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Mulheres levantam ‘capivara’ de pretendentes

Por Adriana Dias / Redação

8 de março de 2021

Foto: Divulgação

Com dados alarmantes sobre violência doméstica, mulheres de várias partes do país estão utilizando da estratégia de levantar a ficha criminal, famosa ‘capivara’ nos meios policiais, do pretendente a novos relacionamentos. Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG), nos últimos três anos foram registrados 8.538 casos de violência doméstica e familiar contra a mulher em 25 municípios da região.


O que você também vai ler neste artigo:

  • Psicólogo orienta como reconhecer sinais de abuso
  • Pandemia
  • Psicoterapia

Especificamente sobre mortes de mulheres, desde o dia 9 de março de 2015, está em vigor no Brasil a Lei do Feminicídio, sancionada pelo governo federal, motivo pelo qual os dados oficiais para esse tipo de pesquisa são considerados somente a partir de abril de 2015. Na região de Passos, mulheres estão se valendo de todos os tipos de pesquisas para saber se os pretendentes a um namoro são homens agressivos ou abusadores e, principalmente se têm alguma passagem sobre algum tipo de agressão.

Para a estudante universitária Pietra Cruz Paranhos (nome fictício), após ter sido alvo de agressões verbais por um interessado em namoro, que ela conheceu inicialmente em um aplicativo de relacionamento, fez uma busca no site Jusbrasil e descobriu que ele tinha uma denúncia que culminou em medida protetiva contra ele.

Se alguma namorada já fez ação e ele tem medida protetiva, não será um pretendente interessante para que eu queira me envolver. Então, neste sentido a experiência de outras mulheres, buscando este tipo de pesquisa, foi útil no meu caso”, disse.

Ainda conforme Pietra, esta medida tem sido adotada em várias cidades para evitar que sejam vítimas de violência doméstica. “Como atualmente as pessoas estão iniciando os relacionamentos se conhecendo pela internet, quer seja em sites ou até mesmo em redes sociais, esta é uma estratégia interessante de usar”, afirmou.

Outra estudante universitária contou à reportagem, e vamos assegurar o sigilo da fonte e criamos o nome fictício de Amanda Mel Amaro Moreira, que sempre faz buscas, por conta de entrar no relacionamento com maior segurança.

Procuro o nome do pretendente no Google e foco em “notícias” e no JusBrasil. Além de buscar as redes sociais da pessoa, ver se temos amigos em comum, e, se tiver amigos em comum, peço informações. Já precisei recuar em alguns casos por conta do que fiquei sabendo por meio de amigos. Se a pessoa é violenta ou abusiva, caio fora. Se faz com um faz com todos. E, começo de namoro tudo são flores, mas comigo não cola, aí, se é violento, imagina me envolver, me apaixonar, casar e até mesmo ter filhos com uma pessoa assim. Outra coisa que me chama muita atenção nesses apps é a quantidade de fakes, mas aí já não entra na pesquisa”, afirmou.

Mesmo sem nunca ter iniciado namoro com pessoas que conheceu em aplicativos de relacionamentos, Nair Belíssimo da Silva (nome fictício), explica que utiliza, além do site do Jusbrasil, o site da Polícia Civil para pesquisar antecedentes criminais.

Infelizmente, os dados de feminicídio são alarmantes demais para serem desconsiderados ou pouco pensados. Então, após eu e uma amiga passarmos por situações desagradáveis com pessoas de aplicativos de relacionamento, nós duas resolvemos ver como fazer para evitar passar situações constrangedoras. Então, sempre que conheço alguém, faço busca no Jusbrasil e na Polícia Civil. Além de redes sociais e de forma geral no Google. Porém, nunca encontrei um abusador, mas após esta situação na qual a pessoa quis passar do ponto e fazer algo que eu não gostaria, e, ao reclamar ele foi agressivo verbalmente. Também busco informações com conhecidos da pessoa”, salientou Nair.

Para buscar os antecedentes criminais de uma pessoa, basta acessar o site da Polícia Civil do estado, clicar em “Atestado de Antecedentes Criminais” e acessar o formulário, que exige alguns dados pessoais da pessoa.
Também é possível levantar dados de processos no site do Tribunal de Justiça de cada estado. Nele, é necessário clicar em consulta processual e depois, em consultar processo. Como existem algumas pessoas com nomes iguais, é importante saber o nome da mãe do pretendente.

A Folha procurou a responsável pela Delegacia da Mulher em Passos, a delegada Mariana Fioravante, que preferiu não falar sobre o tema. A assessoria de Comunicação da Polícia Civil de Minas Gerais se limitou a passar o link com dados de violência doméstica, também não fornecendo depoimentos a respeito do assunto, por não se tratar de assunto oficial da instituição.

Psicólogo orienta como reconhecer sinais de abuso

O psicólogo da Unimed Sudoeste de Minas, Felipe Néri, explica quais são os principais sinais de um relacionamento abusivo. / Foto: Divulgação

O relacionamento abusivo se configura quando uma das partes da relação fica impedida de responder em condições de igualdade frente às agressões e intimidações. Assim, se caracteriza o abuso a partir do momento em que uma pessoa se vale da sua posição de poder para controlar a outra, em que se possa encontrar sinais de, pelo menos, cinco tipos de violência: a violência física, a sexual, a psicológica, a moral e a patrimonial, como explica o psicólogo da Unimed Sudoeste de Minas, Felipe Neri.

Na verdade, independente do tipo de relacionamento, o abuso acaba sendo definido como um jogo de controle, violência, ciúmes e abusos, que começa por parte do agressor privando a vítima de tomar suas próprias escolhas e de ter liberdade, mesmo que nas tarefas diárias comuns. Muitas vezes, as vítimas desconhecem e se dão conta que estão vinculadas a um relacionamento abusivo”.

Os sinais iniciais de um relacionamento abusivo estão em alguns comportamentos e ações muito sutis, que aparecem aos poucos e, geralmente, demandam certo tempo para se agravarem.

Porém, o que deve-se atentar são sempre aos sinais de excessos em relação ao controle, como: possessividade, ciúmes, medo, culpa, ameaças, indiferença por parte do agressor, violência e agressividade e questionar se tais atitudes têm causado desconforto ou mal estar”.

Apesar de ser comum que a vítima reconheça alguns destes sinais, é também frequente a dificuldade de se desvincular de um relacionamento abusivo. O psicólogo dá algumas explicações sobre este comportamento.

São vários os entraves encontrados por uma vítima para sair de um relacionamento abusivo. Uma das maiores dificuldades é que por haver um círculo vicioso do abuso que comporta diferentes naturezas da violência, como a naturalização de alguns comportamentos abusivos e violentos (após muito tempo se acostumando com pequenas brigas, gritos, abusos verbais (xingamentos, por exemplo), ‘tapinhas’ e abusos emocionais. Outro fator é que dentro do jogo emocional, o abusador vai sendo capaz, aos poucos, de inferiorizar o abusado. Nesta situação a vítima, ao tentar sair da relação, geralmente sustenta a baixa estima e sente-se sozinho, sem uma rede de apoio sólida, havendo uma falta de confiança em si e no outro ou um sentimento de que outras pessoas podem depositar ‘descrédito’ no seu pedido de ajuda. E ainda há inúmeros outros motivos como: medo de perder os filhos pela incerteza do sustento dos mesmos, dependência financeira, acreditar na mudança de atitudes do abusador, por sentir-se culpada pelo comportamento do agressor, acreditar que o ciúme é um tipo de proteção da parte dele, ou até mesmo por amor e o desejo de manter a família”, detalhou.

Felipe Neri explicou que existem facilitadores primordiais para o rompimento de um relacionamento abusivo e o principal é o estabelecimento de uma rede de apoio.

Uma ou mais pessoas que o abusado possa contar serão essenciais no primeiro momento, já que o medo do agressor, a vergonha por ser vítima e o isolamento se faz presentes. E além destas pessoas centrais, a vítima também pode buscar apoio em serviços especializados (assistenciais e jurídicos). Além disso, a busca pela psicoterapia passa a ser fundamental, uma vez que trabalhará o sofrimento e outras perspectivas futuras da pessoa”, acrescentou.


Pandemia

Várias pesquisas e reportagens têm apontado para um aumento da violência doméstica desde o início da pandemia. A tensão familiar aumentada pela maior convivência diante do isolamento, do desemprego e das dificuldades financeiras frente à crise, e podem ter relação com este cenário.

A tensão no ambiente familiar, envolvendo relações que já eram violentas antes da pandemia alia-se à situação da vítima, que se encontra em maior dificuldade em função do medo de se locomover, alimentando ainda mais a visão de se estar presa à situação. O cenário inclui, muitas vezes, a impossibilidade de acesso frequente à ligação ou mensagens para familiares e amigos, já que a presença do abusador passou a ser constante. Outros fatores importantes são: o estresse por questões financeiras, dedicação de tempo intensificada aos filhos, o aumento automático do trabalho doméstico (infelizmente sob o efeito da ‘cultura machista’), aumento de uso de bebidas alcoólicas por parte do abusador. Até mesmo a fragilidade e a vulnerabilidade que o abusador acaba por sentir com a pandemia, vendo a violência como forma (disfuncional) de externalização desta tensão, prejudicando ainda mais a saúde física e mental da família e da vítima”, explica.

Apesar de ser mais frequente a discussão sobre a mulher ser vítima de um relacionamento abusivo, vale ressaltar que os abusados podem ser homens ou mulheres, mas também não se restringindo somente aos adultos, podendo ocorrer também com crianças, adolescentes e idosos, tornando ainda mais importante tal debate, pois os relacionamentos abusivos podem ser de cunho familiar, entre amigos ou até no ambiente profissional.


Psicoterapia

Nos casos em que a pessoa foi vítima de um relacionamento abusivo, é importante que ela possa encontrar caminhos para ressignificar sua vida e seus relacionamentos, de modo a reencontrar a autonomia e independência, seu autocuidado, autoestima e autovalorização, sendo recomendável o acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico, inclusive para evitar que ela retome o relacionamento com o abusador.

A vítima precisa encontrar a consciência de que não tem culpa do relacionamento tóxico e conseguir romper a sequência desse processo que fará com que ela possa libertar-se das amarras condicionantes de seu estado emocional, podendo reconstruir novamente seus laços sociais e retomar o seu curso natural. Acredito que a melhor reflexão que podemos fazer é que um relacionamento abusivo e seu encerramento pode ser mais complicado do que parece, pois o abuso,seja ele de qual tipo for, traz sérios impactos para a saúde e vida das pessoas que estão nesse ciclo, sendo muitas vezes silencioso e, infelizmente, havendo uma tendência social de culpabilizar e questionar quem sofre o abuso por não romper tal ciclo de violência. Contudo, a percepção do relacionamento como abusivo é difícil, principalmente quando ocorrem outros fatores de interdependência agregados. Com isso, se torna ainda mais importante tornar possível, seguro e necessário sair deste tipo de relacionamento, lembrando sempre que da importância de contar com apoio profissional de serviços especializados”, finalizou.


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