time machine, Underdog, Good job, Perfect way to die, So done (com Khalid) e Love looks better.

Felizmente, essas não são as únicas músicas notáveis do trabalho. Introspectivo, sensual e com muitas notas de soul, ele revela a artista em sua melhor forma, explorando novas sonoridades e cheio de parcerias interessantes. Entre as já citadas, somam-se artistas como o músico inglês Sampha, autor do elogiado disco de estreia Process (2017). Parceiro de músicos como Drake e Kanye West, ele aparece na ótima 3 hour drive. Já a rapper estadunidense Tierra Whack, outro nome para se ficar de olho, exibe seu afiado flow em Me x 7. Ela estreou em 2018 com o disco Whack world, composto por 15 músicas que não passam de 1 minuto de duração cada uma.

Alicia também conta com a presença do músico africano Diamond Platnumz em Wasted energy, de levada reggae; da sueca Snoh Aalegra, em You save me; e da estadunidense Jill Scott, na música que leva o nome da convidada. Mas Alicia Keys também brilha sozinha. Truth without love, responsável por abrir o trabalho, traz a cantora renovando sua própria marca: voz e piano. Já Authors of forever, talvez a música mais pop do disco, mostra a cantora com total poder de sua voz. Em Gramercy park ela experimenta uma pegada folk especialmente melancólica e nostálgica. Nesse conjunto afinado de referências e sonoridades, Alicia Keys dá continuidade a algo que ela iniciou no disco Here (2016), demonstrando uma abordagem mais conceitual e atenta às novas tendências da música, como comprovam a lista de convidados e a sonoridade das faixas. No novo trabalho, ela dá um passo a mais e se desfaz da obrigação de lançar músicas dançantes, estacionando o álbum numa serenidade sincera para falar de amor em tempos tão obscuros.

Ao divulgar o disco, a cantora e compositora escreveu que ele ‘’tem tudo o que eu curto em termos de música e arte neste momento da minha vida’’. Na mesma nota, explicou que deu ao trabalho o nome Alicia porque ele ‘’traz tudo o que eu sou e já senti gravando em estúdio. Durante o processo de criação, me senti confortável com todas as minhas facetas. Espero que todos que ouvirem o álbum consigam senti-lo como a versão mais verdadeira de si mesmos’’, diz.

Esse discurso vai ao encontro ao que ela revelou em sua autobiografia, More myself – A journey, lançada em março passado. No livro, a artista relata seus difíceis anos de juventude em Hell’s Kitchen, bairro de Nova York. Naquela época, ela morava num apartamento de um quarto com sua mãe, solteira. ‘’Havia cafetões e prostitutas por toda parte. Havia aqueles cinemas com filmes pornográficos em todos os lugares. Por isso aprendi cedo como chamar o mínimo de atenção possível para mim’’, conta, no livro. Ela vestia roupas masculinas, evitava cores brilhantes e carregava uma faca para se defender.