Destaques Opinião

Nem tudo está perdido

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

18 de janeiro de 2021

Na verdade, não sei se vou à frente, se paro no meio do caminho ou faço meia volta. Explico-me. Tudo muito confuso, denso, turvo, enigmático. Ponham a culpa em qualquer fator. Em desgovernos, falta de sensibilidade humana e política e de caráter universal. Especialmente na Covid-19, que veio para tirar-nos a paz, ceifar vidas queridas, muitas das quais prematuramente.

O poeta e compositor de São Paulo, AC de Paula, em O Pergaminho, órgão de imprensa formiguense, em Opinião de 06-1-21, fez uso de uma expressão que dá a pedra de toque sobre o que anda acontecendo nos tempos de hoje.
Sob o título “Vacina Moral!“, entre outras colocações, o colunista expõe: “Hoje vivemos o denominado novo normal, uma realidade que até pouco seria uma distopia, as máscaras e o distanciamento social fazem parte do cotidiano daqueles que acreditam na ciência e suas pesquisas“.

O vocábulo “distopia” foi o que chamou a atenção, até mesmo por se tratar patologicamente de um órgão localizado fora do eixo, fora de lugar. Explicação abrangente “Aurélio um deles” dá a conotação de “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação“. Trata-se, também, e por definição genérica, de “antiutopia”.

De fato estamos vivendo esta desordem. Não apenas pela disfunção da pandemia. Pandemônio daria o tom mais trágico e dramático. Não temos muito que fazer senão esperar, acreditar, confiar. Mesmo sabendo que estamos mais para sortilégios de fatos e acontecimentos do que para florilégios em face do mundo real.

O primeiro (sortilégios), como que feitiço e encantamento dos quais não podemos nos desligar e nos afastar na literalidade dos atos. O segundo (florilégios), como que coletânea de deliciosos sonhos e ideais. E por mais que nos esforcemos mais distantes ficamos dos faróis para iluminar mares na busca de problemas, hoje, mais do que nunca, na forma de descoloridos dias de não muitas graças e efeitos.

E nisso falando, o tempo nos obriga a fazer rogo a Rubem Braga, cronista maior de nossa literatura, ele que nos brinda com a tecelagem de uma de suas magistrais crônicas, escrita num tempo qualquer na década de 50. Numa lição de simpatia, preciosidade literária de singular riqueza e para todos os tempos e momentos, o escritor capixaba, do seu jeito e modo, narra para apreço e deleite:

E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão“. (Sinopse de – A Borboleta Amarela, Editora Record, 7ª Edição, 1984).

Com a licença dos citados autores – o de agora e o de antanho – vamos botar fé em indisfarçáveis tristezas e aplacar a fúria de lancinantes dores. E atravancar momentos de incertezas plúmbeas. Porque, na verdade, a tristeza fura filas, rompe bloqueios e bota medo e tormento em tudo e em todos.

Estamos sob o impacto do desconhecido, do deplorável. Debaixo do manto nada sagrado de pessoas que dizem ser o que não são, em estado de letargia, da inércia, do medo puro e simples, quando não da estúpida covardia e daí para pior. Sem a permissão de gestos aos que se vestem para a grandeza de festivos amanhãs. Quando o encanto se desvanece ante a incompetência e ingerência de insensatos e debiloides.

Como que a fórceps, um pouco de poesia faz bem. Podíamos fazê-lo poeticamente, assim: o peito se faz forte quando não se perde o norte. A cabeça aguenta quanto mais se venta. E não há nada a se pôr, ou à frente opor-se, quando, enfileirados, partem sem tempo de dizer adeus e nem de modo dignificante e honroso. Muitas e tantas as tormentas. Seres surgem do nada e se desfazem. No pó que um dia dizem que a ele voltaremos. E tudo se encerra, na dolência, sem poder saber. Decentes, ou simplesmente, descentes?

Em meio ao caos, mesmo passando por momentos de grande dificuldade, para os homens de bem, e aos nem tanto, é torcer pelos que estão chegando e pelos que hão de chegar. Senão para celebrar condignamente os acontecimentos de bom grado, que venham. E serão bem-vindos. A estes, na tradução da empatia e solidariedade humana positiva, a força de que, em meio a crises, hão de sobrepairar a força, a fé e a esperança de que nem tudo está perdido.

Lá no alto, uma luz especial nos contempla, observa, cuida e brilha para nós, por nós. Dividir com astros e estrelas, o firmamento em si, nossas angústias e tristezas, parece ser o melhor caminho. Afinal, sentimentos míseros e tacanhos podem se diluir na fraternidade de infinitas grandezas. E por que devemos lutar até o fim, não importam as adversidades? Embora o futuro pertença a Deus, em ato de concessão, o templo sagrado somos nós. Por conseguinte, cabe a nós a responsabilidade dos cuidados. O cuidado para com a vida e no que tange à saúde física e mental e, sobretudo, na atenção psicossocial.

A responsabilidade de que se fala é tema de grande impacto e relevância. Como se estivéssemos tratando de um planejamento de toda e qualquer empresa ou empreendimento moderno, na ordem sustentável e lucrativa. É questão de valorização de pessoas e seus talentos, na promoção do bem comum. Desta forma, se estamos diante de uma situação sem precedentes na história do ser humano na terra, devemos, sim, nos unir de forma inteligente, serena, sem precipitações e nem açodamentos. Fazendo uso do que há de melhor na ciência, como aconteceu, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial. Dos escombros, surgiram grandes nações. Como o Japão.

Vamos, então, redefinir o futuro. Redimensionar a vida das gerações vindouras. E através de nossas armas (leiam-se almas), no campo da ciência, vamos sair dessa tribulação, como saímos de outras, de outros tempos. E sairemos de outras mais. Quantas vezes for preciso. O homem é o que ele quer ser. Assim pode ser. E assim será.
PS: Não boicotem as vacinas e seus insumos. Tome tenência, capitão! Amém!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.