Destaques Do Leitor

Nota de repúdio

25 de agosto de 2020

É função social de um veículo de comunicação de imprensa informar, entreter e educar. Esse tripé, aliás, estrutura tradicionalmente o próprio Jornalismo que tem a responsabilidade de noticiar o que for de interesse público, portanto, da sociedade. Essa mesma sociedade, por sua vez, espera de um Jornal e daqueles que se manifestam por meio dele que sejam éticos e, sobretudo, cumpram a Constituição Federal. Nenhum veículo de comunicação está acima da Constituição e ela veda a discriminação de raça, cor, gênero, religião, assim como assegura que a liberdade de expressão não transcenda alguns limites e se torne um discurso de estimulo ao ódio, à xenofobia, aos preconceitos e discriminações. Portanto, nos parece realmente preocupante que um veículo de comunicação como a Folha da Manhã, publicada em Passos, mas que tem uma abrangência regional, ofereça espaço para sujeitos que descumpram deliberadamente a nossa legislação vigente. É preciso, claro, lembrar que Jornalismo não é colunismo. São espaços distintos em um veículo de comunicação, mas socialmente esperamos de um e do outro, igualmente e no mínimo, bom senso. Faltou ambos ao senhor “ezio joele” e, por conseguinte, ao Jornal Folha da Manhã.

Nesse sentido, os cursos de Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda e Jornalismo da UEMG Passos vêm a público manifestar seu mais profundo repúdio e repulsa às palavras proferidas pelo senhor “ezio joele”, em um espaço que ocupa há muitos. Esta nota se refere especialmente à coluna de 10/08/2020, na qual esse senhor usou de palavras odientas e vomitativas para se referir à comunidade LGBTQI . Critica, o suposto jornalista, que propagandas de uma empresa de cosmético avançam, em sua concepção, a boa ordem moral da tradicional família brasileira, ao produzir uma peça de campanha em que um transgênero protagoniza a propaganda de Dia dos Pais. Ora, o cidadão de bem acima tem três concepções errôneas de base: primeiro, intuir sequer por um instante que a empresa de capital aberto nacional e estrangeiro e uma das maiores em desmatamento está mesmo se engajando em algum tipo de campanha inclusiva, de igualitarismo de relações sociais, de garantia e proteção aos espaços da sociedade, por exemplo, dos sujeitos pertencentes à comunidade LGBTQI. A empresa nada faz por essas pessoas, ao contrário, se apropria delas e lucram, transformando-as em mais uma peça da engrenagem de destruir pessoas. Sobre isso basta se perguntar: onde está essa empresa de cosméticos e qual sua posição diante dos altos índices de assassinato de pessoas trans no Brasil?

A segunda errônea concepção deste sujeito é de a que suas palavras possuem algum tipo relevância ou reverberação. Elas são ração para gado. Tão simples quanto isso. Valor jornalístico e humanístico zero. Aliás, cabe aqui uma importante ressalva: o papel do jornal. Estamos ansiosamente aguardando uma posição editorial.

A terceira é a de supor que esse tipo de discurso abertamente preconceituoso será tolerado pelas comunidades engajadas atualmente. A resistência veio e continuará a vir de todos os espaços possíveis. Cada ato e palavra de repúdio a este tipo de atitude será reverberado e terá efeitos bastante significativos em nossa luta contra essas formas preconceituosas de manifestação.

Por fim, vivemos em outros tempos. O jornal Folha da Manhã precisa, necessariamente, ser plural. Oferecer guarita para pessoas que, sem escrúpulos, se valem de um espaço socialmente reconhecido para, e nada além disso, expressar os seus preconceitos pessoais e provocar celeuma é ultrajante. O curso de Jornalismo em específico clama para que os meios de comunicação locais e, em especial o maior jornal impresso da região, se torne um espaço democrático, representativo e informativo. Nada que não assegure esses valores pode ser considerado Jornalismo. Todo o resto é panfletismo vulgar e símbolo de decadência.

Samuel Ponsoni; Jean Carllo de Souza Silva; Frederico Daia Firmiano; C.A. Vladimir Herzog; CA. SOPPRO; Diego Desimoni Vasconcelos; Saulo José Silva da Silveira; André Silveira Guéli; Bárbara Oliveira Ribeiro; Wevertton Alencar; Bruna Resende Mecchi; Bárbara Navarro Rezende; Jéssica Blanco; João Vitor Sa Teles; Eloá de Souza de Oliveira; Julia Evellin Silva de Jesus; Geovany Goulart Rotella; Thales Rodrigues Antonelli; Jéssica Alessandra Pascoal; Guilherme Vilela Viana; Maria Eduarda Souza Antonietti do Nascimento; Pedro Felipe Moreira De Freitas; Stefany Dias Alves; Rafaela dos Santos Medolago; Yara Alves; Paulo Emílio de Paiva Bonillo Fernandes; Marília Cynttya Alexandre Silva; Maurício Mello; Bruna Ramos Gonçalves; Júlia Maria Matos Marques; Tamiris de Oliveira Figueiredo; Rosângela Borges; Adriana de Oliveira Dias e Graziele de Cássia Pereira.

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N. da D. – Ao longo de seus 37 anos de existência, esta Folha nunca censurou – nem mesmo em nome dessa estranha figura denominada por professores e acadêmicos justamente de jornalismo do tal “bom senso” – os artigos de seus colunistas, colaboradores e leitores, mesmo quando o jornal não concorda com os argumentos apresentados, que são dos autores a total responsabilidade de opinião e pensamento. A isso também entendemos por pluralidade e, por causa dela, não por raras vezes já fomos duramente penalizados – inclusive com prisão arbitrária de funcionários e diretores. E, pelo compromisso que temos com a nossa história, pretendemos continuar agindo assim, até mesmo para assegurar os direitos e espaço em nossas páginas também para as minorias.