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Morre Pierre Cardin

POR WAGNER PENNA / Especial para a Folha

4 de janeiro de 2021

Pierre Cardin, Morre o designer que virou marca. / Foto: Divulgação

O final do ano fashion de 2020 foi assinalado pela morte do estilista Pierre Cardin, o nome da moda mais conhecido pelo grande público. Em seus 70 anos dirigindo e criando moda, promoveu grandes avanços no setor. Saiu da exclusiva e cara alta-costura para colocar seus vestidos em lojas de departamento parisienses, assim como emprestou sua marca para design de carros, móveis, casas e muito mais.

O interessante da vida de Cardin (nascido na Itália, vivendo na França desde a adolescência) é que fez coisas extremamente visíveis – mas pouco percebidas. Uma delas, o famoso terninho dos Beatles (com gravata fina), as primeiras camisas masculinas assinadas por um costureiro feminino, a proposta de moda futurista e sem link com o passado. Um revolucionário.

Valendo bilhões de euros, seu império continuará dirigido por um sobrinho – que já o acompanhava nos últimos anos. As apostas são de que grande parte será vendida agora, atendendo as exigências do mercado fashion cada vez mais aglutinado em torno de ‘holdings’ poderosas. Adorava o Brasil e aqui esteve por várias vezes. Chegou mesmo a ter um restaurante no Rio, inaugurado com a conhecida pompa francesa. Até papel em filme brasileiro fez, com cenas filmadas no Nordeste. Foi-se aos 98 anos muito bem vividos.


MARCA

O estilista cujo nome famoso estampou tudo, de relógios de pulso a lençóis, depois que seus estilos icônicos da Era Espacial o atiraram na estratosfera da moda na década de 1960. No negócio dos licenciamentos, o nome de Cardin apareceu em milhares de produtos – o apogeu da marca aconteceu nas décadas de 1970 e 1980, quando produtos com sua assinatura cursiva e sofisticada eram vendidos em cerca de 100 mil pontos em todo o mundo.

Esse número diminuiu drasticamente nos anos posteriores, à medida que seus produtos eram cada vez mais considerados de fabricação barata e suas roupas – que, décadas depois, permaneceram praticamente inalteradas em relação aos estilos dos anos 60 – pareciam quase ridiculamente desatualizadas. Empresário experiente, Cardin usou a fabulosa riqueza que foi fruto de seu império para abocanhar propriedades de primeira linha em Paris.

Como muitos outros designers, Cardin decidiu em 1994 mostrar sua coleção apenas para um pequeno grupo de clientes e jornalistas selecionados. O designer amava a alta sociedade e o mundo do jet set, por isso, em 1981, comprou os famosos restaurantes parisienses Maxim’s. Em pouco tempo, abriu filiais em Nova York, Londres e Pequim, além de ingressar em uma rede de hotéis. Entre as licenças da linha Maxim’s, estava também uma água mineral que era retirada e engarrafada em Graviserri, na província de Arezzo

A trajetória de Cardin inspirou um documentário, apresentado no Festival de Veneza, em 2019: House of Cardin, de P. David Ebersole e Todd Hughes. Uma viagem que explora em todos os aspectos o que muitos definem o Enigma Cardin, dada a confidencialidade do homem, e a capacidade do artista e empresário de criar um império, com um valor que ultrapassou um bilhão de dólares.