Destaques Dia a Dia

Modernices

27 de junho de 2020

O Bacurau do Manezinho se mudou cedo pra Belo Ho- rizonte, onde misturando sorte e trabalho, enricou de muito cobre. Pelejou pra levar os pais de mudança, mas a dona das Dor entestou em fincar a vida no seu cantinho, com medo das trenheiras ruins que diziam da capital e por conta dum vínculo afetivo com a terra natal, de não se sabe quantas gerações de pratras- mente.

Largar meu criatório de galinha, minha hortinha, mi- nha casinha acá na roça, os passarinhos, o pomar, o mi- lho das pamonhas, as goiabas pro doce, os preparos do porco matado, leitinho do curral, morno de fresquinho? Nem carece outra luz que não a de lamparina! Tô muito fe- liz com minhas coisinhas!

Enfraquejado nos argu- mentos, no impossível de de- satar o nó e convencê-la dos confortos de BH –casa boa, empregadas, serviço nenhum, hospitais, supermercado etc.

– o Bacurau resolveu então trazer os confortos pra roça: mandou duma veizada puxar a luz, melhorou a casa onde a mãe permitiu e pôs geladeira, fogão a gás, rádio, ferro de vapor, chuveiro, máquina de lavar, torneira quente na pia, televisão com sofá, banheiro novo de azulejo com bidê e, suprema ousadia, um compu- tador completinho com câmera, microfone e internet. “pra senhora conversar comi- go, me vendo e eu vendo a senhora!”.

Virou do avesso a rotina do Manezinho e da das Dor. Aos pouquinhos, foram en- tendendo cada novidade: nem precisava mais assoprar a le- nha do fogão, era só torcer o botãozinho; nem ajuntar bra- sa pro ferro de passar, só li- gar na tomada; tinham terço e missa diária em casa, pela televisão; lavação de roupa, só pendurar no varal sem preci- são de bater e quarar; nem carecia mais salgar a carne, só tacar dentro da geladeira; de noite, tudo clarinho, sem chei- ro de querosene; o bidê, a das Dor achou bonitinho mas nunca teve coragem de usar.

Atravanco mesmo foi o tal do computador, porém a saudade do Bacurau e do ne- tinho pequenino foi tirando a cisma entre ela e o computa- dor até que mandou recado pra professora vir do Piumhi a molde lhe desvendar os se- gredos daquela modernidade e ensinar no meximento, con- forme deixara acordado o fi- lho na escola de informática.

O Manezinho refugou de pri- meira e definitivo entender aquele troço, encasquetou que dava choque e pronto, nem a pau! Tinha já o celular pra se divertir quando decidia tirá- lo da gaveta entre as roupas, “pra não gastar nem estragar”. Mantinha-o em carga máxi- ma pois quase toda noite o Bacurau ligava.

Duas semanas depois, a das Dor, num rasgo de esfor- ço, já sabia ligar o computa- dor. Mais uma semana e sa- bia desligar. Aí esqueceu como ligar. Volta pro começo.

Ia indo… aprendendo… desapren- dendo… reaprendendo.

Os dedos calejados cutucando as teclas com vagar e força que nem os fran- gos do terreiro, ciscando, cisman- do e bicando o chão. Cada pas- so anotadinho no caderno.

No dia que a instrutora conectou-se com a nora e a das Dor viu o netinho fazen- do caretas e acenando tiauzi- nhos, acendeu-se a paixão de estudar mais ligeiro pra acompanhar à distância o crescimento e as gracinhas do Bacurauzinho.

– Corre aqui, Mané. Pro cê ver o seu neto e seu neto te ver. O Manezinho virou meni- no, babando de corujice, su- jando a tela do monitor como se tocasse a carinha rosada e os dedinhos rechonchudos do neto. Mas nem assim se aventurou no computador, dei- xando por conta da “minha véia” o destino de manusear aquela maravilha.

E toda vez que a moça conectava BH, vinha tam- bém o Manezinho se deliciar com os parentes quase empoleirando na cacunda da das Dor.

Enfim, seis meses de cur- so intensivo em centenas de horas no treino, a das Dor achou que podia tocar o bar- co sozinha. Foi aí que os pro- blemas principiaram!