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Nada na língua é por acaso

11 de julho de 2020

O título dessa crônica me fez lembrar daquilo que muitas pessoas dizem: “nada na vida é por acaso. Tudo acontece por algum motivo”. Na verdade, esse título é o nome de um livro também. Trata-se do livro de Marcos Bagno, professor-doutor na área linguística.

Eu já afirmei nesse espaço que o estudo da gramática tradicional nos mostra uma visão de que existe um modo correto de falar e de escrever. Por sua vez, os cientistas da língua asseguram que no estudo da Linguística, vemos que todas as formas de expressão verbalizadas possuem uma estrutura gramatical, isto é, qualquer uso linguístico segue uma regra que obedece uma organização lógica e, portanto, pode ser mostrada com clareza para que possamos entender o porquê de muitos usos que fazemos da Língua Portuguesa.

Se eu perguntar a qualquer pessoa escolarizada sobre pronúncias tais como: “broco”, “ingrês”, “chicrete”, “pranta”, o que ela me diria? Muito provavelmente, haveria uma avaliação ou observação de que essas pronúncias estão totalmente erradas e que são usadas apenas por pessoas analfabetas, pobres, moradoras da zona rural etc. Realmente, observando esse tipo de pronúncia, dentro de um ambiente escolarizado, isto é, onde as pessoas possuem formação, não há como considerar essas palavras, correto?

Bem, e se eu lhe mostrar que a troca da letra “L” por “R” em encontros consonantais é um fato histórico da Língua Portuguesa e que muitas palavras que hoje têm um “R”, tinham um “L” em sua origem? Hein??? Como assim? Quer dizer que algumas palavras que possuem o encontro consonantal com “R”, que nós, os escolarizados, falamos hoje, eram palavras escritas com “L” antigamente? Pois é, meus amigos e minhas amigas, a resposta é SIM!!!

Observe as palavras seguintes: brando, cravo, dobro, fraco, frouxo, obrigar, prazer, pregar e prumo. O que há de errado com elas? Nada! Correto? Então! E se eu lhe disser que elas são provenientes do Latim e eram grafadas com “L”? Veja: blandu, clavu, duplu, flaccu, fluxu, obligare, placere, plicare e plumbu. Eita!!! Agora, faça a comparação com as que usamos hoje.

Dessa maneira, aquilo que consideramos um erro ortográfico e/ou fonético (pronúncia) pode ser explicado pelo contexto histórico, pois trata-se de um processo antigo de uso da língua. Aqui entre nós: não é muito mais fácil pronunciar “praca” ao invés de “placa”? Faça o teste!!! Enfim, está claro que não é prudente utilizar aquelas palavras trocando o “L” pelo “R”, mas fica uma lição: não podemos fazer chacota com as pessoas não-escolarizadas. Além disso, há pessoas que possuem um problema vocal, fisiológico na boca, que impede a pronúncia do “L”.

Bom, se nada na vida acontece por acaso, na língua portuguesa ou em qualquer língua natural, ocorre da mesma forma. Ou seja, tudo possui uma explicação, um porquê. Muitas vezes, não sabemos os motivos, as origens, mas aí, já são outros quinhentos. Um abraço!!!

PROF. ANDERSON JACOB ROCHA. Doutor em Língua Portuguesa (PUC/SP). Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob