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Movimento contra a pele perfeita

19 de agosto de 2020

Márcia Fortuna e a filha Letícia, de 9 anos. Uma é apaixonada por maquiagem, enquanto a outra sempre evitou. / Foto: Divulgação

Encontrar uma mulher completamente satisfeita com sua aparência é difícil. A busca pela pele e pelo corpo perfeitos – exibidos em propagandas, revistas e filmes – já existe há muito tempo. No século 21, contudo, a disseminação do padrão estético é feita largamente pela internet. Mas, se por um lado as redes sociais podem reforçar estereótipos, por outro, elas dão luz a causas, antes, não tão conhecidas. Hashtags como #pelelivre e #skinpositivy ficaram famosas por mostrar pessoas reais, sem filtros e completamente fora desse tal padrão. Hoje, são quase 85 mil publicações com esses termos no Instagram.

“É assim que a mudança acontece”, opina a influenciadora norte-americana Mikayla Zazon, criadora do movimento #NormalizeNormalBodies e #NormalizeNormalSkin (#NormalizeCorposNormais, #NormalizePelesNormais). Depois de lutar por seis anos contra bulimia, dismorfia corporal, depressão e ansiedade, ela passou a influenciar outros que sofriam como ela. “Tudo o que vemos repetidamente é mais normal em nossos cérebros. E a sociedade tem nos feito lavagem cerebral desde que o marketing passou a existir. ‘Criar problemas é fazer mais dinheiro’: essa é a filosofia deles. Então, quanto mais pele real vemos, mais percebemos o quão normal é”, diz.

Pele perfeita é pele saudável”, afirma a dermatologista Carla Vidal. “Claro que a gente consegue tornar cada dia a pele melhor, mas dizer ‘a minha pele é perfeita, eu não vou ter acne nunca mais’, isso é impossível. Primeiro eu tenho que ter uma pele saudável; depois bonita.” Segundo ela, as espinhas aparecem principalmente por questões hormonais e genéticas, mas a alimentação e a limpeza da pele também podem contribuir para o quadro. No caso das mulheres adultas, a acne pode surgir por estresse.

Desapego

O período da quarentena convidou mulheres a se libertar de certas preocupações estéticas, como pintar os cabelos. “O afastamento social acabou nos dando a chance de praticar o desapego e experimentar coisas novas. O processo de envelhecer não é fácil, mas precisa, no mínimo, ser aceito como natural para que possamos ser mais felizes. Sem regras, sem tabu e sem preconceito”, contam as criadoras da página @shet_alks, Camila Faus e Fê Guerreiro.
De acordo com a influenciadora digital Patida Mauad, de 62 anos, a pauta sobre a pele está crescendo. “Eu viro referência para mulheres de 30, 40, 50 anos, que começaram a me seguir porque pensaram: ‘se essa mulher com 62 pode, eu também posso’”, diz ela, que tem seguidores “dos 18 aos 70 anos”. Na contramão da ditadura da beleza, Patida nunca usou creme antirrugas, tingiu o cabelo ou pensou em fazer plásticas.

Sem hábito de usar maquiagem, a publicitária Marcia Fortuna, de 42 anos, admite ter comprado cremes anti-idade, mas ela raramente se lembrava de usar. “Os potinhos venciam antes de acabar”, conta ela, que, assim como Patida, prefere se cuidar internamente. “Fui apresentada ao colágeno, que, junto com uma boa alimentação, me faz rejuvenescer de dentro para fora. E meu kung fu ajuda na autoestima.” Ter amor próprio, no entanto, não impede que uns dias sejam melhores que outros. “Quando me sinto feia em uma foto, lembro que as rugas existem porque dou muita risada.