Destaques Dia a Dia

Nas sombras da Tormenta

25 de julho de 2020

A matraca reboava nas madrugadas de Sexta-Feira da Paixão nas praças e ruas desertas do Carmo do Rio Claro, lembrando aos fiéis que se arrependessem dos pecados naquelas semanas santas, década de sessenta. Chacoalhando- as com a força da fé lá estava eu, seminarista de Guaxupé “estagiando” nas cerimônias e nas práticas sacerdotais que, entretanto, não se confirmaram no futuro.

O ventinho frio e cortante do outono carmelitano era amenizado pelas bondosas almas de matrons caridosas nos oferecendo leite quente com chocolate, acompanhado de fumegantes bolinhos de fubá rolados no açúcar queimado. A gente chegava até à manhãzinha completamente esgotado de cansaço e sono mas com a barriga esturricada de quitandas e guloseimas, sobras estrategicamente embolsadas para precisões tardias. Me lembro de um crioulo alto, forte como sua voz estridente a nos oferecer umas laranjas ilhoas e panásia descascadas no canivete, uma porção de mandioca frita, na casa simples, famoso pela numerosa prole. O Gustavão, e ele conta até hoje, é quem gostava de mexer com o Brás:

– Então Brás? Quantos filhos você teve?

– Eu tive ninhum não, patrão.

Minha muié é qui teve. Ieu só judei a pô eles dentro dela! – e ria a risada das consciências tranquilas. Aliás, a pacatez da cidade e as belezas da região, as serras e cachoeiras ladeando as ondulações suaves por onde passava a estrada me foram relatadas pelo papai antes mesmo que a conhecesse, já que ele estudou no internato dos padres (Colégio Cônego Leopoldo) pelos fins de trinta e entrada dos quarenta. E lhe foi ponto de pouso, mais tarde, e descanso do cavalo nas suas idas de Capitólio a Alfenas para os estudos universitários.

Consta nos relatos dos “velhos manuéis” que nas plagas carmelitanas surgiu, certa vez, um sujeito assim mistura de ecologista (naquela época!!!)e São Francisco. O Toninho Figueiredo falava com passarinhos na sua língua, desentocava tatu só no proseio, calava grilo de noite e fazia onça dormir. Funcionário aposentado do Banco do Brasil, vivia por conta da bicharada e dos netos na cidade ena fazenda Água Limpa domano Dimundo, casarão dequarenta janelas onde davapara brincar de pique nos vastossalões e corredores.

Paraprovar aos descrentes suas habilidades de ensinador, criou desde pequeno um urubuzinho órfão, batizado de Pepi-to. Depois de crescido, o tal urubu dedicou uma fidelidade canina ao sô Toninho, pulando atrás dele, beliscandolhe de brincadeira a calça e voando sobre sua cabeça, indo descansar depois no ombro “materno” e contando segredos de pé-do-ouvido. Competindo com o Pepito apenas a dupla de camundongos ensinados que, devidamente cangados, arrastavam um carrinho de bois (no caso, de ratos) sob o comando de um ferrãozinho corretivo.

A região foi infestada, numa ocasião, não se sabe de onde, por uma malta de lobos insolentes que ameaçavam as criações desgarradas, predando ainda os pequenos animais silvestres. Na caçada dos bichos, o sô Toninho Figueiredo, então um moço na flor das primeiras barbas, contava que um ele conseguiu encantuar numa grota sem saída.

A arma apontada sem êrro – o lobo tentando intimidar o homem com o rosnado raivoso e a ferocidade do olhar. Diz ele que, naquele mágico instante, viu no fundo do olho de sua vítima um monte de mulheres bonitas a entrar na sua vida. Passou fogo e guardou as órbitas do tal como talismã por quase toda sua longa existência, exibindo prá quem quisesse ver de onde provinha a invejada sorte que possuia na conquista das paixões femininas.

Outras figuras fazem a deliciosa história folclórica do Carmo como o Tião Cacafogo. Quem se deliciava em narrar algumas passagens suas na igreja era o Padre Marcelo como, por exemplo, a da Ave Maria. O sô Tião era muito supersticioso e “morria” de medo da morte. Tanto, tanto, que nas responsas do terço, ele rezava: -”Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e tutitutituti. Amém.

Ah! Tinha também o Zacarias, um filósofo autodidata que optara por perambular sem rumo pelas ruas do Carmo. Surpreendente nas suas tiradas. Uma vez, ele passou a noite dormindo na varanda do sô Amadeu, numa cadeira comprida de palhinha. Bem cedinho, no orvalho derradeiro, o dono da casa se levanta e topa com o “hóspede” agachado num cantinho do jardim completando a última fase da digestão. Flagrante inóspito para qualquer um de nós, mortais comuns, todavia, na nobreza do puros de coração que são capazes de enxergar o mal onde ele realmente existe, demonstrou a mais completa e inata educação: – Tá servido de dar uma cagadinha, seu Amadeu? Bons tempos.