Destaques Dia a Dia

No Bico da Cegonha!

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

9 de dezembro de 2020

Eu menino, anos 50. Hoje busco reaver um pouco as memórias e histórias da época das parteiras, quando a maioria dos partos eram feitos em casa. Não havia assistência médica como o SUS, e muitas mães recorriam, na hora do parto, às mãos de uma parteira. Não havia tantos recursos como agora e, uma das principais agravantes era a questão da higiene.

A água não era tratada, a maioria das casas, principalmente dos bairros, eram de poços (cisterna) ou bicas, sem nenhum controle de pureza. Em quase todos os bairros havia as parteiras como se dizia “práticas”, que não cobravam nada, ou às vezes a família pagava como podia. O ofício de parteira muitas vezes se dava por acaso para suprir uma necessidade de um determinado lugar, e a maioria dos partos ocorria em casa porque não havia alternativa ou outra escolha.

Eram poucas as pessoas que podiam pagar e recorrer a um hospital, em nossa cidade de Passos a nossa Santa Casa, ou a uma parteira profissional diplomada, e assim recorriam as que tinham seus conhecimentos apenas na prática e atendiam a população mais carente, muitas vezes era preciso dar assistência a quem morava na zona rural, viajando a pé, a cavalo ou em outras embarcações, percorrendo longos caminhos para finalmente possibilitar a assistência ao parto, e assim, de suas mãos, nasciam centenas de vidas!

Cidade ainda desprovida de calçamento, pouca iluminação, como os partos aconteciam em casa, sem a higiene necessária, ficava em risco a vida da mãe e da criança. Na hora do parto, muitas parteiras se valiam de rezas, benzimentos, proteção do santo no qual era devota, e após o parto davam conselhos para se guardar os 40 dias de resguardo num repouso absoluto. Banho, só depois dos 13 dias, não lavar a cabeça, e todos os dias tomar canja de franga!

Em Passos também havia as parteiras tradicionais, muito conhecidas, como Elvira Silveira Coimbra (1888-1958) que em sua profissão de parteira granjeou muito respeito, tendo seu nome em uma das ruas do centro de nossa cidade de Passos. Outra foi Dona Geralda Mendonça, com quem convivi muito, foi minha freguesa na Sapataria onde fizemos alguns de seus calçados e consertávamos seus sapatos e sandálias.

Celinho, meu amigo escritor, em seu bom livro “História de Fortaleza de Minas” faz referência a muitas parteiras de Fortaleza de Minas. Sua mãe, Julia Maria de Jesus foi uma boa parteira, em seu livro Celinho cita também as parteiras: Ponciana, Benvinda, Idalina, Antônia Bela, Preta do Zé Belo, Rita Bela. Outra famosa parteira em Fortaleza de Minas foi a Geralda do Justo, que além de suas simpatias e orações fazia o uso de suas brincadeiras: “Bamos, bamos, na hora de por pra dentro é com abraços e beijos e na hora de por para fora é com suspiros e… Bamos, bamos, suspira fundo, deixa de frescura e deixa o neném vir ao mundo”!

Tem certas coisas que a mente de menino não esquece: bairro da Penha pequeno, molecada jogando bola nas ruas poeirentas, vez em quando nossos rachinhas precisavam ser interrompidos para dar passagem para o Fordinho do Sô Otaviano Pereira trazendo a diplomada parteira Margarida Thomé (1879-1974) para um trabalho de parto. E nós, meninos, escutávamos a curiosidade dos vizinhos que sempre perguntavam: “É homem ou mulher?

E assim foi-se o tempo em que na hora do parto o pai ficava na cozinha andando de um lado pra outro esperando ouvir um choro para saber se o filho era menino ou menina. E os irmãos menores, na inocência, ficavam no terreiro da casa olhando para o céu à espera de uma tar cegonha chegar trazendo no bico o mais novo irmãozinho! Enfim, tudo isso já era, tudo isso já caiu de moda. Atualmente o nascimento de uma criança está cercado de procedimentos técnicos e muita preparação e segurança na hora do parto. É o tempo passando e a gente “Memoriando”!